Cultura

Joaquim Letria: 'Nestes 17 anos ninguém me perguntou se precisava de alguma coisa'

Aos dez anos contraiu poliomielite e teve de encontrar outra forma de segurar numa caneta para poder continuar a escrever. Encontrou uma solução e aos 18 começou a trabalhar como jornalista no Diário de Lisboa. Joaquim Letria passou pela Associated Press, pela BBC e dirigiu a informação da RTP, canal para onde levou o formato do debate. Foi porta-voz de Ramalho Eanes e conduziu campanhas políticas de Salgado Zenha e Marcelo Rebelo de Sousa. Há mais de 17 anos que estava afastado da comunicação social, depois de uma polémica saída envolvendo acusações de racismo. Regressou agora com uma rubrica no programa de Fátima Lopes, 'A Tarde é Sua'. Aos 50 anos, decidiu que ia passar a dizer tudo o que pensava. Aos 70 continua fiel a essa decisão

O que podem os espectadores esperar de si neste regresso à televisão, depois de mais de 17 anos afastado?

De mim não podem esperar nada! [risos] É um regresso pelo qual devo uma grande gratidão à Fátima Lopes porque ao fim de 17 anos de terem corrido comigo dos ecrãs ela foi-me buscar, o que é um risco apreciável.

Então como surgiu o convite para participar no 'A Tarde é Sua', da TVI?

Aconteceu por causa do livro da Dora [Santos Rosa, autora de 'Sem Papas na Língua', livro sobre a carreira de Joaquim Letria]. Ela foi convidada para ir ao programa da Fátima Lopes. E levou o emplastro, que era eu. A Fátima gostou da minha presença, perguntou se não gostava de voltar a fazer televisão. A Fátima é uma mulher que não conhecia, mas com uma personalidade muito forte e muito competente no que faz. Conversámos e chegámos a uma fórmula. É uma conversa, na qual posso falar de tudo, porque ela dá-me essa liberdade que é outro motivo para a minha gratidão.

E quais têm sido as reacções do público?

Tive muitas, até me espanta, as pessoas têm dito que fazia falta alguém que falasse assim na televisão. Isto porque, no segundo programa, na minha recomendação final disse que gostava de ver o senhor ministro da Educação, de mão dada com a senhora ministra da Justiça, a irem pela estrada fora, tipo Música no Coração, aos pulinhos. Digo tudo como os malucos. Se calhar é por isso que as pessoas têm sido fantásticas e as audiências estão a correr bem.

Esse carinho já lhe fazia falta?

Não fazia falta, mas agora que o encontro outra vez noto que eventualmente sentia saudades. Mas sou de andar para a frente. Não fiquei com nostalgia, não andei aí a sofrer por não aparecer. Conheço gente que mendigava um tempo na televisão. Compreendo a angústia, mas não sou assim.

As novas gerações não sabem quem é?

Não têm porque saber. Mas eu não queria que soubessem quem eu sou pelo que fiz na televisão, mas mais pelo que fiz nos jornais e naquilo que considero a minha grande escola, as agências, um trabalho anónimo. Talvez por ter tido tantos anos de agências, e pelo facto de a televisão ter sido um acidente na minha vida, nunca liguei a isso. Era divertido, mas quando deixou de ser, deixou de ser.

Como era a sua vida antes deste regresso? Continua a dar aulas?

Em Aveiro, no Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração, lecciono Comunicação, e na universidade sénior, no Seixal, dou Temas Contemporâneos. Tenho mais alunos aqui do que em Aveiro, onde sinto uma quebra imensa nos cursos de jornalismo.

Isso reflecte a crise do jornalismo?

É uma fase particularmente negra para os jornalistas, não para o jornalismo.

A culpa não é dos jornalistas, então?

Não, de maneira nenhuma. Acho que o jornalismo melhorou muito, mas é mau para os jornalistas sobretudo pela precariedade que é uma coisa abaixo de cão. Não há o direito de ter uma pessoa que não sabe se cada mês é o último, se lhe pagam no fim do mês… isto tudo reflecte-se no que a pessoa faz e como o faz. As pessoas hoje são mais vulneráveis.

Foi presidente do sindicato. Quem é que pode, e deve, defender os jornalistas e, dessa forma, contribuir para um melhor jornalismo?

