Vida

Humor com humor se paga

Àhora marcada já estavam à nossa espera no Internacional Design Hotel, em Lisboa. O que é pouco usual quando se fala de artistas angolanos. Mas para estes, mais do que para outros, tempo é dinheiro. “Temos muito respeito por quem gasta o seu tempo connosco. Mais do que o dinheiro. O dinheiro consegue recuperar-se, mas o tempo não”. Quem o diz é Gilmário Vemba, o interlocutor escolhido para falar sobre o grupo humorístico que, no próximo dia 26, fará um espectáculo no Coliseu de Lisboa e no dia seguinte ruma ao homólogo do Porto. São Os Tuneza, cinco jovens na casa dos 30 anos, que, garantem, revolucionaram o mercado do humor em Angola. Joaquim Paulo – conhecido por Cesalty –, José Maria Chieta – o Tigre –, Daniel Vilola – o Costa –, Orlando Rodrigues e Gilmário apresentam-se. São um quinteto que se formou num grupo teatral, entretanto já extinto, o Colectivo de Artes Tuneza Teatro, e renasceu, em 2003, na Ilha de Luanda, com a ideia de expandir o teatro e “resgatar os jovens do alcoolismo e da prostituição, que afectava a zona”.

Os Tuneza no sentido dos ponteiros do relógio: Cesalty, Costa, Tigre, Gilmário e Orlando. Miguel Silva

Começaram por levar pequenos sketches de humor para as casas mais “badaladas da Ilha” – o Help Mundo e o Miami Beach –, mas de início todos os olhavam com desconfiança. “‘Humor aqui? O que é isso? Dou-vos cinco minutos e se nesse tempo não fizerem rir, desligo o microfone e vão à vossa vida’”, disse-lhes um dos gerentes daqueles espaços, que estava longe de saber o que era a stand-up comedy, assim como Angola no geral. “O humor estava praticamente morto no país. E o pessoal nem sequer estava preparado para dar uma olhada. Levarmos teatro para espaços onde predominava a música e a dança foi uma loucura”, avança o porta-voz do grupo.

Mas os cinco minutos em que arriscavam valiam-lhes mais outros 30 no palco, o público, afinal, respondia com gargalhadas sonoras. O improviso passou a ser a sua arma secreta – “as pessoas pediam sempre mais do que nós tínhamos preparado” –, e as casas passaram a encher quando o cartaz avisava que Os Tuneza lá estavam. Dizem que podiam ser o grupo dos cinco... minutos, já que era o tempo que lhes davam para provar o que valiam. Hoje, fazem duas horas de espectáculo seguidas em grandes salas e estádios, para assistências de “mil, três mil e até seis mil pessoas”.

E se o mote é rir, hoje são eles que se riem de si próprios quando recordam que alguém lhes lembrou que deveriam cobrar um cachet para actuar, quando o público se começou a render a eles. “Cachet? O que será isso? Falámos uns com outros e chegámos à conclusão que devia ser dinheiro, já que cash em inglês é dinheiro”. Passaram a cobrá-lo, mas o primeiro veio na forma de um prato tradicional angolano, composto por peixe, mandioca e feijão de óleo de palma, o mufete. Depois veio o dinheiro a sério, 100, 500 dólares – “o nosso primeiro grande cachet em 2004”. Muitos outros se seguiram ao ritmo alucinante dos espectáculos que têm dado, “e que já perdemos a conta”. A rádio e a televisão também são poisos habituais do grupo, que não gosta da comparação com outros grupos similares. Há quem os apresente em Portugal como os Gato Fedorento de Angola, ao que respondem: “Gostamos deles e respeitamo-los, mas nós somos mesmo Os Tuneza, sem réplicas ou imitações”. Lisboa e Porto são apenas mais dois pontos na rota da internacionalização do quinteto que acredita que rir é mesmo o melhor remédio, mas ainda sabe melhor ao som dos aplausos. “As gargalhadas são o efeito da piada e os aplausos são o reconhecimento do nosso trabalho”.

filipa.moroso@sol.pt