Internacional

Grécia. Os bastidores do acordo

Catorze horas de negociações. O cansaço e a tensão acumulam-se como gases perigosos. Já é segunda-feira, aproxima-se o raiar do dia em Bruxelas e Alexis Tsipras quase explode. “Se eu concordar com esse compromisso, o mais certo é não voltar. Posso comprar um bilhete de avião para qualquer outro país europeu, porque no meu iriam dizer que vendi a Grécia”, lê-se no Kathimerini.

Na quinta-feira o espaço de manobra já tinha sido reduzido: o presidente do Conselho Europeu Donald Tusk pedia uma proposta “realista sobre a sustentabilidade da dívida” aos credores em resposta a uma proposta igualmente credível e realista de Atenas, mas Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão, “o maestro da orquestra muito afinada” que é o Eurogrupo (Yanis Varoufakis dixit ao New Statesman) descartara de imediato essa hipótese. 

Horas depois o primeiro-ministro grego envia para Bruxelas um documento elaborado com a colaboração de uma equipa de peritos do Ministério das Finanças francês. Treze mil milhões de euros de cortes – mais cinco mil milhões de austeridade do que o documento reprovado em referendo – para em troca Atenas poder contar com um terceiro resgate. 
 A liason française é essencial, seja em Atenas a preparar os documentos, seja em Bruxelas junto de Tsipras e do novo ministro das Finanças, Euclid Tsakalotos. O homem de confiança de François Hollande na capital belga é o representante permanente na União Europeia, o diplomata Pierre Sellal. 

Foi também quando o impasse se deu ao fim daquelas 14 horas. O Presidente francês terá sugerido uma reunião mais privada, no gabinete do presidente do Conselho Europeu – deixando Angela Merkel sozinha, sem o apoio de outros governantes como o finlandês Alexander Stubb ou o esloveno Miro Cerar.

A linha divisória e que levou as negociações à beira do colapso estava na forma de criação e gestão de um fundo de activos das privatizações. A chanceler alemã  insistiu que o dito fundo fosse entregue a um banco sedeado no Luxemburgo, instituição cujo Conselho de Supervisão é presidido por  Wolfgang Schäuble e cujo vice-presidente é Sigmar Gabriel, vice-chanceler germânico. E o valor esperado, 50 mil milhões, iria directamente para os credores.

Uma vez no gabinete do polaco Tusk, este encarnou o seu papel e liderou – ou fez bluff – ao dizer que dali ninguém sairia sem um acordo. 

Aqui chegados, houve outro(s) contributo(s). No final da reunião, o primeiro-ministro português revelou ter sido o responsável pela proposta que acabou por desbloquear o impasse: “Sugeri que 25 mil milhões pudessem ser utilizados para, de certa maneira, poder privatizar os bancos que estão agora a ser recapitalizados e (...) acima desse valor fazer uma utilização quer para abater à divida publica, quer para se poder financiar o crescimento em partes iguais”. 

Um papel conciliador e que não encaixa nas críticas de Varoufakis, o homem sacrificado por Tsipras para dar um sinal de boa vontade aos parceiros europeus. Na já citada entrevista, disse que Portugal, como os outros países endividados, “foram os principais inimigos” da Grécia.

Mas o papel do PM português não foi reconhecido. Os louros, para o grego Kathimerini, foram para a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde. 

As 17 horas de reunião que culminaram num acordo de princípio para um resgate no valor de 86 mil milhões de euros foram precedidas por outra de nove horas, no sábado, pelo Eurogrupo. Uma reunião “extremamente dura, violenta até”, conta oFinancial Times. Mais uma vez foram os franceses a ter um papel decisivo. Quando a maioria dos ministros das Finanças estava do lado do Grexit, Michel Sapin propôs que cada um desabafasse.A terapia de grupo levou a vários momentos gagos, como o ocorrido entre Schäuble e o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi – e que retiraram ao alemão o apoio para a ideia que defendia, uma saída temporária da Grécia da Zona Euro.

De volta a Atenas, Tsipras afirmou numa entrevista à reaberta TV estatal que o acordo lhe foi “imposto” e, como tal, assinou por baixo medidas em que não acredita – e contra as quais se bateu desde o momento em que tomou posse. O acordo de princípio – mais duro que o rejeitado no referendo – inclui a subida de impostos, o corte nas pensões equivalente a 1% do PIB, entre reformas administrativas, judiciais e laborais e dilacerou o Syriza e, com grande probabilidade, o Governo grego – que entretanto já foi remodelado. 

Termine como termine, o dossiê Grécia é uma dura derrota do projecto europeu. “Temo que o Governo alemão, incluindo a facção social-democrata, tenha destruído numa noite todo o capital político que a Alemanha acumulou em meio século”, disse o filósofo alemão Jürgen Habermas ao Guardian.

cesar.avo@sol.pt