Fui e penso que o sindicato hoje, não no sentido de um sindicato tradicional para discutir acordos colectivos, podia ser um corpo muito importante na defesa da profissão e dos novos jornalistas que estão à mercê dos patrões. E muitas vezes nem sabemos quem são os patrões, que por sua vez também mudam muito porque dependem das jogadas financeiras. Eu comecei num tempo em que os jornais eram familiares. O Diário de Lisboa era da família Ruella Ramos, o Século era dos Pereira da Rosa. Hoje em dia ninguém sabe quem é que detém os jornais e porquê.

A entrada dos grupos angolanos reforçou essa ideia?

Não é pela entrada de capitais angolanos que temos hoje pior comunicação social. Se calhar até pelo contrário: se não fossem os angolanos já tinham fechado mais órgãos. Preocupa-me tanto um angolano à frente de um jornal português como o engenheiro Belmiro de Azevedo à frente do Público. Podemos dizer que os angolanos 'não têm nada que vir para aqui controlar a opinião portuguesa'. Mas com o grau de investimentos que têm cá, é natural que queiram defender os seus interesses.

Antes deste desafio no Fátima 'A Tarde é Sua', pensou ou recebeu algum convite?

Nem um convite. Foram 17 anos. Felizmente tinha possibilidade de recorrer a outras actividades, mas nestes 17 anos ninguém se preocupou em pensar 'como é que aquele tipo come? O que faz da vida? E a família?'. Ninguém se preocupou. Nunca ninguém me perguntou se precisava de alguma coisa.

Dentro de si encontrou justificação para essas atitudes?

Não sei. Acho que as pessoas pensavam que estava a fazer outras coisas e que estava muito bem. Tenho dois amigos, um vive em Londres, o outro no Rio, mas são os dois portugueses. Foram resistentes contra a ditadura comigo. Um deles é uma amizade muito especial porque podia ter contribuído para que eu fosse preso e nunca o fez. Não fui preso porque ele não falou, mesmo depois de 14 dias de tortura. O outro também foi sempre um companheiro bom de resistência e de boa vida, em Portugal e em Inglaterra. São dois amigos especiais. Às vezes passam-se meses sem falarmos, mas qualquer um de nós sabe que basta assobiar e estamos lá. E, de facto, deles não tive razões de queixa. Mas outros com quem tinha relações parecidas, e que até viviam perto, não dei por eles.

Acha que a sua incapacidade de estar calado pode ter criado animosidade em relação à sua pessoa?

Isso criou. De certeza. Mas quando fiz 50 anos disse que, a partir dali, ia dizer tudo. Tive uma vida na clandestinidade, trabalhei na Presidência da República, portanto sei guardar segredos. Sei estar calado, mas decidi que ia dizer sempre tudo, como os malucos.

Mas isso paga-se.

Paga, mas sabe bem. E eu digo porque penso, não é porque fico à espera do resultado do que digo. Em liberdade acho que devemos ser assim. A autocensura é a pior das censuras.

Então por que é que a primeira resposta à Dora Santos Rosa foi que não queria falar sobre si?

Havia um prazer novo desta semiclandestinidade, em estar quietinho e sossegado. Mas acabei por aceitar e a verdade é que, se não fosse a Dora e o livro, não havia Fátima.

Foi doloroso?

Trouxe-me à memória pessoas e situações que, às vezes, me comoviam e era doloroso. Gente de que gostava muito e que perdi. Mas por outro lado revivi situações muito divertidas e gratificantes. Recordar-me, com 18 anos, na redacção do Diário de Lisboa, com aqueles velhos, e a ternura que havia nesse relacionamento, gente a quem devo tudo. Isso, às vezes, custava.

As redacções, quando começou, estavam recheadas de pessoas especiais, muitas vezes até de fora do jornalismo, mas que coabitavam ali.

Havia gente, como o Mário Neves, que tinha andado na guerra civil de Espanha e denunciou os massacres de Badajoz ou o Félix Correia, que tinha entrevistado o Hitler e tinha ficado nazi porque achava que tudo o resto era propaganda Aliada, mas como pessoa era extraordinário. Vivi esses acontecimentos através deles.

E depois iam beber copos todos juntos ou aí o miúdo já não ia?

Quando fechávamos o jornal íamos para a leitaria da esquina, na Luz Soriano. Passava-se da redacção para a mesa, que era sempre muito importante, e muitas vezes passava-se também para a cama, porque íamos aos cabarets. Partilhávamos os prazeres da vida.

