Cultura

Clown ou não Clown

O telefone toca e a pessoa que atende diz: “Morria se não me tivesses telefonado”. É ‘A Voz Humana’, de Cocteau, e não tem de deixar de o ser só porque aquele que dá vida ao monólogo é um palhaço de calças a cair e sapatos enormes que, ao desligar, se enrola todo no fio. Logo a seguir virá ‘Hamlet’, de Shakespeare, depois ‘As Três Irmãs’, de Tchékhov, e por aí fora, tudo dentro deste universo clown que a peça ‘E os Sonhos, Sonhos São’ leva ao Teatro do Bairro a partir de  esta quarta-feira.


“Expliquei à Luísa Costa Gomes (dramaturgia) que andava com vontade de fazer um clássico mas também com vontade de trabalhar mais o caminho clown iniciado num espectáculo com textos da Adília Lopes”, explica o encenador António Pires. Contas feitas às vontades, ficaram os palhaços com a responsabilidade de dizer alguns dos textos mais conhecidos do teatro, desde os já referidos a mais de uma dezena de outros que passam ainda por Molière, Beckett, Sófocles e Gil Vicente.

Não há texto novo - ainda que Antígona fale ao telefone com a irmã e Romeu seja bruscamente interrompido na sua sede de veneno -, mas há uma nova narrativa, feita a partir de excertos, que constrói um percurso para os palhaços. “Começámos com improviso, com um trabalho muito pessoal de cada actor a descobrir o clown que tinha nele. A Luísa Costa Gomes acompanhou o processo, e essas individualidades é que deram origem à narrativa e à escolha de textos”.

A liberdade de desconstrução não pretende perder de vista os valores dos textos originais. “Há uma crítica social de costumes que também está muito presente nos clássicos, essas ideias são fortes e sobrevivem”. Acontece apenas que os clowns, desde o palhaço rico à equilibrista da sombrinha (que marca o regresso de Julie Sergeant aos palcos), têm a sua maneira de pensar. “São muito humanos mas tendem a estar reduzidos a uma incompetência qualquer. Amplificam um defeito humano e resolvem os problemas de forma única”.