Sociedade

Trezentos doentes mentais com adições precisam de cuidados continuados

A coordenadora da unidade de Patologia Dual do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) alertou hoje que há entre 250 a 300 doentes com patologia psiquiátrica e aditiva a precisar de cuidados continuados na região Centro.

A ausência destas estruturas leva a que haja "riscos para a sociedade e para eles próprios", devendo considerar-se os níveis de perigosidade, que também se agravam por não haver uma resposta de cuidados continuados para estes utentes, sublinhou à agência Lusa a coordenadora da unidade, Célia Franco.

Depois de uma fase de internamento agudo na unidade, que tem 13 camas, a resposta são "estruturas temporárias", havendo o caso particular dos doentes sem-abrigo, que, "ou se eternizam nessas estruturas, ou acabam por voltar para a rua".

"Internamos e reinternamos sempre as pessoas. Não se sai do mesmo ponto", notou

Neste momento, "não há estruturas para acolher pessoas", que, em alguns casos, não conseguem "desenvolver competências para ter uma vida autónoma", referiu.

Paulo Pereira, coordenador do Plano de Trabalho do Projecto de Intervenção com os Sem-Abrigo do Concelho de Coimbra (PISAC) em 2014, sublinhou que, no caso dos sem-abrigo com patologia dual, "é difícil controlar a medicação por mais de um mês se estes continuam na rua".

"É dada alta a pessoas que depois vão para a rua e que apresentam riscos para a sua vida e para a dos outros. Isto é um barril de pólvora", alertou, defendendo "instituições tipo lar" para casos de avançada debilidade.

Os sem-abrigo com esta patologia "estão bem, quando estão internados, mas assim que saem do internamento descompensam", havendo cada vez mais pessoas na rua "muito descompensadas psiquiatricamente", observou.

Caso fossem implementadas estruturas de cuidados continuados, a taxa de recaídas, que se situa entre os 30% e os 40%, poderia ser "muito reduzida", frisou Célia Franco, considerando que a desinstitucionalização da saúde mental "agravou a situação".

Célia Franco é a responsável pela organização do 2.º Congresso Ibero-Brasileiro de Patologia Dual, que se realiza no Hotel Tryp, em Coimbra, entre 05 e 07 de Março, onde serão abordados temas como resistências ao tratamento, violência interpessoal, exclusão social, questões legais ou a integração das adições nos serviços de psiquiatria.

O congresso, que vai contar com 60 a 70 oradores, vai iniciar-se com um simpósio sobre o estigma de que o doente dual sofre, tema que também vai estar presente num debate público, na Casa da Cultura, a 05 de Março, pelas 21:00.

Segundo a coordenadora da unidade, o doente dual "não tem os mesmos direitos" que os outros doentes "nas urgências", entrando "com o rótulo de caso social".

A directora da unidade do CHUC sublinhou que a população, por si só, já sofre de "um duplo estigma", relacionado com as substâncias e a doença mental, sendo que o "estigma que se tem mais de combater é o estigma dos profissionais de saúde".

Estes "são os primeiros agentes que estigmatizam, quando lidam com os doentes", que não são tratados "como os outros", apontou.

Lusa/SOL