A boémia vinha de braço dado com o jornalismo?

Tinha muito a ver com a vida que tínhamos. Por exemplo, às 2h da manhã começava tudo a fechar, até os cabarets. Havia a Ana Maria, que fazia striptease no Ritz ou no Bico Dourado, mas tudo fechava. Onde é que um tipo ia? Havia os piquetes nos jornais e redacções que funcionavam até às 5h ou 6h da manhã. Então íamos todos para o Diário de Notícias jogar às cartas a dinheiro. Ou para o Jornal de Notícias. Íamos nós e outros, fora do meio. Aliás, habituei-me a ver essas pessoas, todos os dias, na redacção do Diário de Lisboa. Era o Almirante Sarmento Rodrigues, a Beatriz Costa, o Manuel Mendes, o Aquilino Ribeiro… E mesmo na redacção havia figuras como o Urbano Tavares Rodrigues, o José Cardoso Pires, o José Saramago…

O seu fascínio pelo jornalismo, no entanto, vem do Tintin?

Vem das histórias aos quadradinhos e do Tintin pelo lado das aventuras. Mais tarde, na escola, as minhas professoras diziam que eu escrevia muito bem e comecei a gostar de escrever. Mas não pensava em jornalismo, pensava ser escritor.

Lia muito?

Tudo o que apanhava, lia. Os primeiros livros que me recordo de ler foi a colecção da minha tia de histórias de amor. Normalmente começava por aqueles que o meu avô dizia que não eram para ler. Ainda hoje gosto muito de ler.

Os livros foram a sua companhia quando contraiu poliomielite, aos dez anos?

Não, foi mais a narração oral. O meu avô José contava-me histórias. Porque eu estava na cama e não conseguia segurar em nada.

Costuma dizer que a poliomielite lhe mudou a vida…

Teve muita importância no meu carácter porque me deu força. Perdi o uso das duas mãos e do braço esquerdo. Tive de aprender uma nova maneira de segurar na caneta senão não conseguia escrever. E tinha de me vestir e o mais difícil era o botão. Cheguei a passar horas para meter um botão na casa. E não desistia. Lembro-me de chorar de raiva porque, quando o botão já estava quase, saltava e tinha de recomeçar. Recordo-me de andar de eléctrico e de pedir, em casa, para me porem no bolso o dinheiro certo para o bilhete. Chegava ao eléctrico e tinha de pedir ao cobrador para me tirar o dinheiro do bolso. O pior era a vergonha e o arranjar coragem para pedir ajuda. Assim como nos bailes. Aos fins-de-semana havia bailes em todo o lado e eu queria ir, até porque tive uma sexualidade muito precoce, mas convidar as meninas para dançar significava que tinha de lhes dizer que tinham de me segurar na mão lá em baixo porque não conseguia levantar o braço… Era difícil. Mas depois percebi que ser o coitadinho ali até ajudava…

Disse que teve "uma sexualidade muito precoce". Era namoradeiro?

Não era bem isso. Perdi a minha virgindade aos 13 anos com uma menina que a minha querida ama-de-leite, a Avelina, descobriu. A partir daí… Eram outros tempos. Sou do tempo das casas legais de prostituição onde toda a gente ia e depois falávamos disso. Houve uma vez que tive uma doença venérea e fiquei tão aflito que disse ao meu avô. Nunca me esqueci do que ele me disse: 'Seu porco, você anda por onde não deve! Quando quiser andar por aí, diga-me que eu arranjo-lhe alguém com segurança!".

Além da poliomielite, sente que a sua infância fica inevitavelmente marcada pela morte da sua mãe no parto?

Tenho muita pena, claro, porque acho que era uma mulher muito interessante - era violinista da Orquestra Filarmónica de Lisboa - e pelas fotografias vejo que era muito bonita. Há pouco tempo tive a agradável surpresa do professor Adriano Moreira me dizer: 'A sua mãe era uma mulher lindíssima'.

