Mil vivas para a it girl

Sempre achei redutor quando se diz que fulano tal é o qualquer-coisa português, género ‘o José Alberto Reis é o Julio Iglesias português’. Sempre achei redutor e muito feio, reflexo de um complexo qualquer que exclui à partida a capacidade do indivíduo visado ser qualquer coisa por si próprio.

A utilização de it antes de girl foi usada pela primeira vez por um dos meus autores favoritos. Em Mrs Bathurst, de 1904, Kipling refere-se à envolvência da presença da empregada de mesa como it, como 'aquilo especial', como o je ne sais quoi, indescritível capaz de deslumbrar o interlocutor. Hoje em dia utiliza-se a designação it girl para aquelas raparigas que as outras querem ser. Ser uma it girl é uma condição determinada por um certo lifestyle, por uma certa personalidade, postura, forma de vestir e modo de falar únicos, características inimitáveis. As it girls de agora são, normalmente, bloggers, modelos ou figuras públicas só porque sim, das quais se destacam Chiara Ferragni ou Alexa Chung. Isto para contextualizar.

E Cristina Ferreira.

De todas as vezes que pensei na Cristina Ferreira e não lhe quis encontrar um paralelismo 'à portuguesa', porque achei sempre que seria redutor, nunca me ocorreu que Cristina pudesse ser a nossa it girl. Nunca pensei que a verdadeira diva portuguesa pudesse ser uma it girl. Nunca a consegui inserir numa categoria (nem é que goste muito de categorias), nem pensar nela como a Oprah portuguesa, por exemplo. Cheguei à Cristina Ferreira como it girl em modo inverso: quando já nem sequer me passava pela cabeça encarcerá-la numa categoria, eis que olho para o seu legado e para o seu público e se fez luz – it girl! Cristina Ferreira é a it girl portuguesa!

E fui mais longe, porque parte do que é ser-se uma it girl é aquilo a que se chama o extra mile (vai além do necessário): não só é it girl, como é a definição do conceito no nosso contexto. Porque a cultura popular não tem de ser apenas internacional, e por isso transversal, é sempre essencial encontrar e manter ídolos nacionais, que estejam devidamente enquadrados na nossa realidade e balizem as fronteiras da nossa ousadia, quer seja para as ultrapassarmos ou não.

Ela tem tudo! Tem o programa na televisão, que é como se da visita de uma vizinha amiga se tratasse todas as manhãs, tem a sua página de fãs no Facebook e o seu blogue onde partilha com os fãs as histórias em torno do seu lifestyle. Tem o trabalho de sonho, o filho de sonho, o amigo gay, as amigas, o livro de culinária, o melhor corpo possível para o esforço a que se propõe, a loja, a revista, a maquilhadora, as extensões, a cor de cabelo, os contratos com as marcas e, acima de tudo, o sorriso mais honesto entre as celebridades portuguesas. Cristina tem tudo menos o amor. A necessidade é mestra de engenhos? É. Cristina tem até o mérito de ter sido mais eficaz que o Simplex de Sócrates, no que toca a pôr o interior do país a navegar na internet: mais do que a necessidade de obter a senha das Finanças, o povo tem necessidade de acompanhar o quotidiano de um ídolo talhado à sua medida.

Cristina é o sonho português. É feliz. E isso nota-se. E o público gosta disso, porque no processo de identificação entre ídolo e o fã, Cristina não só está próxima como não nega a sua origem humilde. E reconhece o quão abençoada é por poder fazer aquilo que gosta, como gosta e lhe apetece.

Cristina é o arquétipo semiótico que nunca tivemos. Muito porque a televisão sempre quis outra espécie de produto e nunca entendeu verdadeiramente o seu espectador. Da televisão para fora dela é um saltinho, e Cristina sagra-se uma it girl por isso mesmo, porque encerra em si um conjunto de regras, às quais um outro conjunto massivo irá aderir como nunca antes o fez. Sendo os trinta os novos vintes e a mulher um ser cada vez mais livre, passível de ser feliz e realizado, mesmo sem os acessórios tradicionais, olhar para Cristina com admiração, vê-la como símbolo da recompensa que é o trabalho árduo, não é uma questão que implique dificuldade, mas sim capacidade de a admirar como exemplo percursor.

Acaba de lançar uma revista que não só esgotou a primeira tiragem, de 100 mil exemplares, como veio sublinhar que o papel afinal não está tão morto nem tão condenado como vaticinam os fatalistas/saudosistas ou Bandarras de bolso.

É. Cristina Ferreira é a primeira it girl portuguesa. E é o caso de sucesso mais lógico que temos no nosso país.

joanabarrios.com