Internacional

Cabo Verde. A doutrina dos rabelados

Ainda não foi desta que Misá - nome pelo qual Maria Isabel Alves responde entre os amigos - concretizou o sonho de abrir o museu dos rabelados e lançar um livro com a história dos 'padres de batina preta' que originaram o nascimento desta comunidade religiosa cabo-verdiana. O objectivo era concluir o projecto até ao passado domingo, dia em que Cabo Verde assinalou os seus 40 anos de independência. Mas não é fácil fazer tudo sozinha. Há quase 20 anos que Misá dedica a sua vida (pessoal e financeira) aos rabelados - palavra que significa 'rebeldes' para a maioria, mas que eles defendem entre si como 'revelados' -, com o propósito de aproximar a sociedade cabo-verdiana do povo que, em meados da década de 1960, se isolou nas montanhas em ruptura com o catolicismo local vigente.

É ainda na Cidade da Praia que Misá nos introduz à história desta gente. A narrativa está-lhe na ponta da língua ou não estivesse habituada a defender há anos os interesses dos rabelados. A culpa para a segregação, diz-nos, remonta a uma longa sucessão de acontecimentos que começaram no final do século XVII, quando padres franciscanos chegaram a Cabo Verde para evangelizar a população. Uns anos depois, criaram o primeiro seminário para formar sacerdotes locais, de onde saíram os padres cabo-verdianos 'de batina preta', cuja missão era continuar a promover a fé instalada pelos franciscanos nas ilhas crioulas. Tudo certo até aqui, não fosse o comportamento polígamo destes homens de fé, que mantinham uma família diferente em cada uma das nove ilhas habitadas, e viviam o cristianismo com base num animismo negado pela doutrina.

Quando, em 1940, o regime português enviou uma missão para avaliar o estado do catolicismo na então colónia de Cabo Verde e encontrou este cenário excomungou os padres crioulos e enviou de Portugal os (assim baptizados pelos nativos) padres 'de batina branca'. Mas eles “chegaram e encontraram uma resistência muito grande”, recorda Misá, que vê na partilha constante da história uma forma de salvaguardar a memória de um povo, já que a mesma não está ainda oficialmente registada. “Metade da população aceitou os novos padres, a outra metade, instruída pelo padres que respeitavam mesmo sabendo das suas múltiplas famílias, não”, continua.

Em 1960 - quase em simultâneo com o início da luta armada liderada pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), de Amílcar Cabral, contra a ocupação portuguesa -, começou a discriminação espiritual. Rejeitados pela igreja oficial, receberam o nome de rabelados, foram perseguidos e forçados a uma conversão que não desejavam. Como resultado, refugiaram-se nas montanhas e passaram a viver em comunidade, isolados de tudo e de todos, sem água, electricidade ou qualquer tipo de conforto material.

Há quem ainda recorde bem esses tempos. “Lembro-me quando o meu pai se rebelou. Eu não queria porque éramos atacados, chamados de feiticeiros, de satanás. Diziam que o rabelado era para matar”, conta um artesão sem parar um minuto de cruzar os dedos, enquanto fabrica um cesto de palha. “A revelação é uma carga”, continua, “depois de nos aproximarmos do senhor, ainda temos de lidar com a carga da discriminação. Lutamos pela fé e todo aquele que luta pela fé é perseguido. Não temos nada de rebeldes. Fomos revelados para pregar a palavra de Deus”.

Apesar de em Cabo Verde - onde cerca de 77% da população é católica e que, em Fevereiro, viu eleito o seu primeiro Cardeal, D. Arlindo Furtado - já quase todos terem ouvido falar dos rabelados, especialmente no Tarrafal, a cerca de 20 quilómetros de Espinho Branco, no litoral nordeste da ilha de Santiago, onde a comunidade vive, os detalhes da sua causa só se tornaram mais divulgados graças à persistência de Misá. É, aliás, “como um chamamento” que a cabo-verdiana, de 53 anos, encara o seu trabalho junto desta população, maioritariamente desenvolvido no terreno que comprou para que eles pudessem descer das montanhas e construir ali as suas casas de cana, os funcos, segundo os próprios.