Mas cresce-se de maneira diferente quando não se tem mãe…

Talvez… Estragado. Fui sempre muito mimado pelos meus avós. Nasci e cresci na rua de Campolide, na casa dos meus avós paternos, mas mesmo em frente viviam os meus avós maternos. Aliás, o meu pai e a minha mãe começaram a namorar aos 11 anos, através de sinais de uma casa para a outra. O meu pai depois voltou a casar, saiu daquela casa e queria levar-me com ele para Cascais. Mas isso foi um drama lá em casa, não para mim que gostava muito dele, mas para a minha avó paterna. Chorou baba e ranho. Lembro-me de ouvir dizer 'Por favor não leves o menino'. E o menino ficou ali, a ser estragado com mimos. Não podia ter tido uma infância mais feliz do que tive.

Apesar de ter sido muito mimado, logo aos 18 anos foi trabalhar. Porquê?

Estudei no Passos Manuel e no Colégio Moderno, mas nessa altura já tinha percebido que queria ser jornalista. O Diário de Lisboa tinha uma secção de contos de domingo, mandei para lá um e fui escolhido. Quando vi aquilo publicado com o meu nome percebi que era mesmo o que queria fazer. Entretanto estava na pró-associação dos liceus e havia uma moça, a Maria Emília Neves, filha do Mário Neves, director do Diário de Lisboa. E disse-lhe: 'Tens de pedir ao teu pai para me receber porque queria ir para lá'.

E conseguiu?

Estive dois meses a ir lá todos os dias. Quando finalmente me recebeu perguntou-me se queria um emprego ou se queria ser jornalista. Se quisesse um emprego arranjava-me um na FIL a ganhar três contos e 700, se quisesse ser jornalista entrava para o Diário de Lisboa a ganhar 50 escudos por dia e se não trabalhasse não ganhava. Entrei para atender os correspondentes por telefone, o cargo mais desqualificado da redacção. Ao fim de seis meses disseram-me que estavam satisfeitos com o meu trabalho e perguntaram-me se queria ser estagiário.

Quando teve o primeiro serviço?

Foi em pouco tempo. Numa hora de almoço em que não havia ninguém e disseram-me para ir eu. Era um incêndio na Avenida Duque de Loulé.

Já tinha actividade política?

Tinha. Entrei para o PCP com 16 anos.

O que o leva para o PCP?

A noção do que era a ditadura e de que era preciso lutar contra ela. O PCP era a única força organizada que se opunha à ditadura. E depois havia os livros, não tanto os de teorias políticas, mas os que tinham um certo romantismo, como a 'Cabra Cega', do Roger Vailland ou o Elio Vittorini com os livros do neo-realismo. E politicamente há uma coisa que me marca muito: a revolução cubana e o discurso fantástico do Fidel Castro no assalto ao Quartel Moncada. Tudo isso deu-me uma consciência política que me aproximou de gente que já era activa e que acabou por me recrutar aos 16 anos. Conheci no PCP a melhor gente da minha vida. Transportei e acompanhei muitos clandestinos que nunca soube quem eram.

Questiona-se como nunca foi preso?

Só não fui preso porque esse meu grande amigo, o Chico Chaves, não confirmou o meu nome. Mais tarde ainda fui interrogado pela PIDE, pelo inspector Abílio Pires, que me disse que sabiam perfeitamente quem eu era e estivemos nesse jogo um dia inteiro. Eles sabiam quem eu era e eu já tinha sido denunciado por uma pessoa na prisão, mas era preciso uma confirmação. Que nunca chegou.

Sente revolta em relação aos anos de ditadura?

Claro que sinto. Sobretudo sabendo o que fizeram a muita gente. Mas o que acho é que havia pouca consciência. Tive um caso muito interessante com um motorista meu. Ele era reformado da PSP e contava que, quando veio da guerra em Angola, não tinha trabalho e foi para a PSP, mas que queria era ter ido para a PIDE. E porquê? Porque eram mais 800 escudos. As pessoas não tinham consciência do que aquilo era.

Qual foi a ordem mais complicada de cumprir que o partido lhe deu?

Acho que não foi o partido, mas houve uma ordem de um funcionário para impedir que uma pessoa que eu controlava mantivesse uma relação de amor com outra pessoa. As duas eram do partido e eu tinha de dizer ao fulano que não era possível a relação. Isso fez-me muita confusão. O que fiz foi falar com a pessoa e, em vez de dar a ordem, apenas transmiti o que me tinham dito. Com o tempo vim a perceber que era algo pessoal. Eles casaram, ela ainda hoje é do partido e ele foi do partido até morrer.

Leia aqui a segunda parte da entrevista

raquel.carrilho@sol.pt