Internacional

Cobaias regionais

A formação de alianças que se seguiu às eleições locais confirmou a chegada da esquerda espanhola às esferas do poder, com dirigentes do Podemos a ficarem responsáveis por orçamentos regionais e autárquicos que ultrapassam os oito mil milhões de euros anuais.

Os seus primeiros meses de gestão prevêem-se decisivos no impacto que o partido terá nas legislativas do final do ano. Os pactos firmados tornaram-se no primeiro tema da pré-campanha, antes mesmo da polémica gerada pelas primeiras medidas anunciadas.

'Excêntricos e sectários'

O PP do primeiro-ministro Mariano Rajoy mantém-se como principal força regional de Espanha, mas sem o fulgor dos últimos quatro anos. À perda de 2,5 milhões de votos em todo o país seguiu-se uma fase negocial em que os populares saíram prejudicados pelas alianças à esquerda: vencedores em 37 das 50 capitais de província, os populares só tomaram posse em 19. Rajoy acabou a declarar o seu “apoio àqueles que apesar de terem ganho não conseguiram ser autarcas devido a pactos excêntricos e sectários”.

Apesar dos contactos formais a nível nacional entre Pablo Iglésias e o líder do PSOE, Pedro Sánchez, as alianças que destronaram centenas de autarcas populares nas mais de oito mil câmaras municipais do país foram finalizadas a nível regional. Uma estratégia para tentar contornar uma proximidade que Rajoy voltará presumivelmente a denunciar durante a campanha para as legislativas e que conta com vozes críticas entre os socialistas. “Alianças com o PP são más para o PSOE, com o Podemos são más para Espanha”, terá dito o antecessor de Sánchez, Alfredo Pérez Rubalcaba, numa reunião interna do partido, segundo o ABC. Lembrando que “houve locais onde não se chegou a acordo”, Sánchez defendeu a sua opção lembrando que enfrentava uma escolha entre “a continuidade das políticas do PP ou a formação de governos de esquerda”.

Autarca sem ópera

Em Madrid, onde Manuela Carmena foi eleita com os votos do PSOE - que preferiu essa solução a ver o seu candidato tomar posse com o apoio do PP -, as primeiras iniciativas tiveram um cariz marcadamente social. A ex-juíza começou por se encontrar com os principais banqueiros do país, para debater o problema dos desalojamentos decretados a quem não cumpre as obrigações dos créditos contraídos. A autarca quer que os bancos contribuam mais para o Fundo Social de Habitação, criado em 2013 para gerir as propriedades que ficam ao abandono depois dos despejos. Carmena acena com a criação de uma taxa por cada habitação desocupada mas para já diz que as conversas foram “positivas”.

A veterana activista anunciou também que a autarquia aumentará de 258 mil euros para 388 mil euros o orçamento para a ajuda alimentar a jovens desfavorecidos, programa que passará a assistir jovens até aos 18 anos e não apenas até aos 14. Na primeira semana de poder foi anunciado ainda um “pequeno gesto”: a câmara de Madrid deixará de ter um camarote na ópera do Teatro Real. O fim do “privilégio” levará o espaço cultural a lucrar 100 mil euros anualmente, explica Carmena.

Britânicos na mira

Pendente está outra possível decisão simbólica, que tem gasto muita tinta no Reino Unido: o fim da Praça Margaret Thatcher, inaugurada em Setembro pela ex-autarca Ana Botella. A lista que elegeu Carmena, Agora Madrid, propôs retirar o tributo à 'Dama de Ferro', por considerar que esta “escravizou a classe operária”. Após a decisão, Carmena deve ser confrontada com propostas idênticas para as cerca de 150 ruas de Madrid que transportam o nome de figuras ligadas ao franquismo.

E também em Barcelona um dos primeiros anúncios teve britânicos como alvo: cansada dos “turistas que visitam a cidade a pensar que estão num parque temático”, do seu ruído e comportamentos excessivos, Ada Colau decidiu suspender todas as licenças para novos hotéis e hostels na cidade. Até que a indústria seja “posta na ordem” não haverá novos projectos nem avançam os cerca de 30 que já tinham sido aprovados.

Depois de ter cortado o seu salário em 75%, fixando-o em 2.200 euros, a autarca que ganhou protagonismo como activista contra os desalojamentos garantiu que “nenhuma pessoa será posta na rua numa cidade onde sobram recursos”. Noutras duas medidas simbólicas, Colau ordenou que fossem retiradas as queixas contra dois estudantes detidos por actos de vandalismo numa manifestação e cancelou a candidatura da cidade aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, assim como retirou o apoio municipal ao grande prémio de Fórmula 1 da cidade condal.

Dos cortes de salários dos autarcas de Cádiz e Saragoça à troca do carro oficial pela bicicleta por parte do novo edil de Valência, a política espanhola está a habituar-se aos simbolismo de uma classe dirigente que tenta afastar-se de um passado recente. A resposta desta aos primeiros contratempos, assim como a solidez das alianças alcançadas, serão escrutinadas ao pormenor ao longo dos próximos meses. Com a Moncloa como plano de fundo e o olhar atento de Bruxelas.

nuno.e.lima@sol.pt