Opiniao

O carnaval do gin

Existem, - garante-me um amigo entendido na matéria - quatro tipos de gin: o gin tónico, «aquele que tonifica, ou seja, revigora o corpo e a mente»; o gin cómico, «que nos torna alegres e nos faz rir»; o gin cósmico, «que nos põe a ver estrelas»; e o gin crónico - «quando as coisas correm mal e a bebida se torna um vício».

Originário da Holanda, o gin foi levada para Inglaterra por Guilherme de Orange no final do século XVII. Nas décadas seguintes tornou-se um flagelo denunciado por escritores, como Charles Dickens, e artistas, como William Hogarth. A acreditarmos em testemunhos daquela época, nas tabernas de Londres os homens afundavam-se na mais profunda miséria e as mulheres chegavam a abandonar os bebés em consequência do alcoolismo. Por isso a bebida ganhou a alcunha de mother’s ruin, qualquer coisa como ‘ruína das mães’.

Entretanto, por cá, o gin tornou-se nestes últimos anos a grande bebida da moda. O fenómeno coincidiu com o pico da crise. Na altura, ostentar uma bebida de 12 euros ou mais, enquanto os outros tinham de se contentar com uma simples cerveja, dava um certo estatuto.

Claro que hoje já não é bem assim. O gin generalizou-se e não há cão nem gato que não tenha aderido à moda. No fim-de-semana passado, num bar de Lisboa que nunca foi conhecido pelo requinte, pedi uma destas bebidas e o empregado logo pegou num copo ao qual, para ser o troféu de uma competição futebolística, só faltavam as pegas. Recusei o troféu e pedi que me servisse a bebida num copo alto, daqueles que não dão muito nas vistas.

O bar estava tão apinhado que eu só conseguia ver as pessoas imediatamente à minha frente - melhor dizendo, que estavam coladas a mim. Ainda assim deu para perceber que muitos ostentavam esses copos enormes (ou seriam taças?): alguns dos recipientes tinham uma rodela de limão a boiar, outros uma fatia de pepino, noutros ainda viam-se autênticas saladas de frutas através do vidro. Os orgulhosos proprietários de tão aparatosas bebidas trocavam entre si olhares cúmplices.

Tudo isto tem um lado cómico evidente. Tanto para quem assiste ao espectáculo como para os produtores e vendedores desta bebida destilada, que devem estar a facturar a bom ritmo. Mas o meu amigo que entende do assunto não está tão optimista. «Daqui a uns tempos vamos ter muita gente agarrada por causa da brincadeira», vaticina. «O gin é altamente viciante. É a heroína das bebidas», explica-me. Gostaria de o poder contrariar, mas ele sabe do que fala. E, vendo bem as coisas, é natural que, depois de tanto carnaval, algum dia venha a ressaca. 

jose.c.saraiva@sol.pt