Cultura

O nome da prosa

É um filósofo. É um semiólogo. É um escritor de ficção. É um autor de policiais eruditos. É um polemista. Não, é Umberto Eco. Ou seja, não é nada disto, e no entanto, é a soma de todas estas partes.

No universo da literatura e da crítica literária actuais - alguns acrescentariam, e bem, do pensamento contemporâneo - Eco é um satélite à parte. Formado em Literatura e Filosofia Medieval, em Turim, nada faria prever que o então jovem estudante de 26 anos, autor de uma tese sobre Tomás de Aquino, saltasse do seu tempo histórico de eleição para figura da crítica à cultura contemporânea.

Autor sobretudo de ensaios, diz-se tão ecléctico na escolha dos temas quanto nas leituras. Exemplos? Do reverente sábio medieval São Tomás de Aquino, que terá inspirado milhares de teses nos bancos das faculdades de filosofia, até uma análise semiótica do Super-Homem (sim, o dos livros aos quadradinhos) passaram apenas oito anos. A tese, já referida, é de 1956, enquanto a análise do herói da DC Comics é de 1964 (o livro chama-se Apocalípticos e Integrados). 

Mas se a ensaística não segue um percurso linear, a ficção, até agora, parece ter linhas claras a ligá-la. A excepção parece ser mesmo este Número Zero, parábola sobre o jornalismo manipulador e ao serviço de fins precisos dos nossos dias. A ideia de criar inimigos e de os abater através de calúnias e teorias da conspiração já marcava o protagonista do romance anterior, o pouco recomendável Simone Simonini, que tinha como ofício, justamente, a difamação alheia. Eco atribui-lhe até a autoria de um texto semelhante a O Protocolo dos Sábios de Sião, um opúsculo falso, antissemítico, que terá até servido como uma das bases teóricas à solução final dos nazis.

O livro em questão é O Cemitério de Praga (2010). A obra navega ainda mais profundamente no curso da História, a com 'h' maiúsculo. Mas a ideia do falso e do verdadeiro atravessa-a de algum modo. “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos”, escreve em O Nome da Rosa (1980). 

A linha deste - que foi o primeiro - romance seria mais tarde baptizada como 'policial erudito'. Guilherme é um frade franciscano incumbido de investigar estranhos homicídios num mosteiro. E vai, evidentemente, pôr em causa todo um pensamento dogmático, impondo-lhe a lógica.

Em 1988, O Pêndulo de Foucault traria outras conspirações, mais complexas, ao universo da Ordem dos Templários. A variedade da erudição do autor leva-o a descrever uma cena de candomblé (ritual africano) em Salvador da Bahia. Eco fala com conhecimento de causa, já que leccionou em universidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, sobretudo nos anos 60, tendo dado então algumas voltas pelo Brasil. A Ilha do Dia Antes (1994), Baudolino (2000) e A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2004) continuaram a estrada de Eco pela ficção.

O lado de polemista, embora mais alimentado pelos media do que pelo autor, também é conhecido. A diatribe que faz a Dan Brown por apresentar como verdadeira uma teoria da conspiração no seu O Código da Vinci é conhecida. 
Eco tem outro ódio de estimação: o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Numa entrevista à revista brasileira Época, Eco dizia que, a dada altura, “nos anos Berlusconi, os italianos viveram uma fantasia, que os conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam que as filhas frequentassem as orgias dele para assim se tornarem estrelas da televisão”. 

Noutra ocasião, antes de receber um prémio em Israel, perguntaram-lhe se era possível comparar o antigo governante a Hosni Mubarak, o Presidente deposto do Egipto na sequência da chamada Primavera Árabe. Eco disse que não. “A comparação podia ser feita com Hitler, que também chegou ao poder através de eleições livres”. Caiu o Carmo e a Trindade em Itália, mas Eco não se ficou: “Berlusconi não é um ditador como Mubarak ou Kadhafi porque ganhou as eleições com o apoio de uma larga maioria de italianos. É triste, mas é assim”, concluiu. 

ricardo.nabais@sol.pt