Cultura

Filmar o medo

Apenas sete realizadores se podem congratular de ter levado a Palma de Ouro duas vezes de Cannes e os irmãos Dardenne são dois deles. Seis vezes nomeados para o prémio máximo do certame francês, que venceram com os filmes Rosetta (1999) e A Criança (2005), os belgas que dizem ser um só “mas com quatro olhos” saíram da Riviera Francesa de mãos vazias apenas com a última obra, Dois Dias, Uma Noite – ainda assim, conta-se que à projecção seguiu-se uma ovação em pé de 15 minutos. 

Nascidos “num subúrbio do subúrbio” da província de Liège, Jean-Pierre, actor de formação, e Luc Dardenne, licenciado em Filosofia, estudaram na cidade industrial de Seraing até os 18 anos (hoje têm 63 e 60 anos, respectivamente). “Foi lá que fumámos o nosso primeiro cigarro, que tivemos o nosso primeiro encontro amoroso, o primeiro copo de álcool, o primeiro jogo de bingo, traz-nos recordações de uma grande liberdade”. Quando mais tarde regressaram àquele município em tempos florescente – “havia 40 mil pessoas a trabalhar em fábricas, mas entre os anos 75 e os 90 desmoronou-se tudo”, lembra Luc – foi como se o próprio sítio os desafiasse: “Testemunhem o que se está a passar”. Inspirados pelo trabalho do encenador e realizador Armand Gatti, ex-professor de Jean-Pierre, e com uma câmara de vídeo acabada de comprar, os irmãos assim o fizeram: “Procurámos por histórias de vida em que as pessoas se tivessem insurgido contra alguma injustiça”. 

Lições do documentário

Embora renunciem ao passado documentarista do final da década de setenta e de oitenta, dele advém parte do método criativo assumido pelo duo desde A Promessa (1996), longa-metragem ficcional a partir do qual reconhecem uma carreira como cineastas. “Trouxemos do documentário a forma de organizar as coisas e metê-las no filme, de trabalhar com os actores para que sejam mais pessoas do que personagens, para que o sentimento dos espectadores, quando o filme começa, seja o de que a história já tenha começado”.

Não por acaso Dois Dias, Uma Noite tem como pano de fundo Seraing e abre para não mais se descolar dela, com uma Marion Cotillard quase sem maquilhagem, de figura curva e frágil, durante uma sesta no sofá. A actriz francesa – desafiada a limpar “o lado de estrela” e a “mudar de corpo” num processo de ensaios que durou cinco semanas – interpreta Sandra, uma operária recém-recuperada de uma depressão. É quando vem a saber que o patrão e “a crise no mercado dos painéis solares” deram a escolher aos colegas entre um prémio de mil euros e a manutenção do posto de Sandra.

Incentivada pelo marido e por uma colega solidária, Sandra tem um fim-de-semana para convencer a equipa a mudar de ideias. Apesar de o mote dever a um episódio verídico acontecido nos anos 90 na Peugeot, referido no livro La Misère du Monde, do sociólogo Pierre Bourdieu, “a questão da solidariedade é, no filme, colocada de uma forma moral e não social”. É mais difícil sermos solidários quando a economia está em baixo? Se fôssemos ricos seríamos mais solidários? “Não acredito”, respondeu Jean-Pierre ao público que assistiu ao filme no Lisbon & Estoril Film Festival, por ocasião do qual falaram ao SOL.

O irmão acrescentou: “Em França ninguém faz greve porque toda a gente está com medo, preocupada em pagar contas, a escola dos filhos, as férias, etc. Estamos todos sozinhos. No início do filme ela (Sandra) não consegue estar frente-a-frente com o patrão e no final é capaz de o fazer”. Este, sublinharam, “é um filme sobre o medo”.