Opiniao

Deus existe e tem sentido de humor

Para espanto geral duas alemãs de meia-idade levaram à boca a água quente, com um bocadinho de limão, que o empregado colocara na mesa para que pudessem lavar as mãos. Os que estavam e se aperceberam esforçaram-se para não se desmanchar e, ao contrário do que se poderia pensar, o empregado de serviço à esplanada, ficou mais embaraçado do que divertido. Beberam até à última gota e agradeceram a gentileza, como antes exultaram com uns pastéis de bacalhau macilentos e sem sabor.

Nada que não pudéssemos fazer. Somos, nós e a generalidade dos outros, condescendentes com o que não conhecemos; no estrangeiro estamos disponíveis para gostar, almoços sofríveis são iguarias, monumentos pouco relevantes obras de artes, as livrarias um exemplo; o que nos perturba nos lugares de sempre passa a ser secundário, exactamente como nas paixões onde ficamos tolinhos e não vemos um palmo à frente dos olhos. Comovente, enternecedor, irritante. Por isso, gosto de dizer que as cartas de amor não são ridículas. Ridículas são as de paixão. Essas sim, mais os olhos ridiculamente apaixonados de quem só parece ver a pessoa que tem à frente. Ridículos. Perdem tudo o que os/nos distingue dos animais, deixam até de perceber a ironia. O sentido de humor dos apaixonados não tem essa subtileza; sofreguidão e saliva arrastam móveis, amigos, família e qualquer esforço cerebral ou piada. Todos os apaixonados são ridículos. E as suas cartas também. Patéticas. Não as consigo escrever, lê-las menos ainda. Pena minha, essa é que é essa, pena minha.

Nessa circunstância cínica, na mesa ao lado das alemãs, sorri invejoso da sua cegueira, da sua predisposição para gostar, do seu estado próximo da paixão. O que seríamos se os nossos pequenos problemas não passassem de pretextos para nos apaixonarmos pela vida? O que poderia acontecer-nos se acordássemos todos os dias como se estivéssemos disponíveis e abertos para viver experiências novas, como se fossemos sempre estrangeiros curiosos e não cínicos passageiros do comboio de sempre? A qualidade de vida aumentaria, disso estou muito certo.

É o mesmo quando, em jantares de amigos, nos perguntam o que faríamos se um amigo morresse amanhã, pergunta retórica e idiota a que nunca evito responder: procuraria saber se de mim precisava. Estaria com ele, faria o que fosse preciso. Uma falsa questão pois nunca saberei se alguém morrerá amanhã ou depois, qualquer coisa que possa argumentar é uma perda de tempo, um entretém de espírito. Mas se colocar como hipótese, mais do que certa, que qualquer dos meus amigos poderá morrer amanhã, se me convencer dessa verdade absoluta, talvez a minha presença na vida de quem amo, de quem amamos, seja mais efectiva.

Óbvio, não é?

Como a história do amor. É sempre verdadeiramente visível no que não parece ser amor. Na casa de banho, a fazer torradas ou a lavar a loiça, é mais fácil avaliar o fio que une duas pessoas. Se o fio for lasso, mais tarde ou mais cedo, as rotinas transformar-se-ão num insuportável cansaço. Mas se for forte, se existir Amor, a vida de todos os dias trará, se a souberem temperar com bom azeite e sal de qualidade, uma absoluta convicção: a de que não existirá vontade de fazer torradas noutra torradeira.

E já que hoje me deu para estas liberdades acrescento que a felicidade que conheço, feita de somo solto e de inexplicáveis sorrisos, é construída na soma de todas as coisas que, aparentemente inúteis, se transformam no que mais precisamos. Um sorriso no momento certo. Uma notícia esperançosa. Um crescer de ilusões. Um abraço, um beijo, uma vontade de ir para casa, uma noção de dever cumprido. A Felicidade nunca está nas grandes ideias feitas (carreira, família, sucesso), está no que parece pouco e é tanto, no que de pequeno fazemos grande, no que de fútil tornamos importante.

A Felicidade está também no que não ousámos, no que não fizemos, no que não conhecemos, nos escritores que não lemos, nos músicos que não ouvimos, nos amores que não vivemos. Porque temos sempre a oportunidade de conhecer o que não conhecemos, de lermos os grandes livros pela primeira vez, de nos deslumbrarmos com o que ainda não sabemos, como o que ainda não tivemos e sentimos.

É uma questão de ir. De sentir, de viver. De ir para gostar como fiz logo nessa tarde, após o almoço das alemãs. Não poderia existir melhor pretexto, uma Loja do Cidadão nas Laranjeiras, uma senha para renovar um cartão de identidade, quatro horas à espera de vez e, suado, moído das pernas e das costas, mas com um sorriso compreensivo e diletante, dirijo-me à senhora e esta, desesperada de tédio e calor, pergunta-me: “O que está aqui a fazer. Aqui são as senhas prioritárias…”. Respondo: “Sim, sei bem. São as senhas que depois contemplam uma taxa adicional”. A senhora perde a paciência: “Está a gozar comigo? Aqui são as senhas para as pessoas aleijadas, doentes, grávidas e para as crianças. Tem que regressar amanhã e pedir a senha normal, entendido?”.

Agradeci muito. Virei costas e, à torrente do Sol, mais de 35 graus, dez minutos depois, a escorrer água e raiva, um homem quis saber se esperava táxi. Que sim. “Está no lugar errado, nesta rua não passam. Tem de ir para o outro lado, por ali, está a ver?”.

Deus existe, não existe? E tem sentido de humor. Muito.