Sociedade

Peritos fora do exame de professores

A polémica em torno da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades (PACC) veio para ficar. Depois dos resultados desastrosos da componente geral da prova, em que chumbaram 34,1% dos 2.490 candidatos (11% pela segunda vez), os docentes vêem agora pôr em causa a «competência científica» de quem conduz o processo: o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE). Mais concretamente, de quem vai elaborar e corrigir a segunda parte da prova, a realizar em Fevereiro, onde serão aferidos os conhecimentos dos professores nas áreas disciplinares.

«Qual a competência científica das pessoas que estão a fazer e a corrigir esta prova?», questiona ao SOL Paulo Guinote, professor e autor do blogue Educação do Meu Umbigo, criticando «a falta de transparência do processo». O docente considera que as questões incluídas na primeira parte da prova «estão ao nível do teste psicotécnico, do teste de QI ou do quebra-cabeças de revista, não sendo próprias de uma prova de habilitação à docência». Contudo, os 900 contratados com menos de cinco anos de serviço que chumbaram ficam sem poder dar aulas.

Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, vai mais longe e acusa o IAVE de ser o «braço armado de Nuno Crato que quer usar a PACC para correr com uma série de professores». Por isso, acrescenta, «não tem credibilidade nem competência para estar à frente deste processo». Numa nova tentativa de evitar a realização da segunda parte da prova, os sindicatos convocaram uma greve para a próxima semana e dizem que os docentes que forem fazer a vigilância do exame dos contratados podem ser vistos como «carrascos dos colegas».

Peritos do IAVE excluídos

O IAVE disse ao SOL que a prova foi elaborada «por equipas constituídas por professores do ensino básico, secundário e superior» e «o processo de consultoria e auditoria é assegurado por outros professores dos diferentes níveis de ensino e validado por um painel de especialistas nas áreas da psicologia e da psicopedagogia». Paulo Guinote questiona, porém, como são escolhidos esses especialistas e quais são  as suas habilitações.

Ao contrário do que acontece nos exames feitos aos alunos, para a elaboração da componente geral da PACC não foram consultados os peritos do Conselho Científico (CC) do IAVE. Estes também não deverão ser chamados a dar parecer prévio à componente específica da prova, a realizar nos próximos dias. Isto apesar de os especialistas deste órgão representarem as associações científicas das disciplinas e de a componente específica se destinar a testar os conhecimentos nas áreas curriculares.

Ao SOL, o IAVE esclareceu que «não solicitou a intervenção do Conselho por considerar que este não reunia competências técnicas para auditar a componente comum da PACC». A leitura que a Fenprof faz da decisão é outra: «É um órgão independente, isento, e disse mal da PACC», diz Mário Nogueira, lembrando o parecer interno dos conselheiros tornado público há dias. A opinião do CC, enviada à tutela antes da realização da prova, foi a de que esta não é «válida e fiável» e tem como «propósito mais evidente impedir o acesso à carreira docente». Na altura, a direcção do IAVE distanciou-se do parecer e acusou o CC de «extravasar» as suas competências. O órgão mantém-se em funções, embora a discussão em torno das suas competências se mantenha no interior do IAVE.

Inúmeros erros ortográficos

Além dos chumbos, 20% dos docentes que fizeram a prova deram respostas com cinco ou mais erros ortográficos, confundindo o uso do a com ou sem h ou do c com ou sem cedilha. Paulo Guinote e Mário Nogueira concordam que estas falhas são «graves». Mas dizem que o problema tem de ser atacado antes de os docentes estarem a dar aulas. «Por exemplo, vendo quais as instituições que aprovaram a formação destes professores que acabaram o curso sem saber escrever», diz a Fenprof.

rita.carvalho@sol.pt