Acessível de automóvel, ao contrário das longínquas montanhas onde Misá os descobriu há quase 20 anos, é na estrada que corre alternada entre alcatrão e pedras que a actual representante dos rabelados nos vai familiarizando com o que vamos encontrar. Cerca de hora e meia depois de viagem, desde a capital Cidade da Praia, deparamo-nos com um aldeamento bem mais organizado do que esperávamos. Os funcos estão alinhados em filas simétricas, arrumando-se famílias numerosas de um lado, idosos e mães solteiras de outro. A pesquisa prévia na internet não fazia antever tanta disciplina, nem tão pouco uma abertura tão grande para com pessoas de fora.

“Esses tempos já passaram”, explica a cicerone neste dia de visita ao terreno, concordando porém que quando os procurou pela primeira vez não foi logo bem-vinda. Era um domingo, dia dedicado à leitura das escrituras, quando foi sozinha para as montanhas. Encontrou centenas de pessoas, que lhe lançaram olhares desconfiados. “O que fazes aqui? Não podes ficar”, avisou o chefe da aldeia, ao que ela retribui: “Porquê?”. A resposta não tardou: “Porque somos uma comunidade e tu és estrangeira”.

Aquela ideia de dois cabo-verdianos se considerarem estranhos um ao outro atormentou-a durante dias e, por isso, Misá não fez tardar o seu regresso. Voltou periodicamente e, de cada vez, trazia novidades para lhes melhorar a vida: primeiro chegou roupa, seguiram-se alguns alimentos e água engarrafada, até à presença regular de um médico e de um professor, uma vez que ninguém ia ao hospital ou à escola (na altura, o único letrado era o líder espiritual, a quem cabia a tarefa de ler a Bíblia). Pouco a pouco, as suspeitas foram desaparecendo, mas só ao fim de “três, quatro anos” é que os rabelados a aceitaram como uma deles. Hoje, 18 anos depois, é considerada, diz-nos com a tal amabilidade inesperada o senhor Félix, um ancião que já deixou há muito de contar a idade, como “um anjo que o senhor mandou no meio” deles.

Um amante de cada continente

Mas o que motivou afinal esta terapeuta em massagens, que cresceu na Suíça e viveu parte da idade adulta com o ex-marido na Costa do Marfim, a querer conhecer os rabelados quando mais ninguém em Cabo Verde se preocupava com eles? Diz-nos que o desejo de descobrir a comunidade começou “aos 11 anos”, quando vivia na Suíça, e uma amiga da mãe lhe disse que parecia uma rabelada por ser 'um bicho do mato', gostar de ouvir as estrelas cantar à noite (mesmo depois de ter descoberto que, afinal, era o assobio dos grilos que ouvia) e não se dar com ninguém. Mas pelo (mesmo que curto) contacto que mantivemos com Misá arriscamos que o impulso partiu antes da ousadia que lhe está impressa na personalidade, própria de quem faz da liberdade o seu estado de espírito. É fácil comprovar o que dizemos.

Contrariando a sociedade patriarcal cabo-verdiana, decidiu cedo que antes de morrer ia “namorar com um homem de cada continente para conhecer o sabor do mundo” e nunca juraria amor eterno a ninguém do sexo oposto. “A minha mãe dizia-me: 'És uma mulher bonita, casa-te com um branco'. 'Mas ela pensa que sou uma galinha?', pensei [risos]. Não gostei da proposta e disse-lhe: 'Vou-me casar com um preto, mas 'preeeeeeto' [acentua a palavra de propósito], daqueles mesmo escuros”. Casou-se aos 16 anos com um “homem fantástico” da Costa do Marfim, não “tão preto” como ela  desejava, de quem se divorciou 16 anos depois, com 30.

