Sociedade

Jorge Sampaio acolhe novo grupo de estudantes sírios em Portugal

O ex-presidente da República Jorge Sampaio, que recebeu hoje em Lisboa mais um grupo de estudantes sírios, disse que encara com cada vez mais preocupação o conflito que se prolonga desde 2011. 


"Esperemos que se consigam encontrar algumas vias de saída. Eu não estou optimista sobre isto. Vai ser muito complicado e muito difícil. É uma tragédia humana o que se passa na Síria -- e no norte do Iraque -- é terrível do ponto de vista humanitário", disse Jorge Sampaio na recepção organizada pela Plataforma Global dos Estudantes Sírios que hoje recebeu o segundo grupo de jovens a ser acolhido em Portugal.

Para o ex-presidente da República, grande parte dos problemas do Médio Oriente "agrupam-se" na Síria e no norte do Iraque, constituindo uma situação volátil e dramática e onde o futuro é incerto.

"É uma zona do mundo de enorme complexidade, enorme confrontação, entre ambições territoriais, divergências religiosas profundas, muita selvajaria à mistura e fronteiras líquidas", frisou Sampaio, que se mostra preocupado com a falta de soluções.

"É muito difícil pensar que uma operação militar aérea resolve esta questão e, portanto, enquanto os próprios iraquianos e sírios não tiverem possibilidade de agir. Esperemos que as alianças cruzadas que existem e que nos deixam de cabeça à roda para percebermos o que de facto está a acontecer se agrupem. A religião não é incompatível com a paz e com o respeito pelos direitos humanos", afirmou.

A Plataforma Global dos Estudantes Sírios criada pelo ex-presidente da República já trouxe para Portugal, em Fevereiro, um primeiro grupo de 43 jovens fugidos do país em guerra e que já se encontram a estudar em vários estabelecimentos de ensino superior.

Hoje, chegou a Portugal um grupo de 24 estudantes sírios, rapazes e raparigas vindos do Líbano, Turquia e Jordânia, que vão para Braga, Guarda, Porto, Covilhã, Lisboa e Algarve, cidades onde vão continuar os estudos.

"Eles têm uma grande ligação às famílias que estão dispersas, quer em campos de refugiados quer em cidades. Alguns membros das famílias desapareceram. É uma situação terrível. Eles estão muito ligados às famílias, estão sempre a tentar contactá-las mas nem sempre as encontram", explicou Jorge Sampaio aos jornalistas, sublinhando que o êxito da "operação" de auxílio depende dos apoios de particulares e de empresas.

"Fico muito contente por poder dar um contributo - com as autoridades portugueses - e que venha a valer a pena. Até agora tem valido porque eles querem ser bons estudantes e têm sido e isso dá-lhes uma grande alegria, porque querem voltar para a Síria", referiu Sampaio. 

Presente na cerimónia de recepção estava a única família de portugueses que acolhe, desde a semana passada, uma jovem estudante de Damasco e que chegou a Portugal em Fevereiro.

"Nós ouvimos uma notícia aquando da chegada destes estudantes que nos fez lembrar os estudantes austríacos que vieram para Portugal na altura da Segunda Guerra Mundial e pensamos que, se calhar, era um risco que queríamos partilhar e ter um papel positivo", disse Maria Ana que com o marido e duas filhas menores abriu a porta de casa a uma jovem síria que se encontra a estudar gestão em Lisboa.

Dirigindo-se em inglês aos estudantes - muitos deles refugiados no Líbano ou na Jordânia - Jorge Sampaio pediu empenho nos estudos e, sobretudo, para se integrarem no novo mundo. 

"Os primeiros dias não são fáceis, mas sigam as instruções e agora comam alguma coisa. Se tiverem sacos levem os bolos e aproveitem. Aqui sintam-se em casa. Têm um simples dever: estudar para serem úteis no futuro, no vosso país, seja quando for. Por agora, integrem-se e consigam bons resultados", concluiu o ex-presidente apostado em continuar a trazer para Portugal, e para outros pontos do mundo os estudantes sírios vítimas da guerra civil.

De acordo com os últimos números divulgados pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos, organização com sede em Londres, a guerra civil na Síria fez até 2014 mais de 190 mil mortos, a maior parte civis, e mais de três milhões de pessoas foram obrigadas a sair do país e procurar refúgio nos Estados vizinhos.

Lusa/SOL