Opiniao

A doença da palmada

Não há entrevista a pediatra (não vou mencionar nomes, porque são quase todos) que não inclua uma pergunta ou uma resposta ou ambas sobre castigos corporais a crianças. Estão muito bem a falar e de repente aparece a palavra ‘palmada’, como se fosse uma inevitabilidade numa conversa sobre a relação entre pais e filhos. A minha experiência neste assunto é idêntica à do Papa Francisco, mas não sou alheia ao mundo que me rodeia. Sempre que vejo uma mãe (é uma prerrogativa feminina) a dar uma palmada num filho vejo uma pessoa cansada, sem paciência e com pouca autoridade. Também me vem de imediato à memória familiares próximas que não precisavam de fazer grande coisa para tranquilizar a selvajaria infantil. Bastava um abrir de olhos acompanhado de um silêncio desconfortável para haver ordem onde antes reinava o caos. Gostava de um dia poder ler uma entrevista a um pediatra que mostrasse aos pais os benefícios de não baterem nos filhos. Há alguém?
 

Anúncio de emprego

Não é frequente o Times Literary Supplement ter anúncios de emprego, mas quando aparecem são um acontecimento. Na edição da semana passada surgia em grande destaque o pedido de candidaturas ao cargo de Director/a do Institute for the Study of the Ancient World da New York University. O ISAW é um centro de investigação avançada sobre o mundo antigo e foi criado em 2007. Embora esteja integrado na NYU tem um estatuto autónomo e um conselho de administração próprio. Segundo a informação no anúncio, este será o segundo recrutamento para o cargo e as funções de direcção vão estar sobretudo concentradas na «colocação dos alunos doutorados no ISAW em cargos académicos e no desenvolvimento destes académicos em líderes nas suas áreas de estudos». Além da formação de doutorados e pós-doutorados, o ISAW parece ter uma actividade evangelizadora, o que me parece fresco, ambicioso e certo. Quer candidatar-se? Escreva para: ISAW.director.search@nyu.edu.  

Peter Pan 

Sabia que os livros de colorir para adultos estão entre os livros mais vendidos do mundo? Eu também não sabia, até ler o excelente artigo de Adrienne Raphel, na New Yorker. Secret Garden: An Inky Treasure Hunt and Coloring Book, de Johanna Basford, já vendeu dois milhões de exemplares. Em França, o livro publicado pela Hachette, Art-thérapie: 100 coloriages anti-stress, vendeu três milhões e meio de exemplares em todo o mundo. Estes livros estão na moda e como tal partem de alguma coisa e causam polémica. Na origem está a luta contra o stress, a necessidade de ocupar o tempo com uma actividade que não exija muito dos adultos, mas que tenha um efeito imediato de tranquilidade e boas sensações. Do lado da polémica encontramos a síndrome de Peter Pan, que não é uma coisa boa. É um sintoma de uma infância não superada, com todos os problemas que isso implica. Não é uma moda que as crianças devam fazer coisas de crianças e os adultos coisas de adultos.

Sossegado e a fumar

O pintor britânico David Hockney, de 78 anos, falou com um jornalista do The Guardian a propósito da inauguração de mais uma exposição em Los Angeles, onde vive. Como é costume agora, trocaram poucas palavras sobre ‘a nova fase da sua obra’, mas os pormenores sobre o modo de vida do artista foram bastante explorados. Não há nada de incomum nisto, sobretudo quando se trata de Hockney. Por exemplo, ficámos a saber que sai pouco de casa. E porquê? Porque está surdo e não está interessado no que se passa ‘lá fora’. Prefere pintar retratos dos amigos e dos assistentes, vê House of Cards no Netflix e come sushi, que encomenda para entrega em casa. Não quer sair para retratar a paisagem californiana. Prefere pintar o que vê e imagina ver no seu jardim. Sobre a exposição intitulada Painting and Photography sabemos que inclui 64 retratos de pessoas diferentes sentadas nas mesmas cadeiras, no mesmo estúdio, e pelas imagens queremos ir a correr ver. 

Pato bravo

Nunca vi ninguém falar bem de Donald Trump, nem sequer dos anos de juventude como empreendedor agressivo. Imagino que este tipo de pessoa, homem de negócios frio e egocêntrico, não seja dado a amabilidades. Ser autoritário tem no entanto dado bons resultados mediáticos e financeiros. Se não fosse a vaidade, talvez não tivesse tido sucesso. Mas é essa vaidade que provoca um desprezo quase unânime na pré-candidatura presidencial. A sua atitude violenta contra a imigração ilegal é própria de um energúmeno: «Construirei um muro na fronteira e não será caro: sou bom a construir paredes». A mais recente polémica envolve Jon McCain, ex-candidato presidencial republicano e herói da guerra do Vietname: «McCain não é um herói porque foi capturado e não gosto de quem se deixa capturar». A acusação foi mal recebida até pelos seus correligionários. Pormenor relevante: Trump ficou isento do serviço militar por um problema num pé. Nem se lembra de qual.