Opiniao

Caça fortunas

Segundo a capa da TV 7 Dias 'todas as discotecas a querem' e, por isso, vai ganhar uma fortuna, agora que saiu do programa execrável que dá pelo nome de Casa dos Segredos. Vânia, de seu nome, pelos vistos é uma rapariga que faz sonhar homens e mulheres e 'todos' querem estar onde ela estiver. Citando um fado, tudo isto é triste, tudo isto é Portugal. Tirando o exagero, a moçoila vai, seguramente, animar as discotecas de província e aquelas que jogam no mesmo campeonato e ficam nas cidades grandes. O fenómeno não é novo, mas acaba por ter alguma graça, já que as revistas do degredo precisam de tais figuras como de pão para a boca. Há alguns anos, em Lisboa, existia um espaço que era uma verdadeira agência casamenteira de jogadores da bola com as ditas cabeleireiras, que hoje são as meninas dos reality shows ou que ostentam, muitas vezes, a profissão de relações públicas. Quando ficam bem na vida, mudam de estatuto profissional e passam a ser empresárias.

Mas, voltando à agência casamenteira, o Café da Ponte, nas Docas, aos domingos, era uma espécie de catálogo vivo, onde a única coisa que não se podia fazer era atirar uma bola ao ar, pois seriam muitas as cabeças partidas, tal a densidade de jogadores por metro quadrado. Os decotes das raparigas eram bastante generosos, a roupa ajustava-se muito ao corpo, apesar de ser diminuta, e dali partiram muitos casamentos. Quem trabalhava à noite sabia que por aquelas bandas andavam as mais espertas caçadoras de fortunas de jogadores. Umas eram empregadas da noite, algumas eram estudantes e outras não estudavam nem trabalhavam. Distinguiam-se por usarem penteados muito vistosos e pareciam muito felizes.

Em todas as épocas houve discotecas que se caracterizaram por serem as tais agências casamenteiras. Nas ditas mais finas, muitas mulheres que tinham perdido o poder de compra, arranjavam-se com os melhores trapinhos e procuravam distinguir-se das que paravam no Café da Ponte, mas a estratégia era a mesma e os assuntos também. Razão tinha Rui Veloso que cantava: 'Já não conhece ninguém/ do lugar onde cresceu/ Agora só anda com gente bem/ E vai ao sábado à noite à boîte/ Espampanante e a mascar chiclete/ No vigor da juventude/ Como uma estrela decadente/ Dos bastidores de Hollywood'.

vitor.rainho@sol.pt