Cultura

De polícia a romancista

Quando o francês Romain Puértolas avançou para a escrita de (mais) um romance não imaginava o quanto a sua vida iria mudar. “A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado num Armário Ikea” (ed. Porto Editora), o seu oitavo livro mas o primeiro a ser publicado, um êxito junto da crítica, foi escrito em pouco mais de um mês, no telemóvel, sempre em andamento. O bestseller transformou o seu autor, um polícia de 39 anos, em escritor profissional.

O romance narra a história de Ajatasharu Patel, faquir indiano que vem à Europa comprar uma cama de pregos da Ikea tendo consigo apenas uma nota (falsa) de cem euros. Mas aquela que era suposto ser uma viagem de um dia torna-se, por acidente, numa odisseia que vai de França a Itália, passando por Espanha, Inglaterra e Líbia, em veículos tão estranhos como um armário Ikea ou uma mala Louis Vuitton. Pelo meio, há personagens como um grupo de sudaneses que tenta desesperadamente encontrar uma autorização para ficar nesta Europa que para uns está em declínio mas para outros é a terra prometida. “Percebo que haja fronteiras e sei que agora não se podem abrir. Mas sou por um mundo sem elas”, diz o autor. “Gosto de ser livre. E a liberdade fundamental para qualquer pessoa é que se possa mover. Há quem não possa viajar, por não ter dinheiro, passaporte ou visto. É uma total falta de liberdade”.

Escrita com grande dose de humor, a história parte da experiência de Puértolas que trabalhou como polícia do SEF francês (a desmantelar redes de tráfico humano), e tocando interesses seus como os truques utilizados por mágicos e faquires. “Fazia um programa no YouTube onde explicava os truques de mágicos, faquires - como andar sobre cinzas, como espetar a língua com um garfo... Cheguei a ter um milhão de visualizações em vídeos onde explicava truques de David Copperfield - que me encerrou a conta 11 vezes”, lembra.

O truque para ter conquistado milhares de leitores é talvez o humor associado à imaginação e a uma grande dose de empatia com as personagens. Certo é que Puértolas tirou uma licença da Polícia e dedica-se, agora, à escrita. Ideias não lhe faltam. “O meu trabalho é uma paixão. Escrevia por prazer. Agora é incrível, vivo disto. É muito melhor falar das minhas personagens que de emigração ilegal. Escrevo cinco ou seis romances de cada vez. O próximo já está escrito, sai em França em Janeiro. Agora estou a escrever o terceiro. É a continuação do 'Faquir'”.