Teve dois filhos que hoje vivem com o pai, contrariando, mais uma vez, os costumes cabo-verdianos. A seguir, deitou-se com quem quis e hoje elege os iranianos e os libaneses como “os melhores amantes do mundo”. “Quando chegar ao céu vou dizer a Deus: 'faz-me uma mesa com todos os meus amantes à volta para lhes dizer 'obrigada por todo o amor que me deram'“, brinca, bem-disposta.

Não sabemos como os rabelados vêem hoje este tipo de 'atrevimento', mas tendo em conta que há cinco décadas ficaram do lado dos padres polígamos, as fraquezas da carne não deverão ser condenadas por aqui. Acima de tudo, é o “coração gigante” de Misá que enaltecem. “Se não fosse ela nunca teria bilhete de identidade, nunca teria ido para a universidade”, diz-nos Zi, de 22 anos, a primeira rabelada licenciada. Formou-se em Contabilidade e agora sonha com um mestrado no Brasil.

Enquanto nos prepara o almoço (uma deliciosa combinação de peixe, papas de milho e legumes, que tem um custo simbólico que reverte para a aldeia), Zi lembra que foi uma das primeiras crianças da comunidade a ir à escola, mas como qualquer mudança que se pretende instalar, no início, a rotina não foi imediata. Os alunos ficavam meses sem ir às aulas, até que os mais velhos começaram a perceber as vantagens de saber ler e também quiseram aprender. A partir desse momento, tornou-se tudo mais fácil. “Hoje há 32 crianças no jardim de infância e 40 no liceu”, enumera Misá, contabilizando em cerca de 450 pessoas a actual comunidade de rabelados da ilha de Santiago.

A par da formação básica, a representante dos rabelados criou uma oficina (intitulada Rabelarte) para que as crianças pudessem pintar o que lhes mandava a imaginação. Começaram então a aparecer no papel burros, florestas, feiticeiras... Nada mais do que os contos tradicionais cabo-verdianos que conheciam da oralidade. Como tem formação em Belas Artes, Misá passou-lhes algumas dicas para aperfeiçoarem o pincel, mas também contratou artistas para irem dar-lhes formação em outras áreas. “Tive aqui um japonês durante três meses que lhes mostrou a técnica de cerâmica”, menciona, mostrando o forno dos artesãos e algumas peças expostas nas paredes da Rabelarte que estão à venda para os turistas.

É a pensar numa forma de rentabilizar o turismo que se está a construir uma casa para que os visitantes estrangeiros (neste caso o estrangeiro é literal) possam ficar alojados entre os rabelados. E o fascínio de forasteiros é, de facto, cada vez maior. No dia da nossa deslocação fomos acompanhados por dois estudantes brasileiros de Antropologia, que foram ali inteirar-se sobre a história dos rabelados e fazer um paralelismo com os quilombolas (aqueles que resistiram à escravidão no Brasil e criaram comunidades auto-sustentáveis). As pontes são muitas, garante-nos um deles, reforçando a importância do trabalho de Misá, mesmo que no processo se percam algumas das tradições mais antigas dos rabelados como as cerimónias religiosas comunitárias de domingo, agora feitas individualmente por cada família. Perguntamos se os mais novos ainda mantém a mesma fé inabalável dos seus antepassados. O senhor Félix garante que sim e diz não ter dúvidas que é nas escrituras que encontram o mapa de conduta nesta vida terrena. “Todas as coisas escritas na Bíblia realizam-se, só temos de ter paciência e esperar”, comenta, num crioulo cerrado que Misá traduz. Nesta fase da sua vida, o ancião está mais preocupado com a vida espiritual que o espera, mas os mais novos, como Zi, acalentam o dia em que os cabo-verdianos os vão encarar, finalmente, para lá do rótulo de rabelados. Se isto está escrito no livro sagrado não sabemos. Mas eles acreditam que sim.

 O senhor Félix com a bandeira do PAIGC, partido criado por Amílcar Cabral

alexandra.ho@sol.pt