Opiniao

Sucessão no reino de Saud

A Arábia Saudita continua a ser um Estado chave na equação económica, securitária e militar do Médio Oriente. Os Estados Unidos, apesar de alguns aspectos ideológicos conflituais, sabem isso e por muito que as instituições políticas do reino - uma monarquia tradicional de inspiração teocrática - sejam diferentes das da república norte-americana, sempre mantiveram a relação com Riade, em nome da razão de Estado e da segurança do Ocidente.

A relação teve o seu ponto de partida no encontro do Presidente Franklin Roosevelt com o Rei Abdul Aziz, há 70 anos, no dia 15 de Fevereiro de 1945, a bordo do USS Quincy, no Grande Lago Salgado do Canal do Suez.

Os norte-americanos estavam então a acabar a Segunda Guerra como vencedores e calçavam os sapatos imperiais dos ingleses. O petróleo saudita era um despojo fundamental de uma guerra que fora também ganha graças à superioridade no abastecimento energético, contra uma Alemanha que descurara a questão.

Treze presidentes americanos - democratas e republicanos, conservadores e liberais - e cinco reis sauditas, todos filhos de Abdul Aziz, foram mantendo a relação. A lógica era esta: uns eram os grandes produtores de crude e os outros o 'polícia do mundo'. Abastecimento energético fluido e garantido contra segurança, foram os termos da equação que determinou e sustentou uma das mais estáveis e longas alianças do pós-Segunda Guerra Mundial.

Mas neste momento há mudanças em curso; os Estados Unidos estão numa fase de retirada, passando da hegemonia indiscutida e afirmada para uma presença mais discreta: diminuíram, nos últimos anos, a sua dependência em relação ao petróleo médio-oriental, estão a negociar com o Irão xiita um acordo nuclear e continuam aliados de Israel. Tudo isto os torna suspeitos aos olhos do aliado saudita, que também não esquece as confusões das 'Primaveras Árabes'.

Os sauditas estão em transição de soberanos, e a avaliar pelas nomeações dos ministros da Justiça e dos Assuntos Religiosos e de alguns responsáveis pelos cultos, o novo rei, Salman, parece querer adoptar uma linha mais conservadora em matéria religiosa e de costumes do que o seu antecessor, Abdullah. Salman vem também centralizar o poder no núcleo duro da família, ratificando alterações na linha sucessória: o príncipe Muqrin, de 69 anos, o mais novo dos filhos sobreviventes de Abdul Aziz, passa a príncipe herdeiro, saltando vários irmãos; o número dois na linha sucessória é o príncipe Mohammed bin Nayef al-Saud, ministro do Interior; e um dos filhos mais novos de Salman, Mohammed bin Salman, foi nomeado ministro da Defesa.

O Rei Salman tem sido claro: a democracia é incompatível com o Estado saudita, não tanto por “ser contrária ao Alcorão”, mas porque num reino marcadamente tribal, cuja unidade depende de equilíbrios complicados de família e de clã na distribuição do poder, o sistema, a ser adoptado, levaria à fragmentação e à guerra civil.

É capaz de ter razão.

Este artigo de opinião foi publicado originalmente na edição impressa do SOL de 27 de Fevereiro