Desporto

Tour das quedas consagra Nibali

A Volta a França começou em Inglaterra pela segunda vez em 101 edições. Mas no país dos dois últimos vencedores da maior competição de ciclismo do mundo, Bradley Wiggins e Christopher Froome, todas as atenções estavam centradas em Mark Cavendish.

O sprinter apresentava-se com um currículo de 25 vitórias em etapas no Tour mas sem nunca ter cumprido o sonho de vestir a mítica camisola amarela. O cenário da região de Yorkshire e mais precisamente da cidade de Harrogate alimentavam o sonho: “A primeira etapa termina na cidade onde nasceu a minha mãe, é muito entusiasmante. Os meus avós vivem aqui, assim como um tio. É bom ver os locais que conheci quando era novo. Gostava muito de ganhar”, disse o atleta da Omega Pharma-QuickStep, nascido há 29 anos na Ilha de Man.

Como era de esperar, a etapa não deu hipóteses às fugas e o final chegou com o pelotão compacto. A 500 metros da meta, com os sprinters posicionados na linha da frente, Cavendish encostou-se demais à roda do australiano Simon Gerrans. E o sonho acabou no asfalto. “Queria passar a meta, estava em Harrogate, os fãs vieram para me ver”, disse o britânico para justificar o facto de ter voltado à bicicleta para as últimas centenas de metros. Mas com um ombro deslocado, o Tour de Cavendish acabou antes da prova sair da Grã-Bretanha.

Campeões ao fundo

A queda do mais consagrado dos sprinters serviu de mote para o que restaria da prova. Na terceira etapa foi a vez de Andy Schleck cair. Uma lesão nos ligamentos e menisco do joelho direito levariam o campeão de 2010 a não alinhar na partida para a quarta etapa. No dia seguinte, a mais sonante de todas as vítimas: Chris Froome, segundo classificado em 2012 e vencedor de 2013, não resistiu a três quedas em apenas dois dias e terminou o Tour a meio da etapa em que este entrava em território francês. 

Por esta altura já a competição era liderada pelo italiano Vicenzo Nibali, que com vitórias na Volta a Espanha de 2010 e Giro de Itália em 2013, desde cedo apostou forte nesta Volta a França. O ciclista da Astana vencera a segunda etapa para garantir a camisola amarela e aumentou a vantagem ao quinto dia, deixando o então mais forte concorrente, Alberto Contador, a uma margem já assinalável de 2m37s de atraso.

Na nona etapa, uma fuga de 21 ciclistas ainda veio baralhar as contas. Com os favoritos a chegarem quase cinco minutos depois, um dos principais beneficiados foi o português Tiago Machado, da Netapp-Endura, que terminou o dia num histórico terceiro lugar na classificação geral. Histórico também foi o facto de Tony Gallopin ter arrebatado a camisola amarela a Nibali, permitindo que um francês vestisse a mítica camisola no dia de França.  

Mas em 2014 o 14 de Julho ficou marcado por outras quedas que não a da Bastilha. A principal foi a de Alberto Contador, o espanhol que venceu as edições de 2007 e 2009 da Volta a França. Ao lado de Nibali, o espanhol caiu numa descida quando circulava a 60 km/h. 

E apesar de as imagens denunciarem o mau estado do seu joelho direito, o líder da Saxo-Tinkoff voltou à bicicleta para continuar, mas ao fim de 15 quilómetros viu-se obrigado a desistir. Horas depois chegava a confirmação: uma fractura na tíbia obrigou a uma intervenção cirúrgica e, além do Tour, Contador está desde já afastado da Volta a Espanha.

Sem sequer chegar aos Alpes e aos Pirenéus, o Tour ficou órfão dos seus antigos vencedores e Nibali sem adversários capazes de ameaçar a sua liderança. 

Mas o dia fez mais vítimas, incluindo Tiago Machado, que após cair não voltou a alcançar o pelotão e chegou mais de 45 minutos depois do vencedor. “Um dia de cão”, como afirmou o próprio, que só não o levou à desclassificação porque a organização reconheceu o seu esforço para continuar em prova – no dia seguinte, o L’Équipe tinha uma peça dedicada ao “heróico Machado”.

Nibali e os outros

Também azarada foi a participação de Rui Costa, na primeira vez que disputou o Tour na liderança de uma equipa. O campeão do mundo conseguiu escapar sem males maiores a uma queda que sofreu no início da quinta etapa, mas os paralelos da jornada que marcou a chegada a França deixaram marcas. “Tenho a zona que apoia no selim totalmente em ferida”, lamentou o campeão do mundo ainda na primeira semana de Tour.

Ainda assim, o líder da Lampre-Merida conseguiu sempre manter-se entre os 15 melhores classificados da prova, embora as sucessivas perdas de tempo em relação aos líderes mostrassem que o poveiro não estava no seu melhor. E, dois dias depois de ter alcançado a sua melhor posição (9.º), Rui Costa anunciou que abandonava o Tour porque a bronquite que o afectara nos dias anteriores tinha desenvolvido para uma broncopneumonia. 

Por essa altura já se tinha percebido que Alejandro Valverde, principal ameaça a Nibali, não tinha pernas para o ‘tubarão’ italiano, alcunha que ganhou por só darem por ele depois de este atacar. O italiano da Astana tem vindo a ganhar tempo ao espanhol e só uma catástrofe impedirá que chegue de amarelo a Paris, no domingo.

Se o conseguir evitar, Nibali entrará para o restrito lote de atletas que venceram as três principais provas por etapas do ciclismo mundial, ao lado de Jacques Anquetil, Felice Gimondi, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Alberto Contador.

nuno.e.lima@sol.pt