Desporto

Bolt e Phelps: Duas lendas vivas à beira do rio

Um é conhecido como o ‘tubarão’ americano, um autêntico predador dentro da piscina que conquistou o estatuto de atleta mais medalhado da história dos Jogos Olímpicos. O outro é apelidado de ‘relâmpago’ da Jamaica e acabou de se sagrar o homem mais rápido do mundo pela quarta vez consecutiva. Michael Phelps e Usain Bolt são dois dos maiores atletas de todos os tempos, mas muito mudou nas suas vidas desde que atingiram o auge da carreira nas últimas Olimpíadas, em 2012, no Reino Unido.

Phelps quer endireitar a vida. Getty Images
Usain Bolt já não é tão veloz como antes, mas continua a ser o mais rápido de todos. AP

Depois de alcançar em Londres o recorde absoluto de 22 medalhas, as mesmas que Portugal somou em 100 anos, Phelps arrumou o fato de banho e retirou-se da competição. Ao fim de 20 meses, decidiu voltar aos treinos na piscina para “divertir-se”, mas afundou-se em problemas. Foi detido pela polícia por conduzir embriagado, ficou sem u carta durante 18 meses e suspenso por seis pela Federação norte-americana de natação, que o excluiu dos Mundiais deste ano. Esteve internado durante 45 dias numa clínica de reabilitação para tratar a dependência do álcool e envolveu-se em escândalos sexuais com uma namorada hermafrodita e uma prostituta. O talento ainda está lá aos 30 anos, mas a forma já não é a mesma.

O caso de Bolt é diferente. Não é tão veloz como antes, ainda assim continua a ser o mais rápido de todos, como se viu recentemente no Mundial de Pequim, onde conquistou três títulos mundiais em outras tantas provas. Começou por vencer a prova dos 100 metros por um centésimo de segundo, ganhou balanço e dominou nos 200, e por fim levou a Jamaica ao lugar mais alto do pódio na estafeta de 4x100 metros. As pernas já começam a pesar e como se não bastasse ter Justin Gatlin, o maior rival, a morder-lhe os calcanhares, as lesões teimam em atormentá-lo.

Uma mazela num pé afastou-o da alta competição durante 20 meses, e neste momento o jamaicano encontra-se numa corrida contra o tempo para recuperar o ritmo. Desde 2013 que não realiza uma época completa, altura em que arrecadou três medalhas de ouro nos Mundiais de Moscovo. Já com 29 anos, o velocista tem feito um grande sacrifício para conseguir prolongar a carreira: renunciou à fast food (comida rápida) e agora privilegia alimentos saudáveis, como verduras e legumes.

A um ano da cerimónia de abertura dos Jogos no Rio, ainda é uma incógnita se esta dupla vai voltar a fazer história no Brasil. Serão destronados pelos rivais? A única certeza é que Bolt pretende renovar o título nos 100m, 200m e 4x100m, à semelhança do que fez em Pequim e Londres, tornando-se no primeiro atleta da história a atingir um ‘triplo triplo’. Quanto a Phelps, o objetivo passa por não meter água na despedida das Olimpíadas.

A ressurreição de Phelps e o tira-teimas de Bolt

Começou por endireitar a vida pessoal e pediu a nova namorada em casamento, regressou aos treinos de forma ocasional e recrutou o antigo treinador para voltar a ser um nadador de sucesso. Pelo meio, Phelps deixou uma garantia: “Não vou beber mais até ao Rio”. Ainda assim, o regresso à competição foi doloroso. Numa prova em Charlotte, nos Estados Unidos, durante o mês de Maio, fracassou em todos os estilos em que se inscreveu. Nem conseguiu chegar às finais. A última vez que tal lhe tinha acontecido foi quando tinha 15 anos.

“Tenho trabalho a fazer”, confessou o norte-americano na altura antes de mergulhar de cabeça na preparação. Os resultados apareceram no início de agosto, nos campeonatos de natação americanos, quando Phelps voltou a encontrar no cronómetro o maior adversário. Venceu os 100 e 200 metros mariposa, os 200 estilos e os 200 bruços com facilidade. Tanto em mariposa como em estilos, atingiu marcas que eclipsavam a concorrência no Mundial de Kazan, na Rússia. Uma exibição de músculo que colocou os rivais, como o compatriota Ryan Lochte, o sul-africano Chad Le Clos e o húngaro Laszlo Cseh, em alerta.

Na pista de atletismo a história não é muito diferente. Desde 2008, quando saiu de Pequim com um triplete de ouro (100m, 200m e 4x100m), que Bolt é o homem mais rápido do mundo, mesmo na pior fase da carreira. Depois de perder grande parte de 2014/15 devido a lesões, contavam-se pelos dedos as provas em que o jamaicano havia calçado as sapatilhas. Só por três vezes nos últimos dois anos correu abaixo dos 10 segundos nos 100 metros – a última havia sido em Julho, na Liga Diamante, em Londres, com a marca de 9,87 segundos. E nas três provas em que disputou os 200m teve sempre registos distantes dos seus recordes.

“Regressar foi muito mais difícil do que quando era mais jovem. Agora preciso de mais corridas para recuperar a forma. Tive de começar a comer legumes e vegetais. Esse tem sido o meu maior sacrifício”, contou Bolt recentemente à Associação Internacional de Federações de Atletismo. Mas valeu a pena o esforço. No regresso a Pequim, ao estádio Ninho de Pássaro, onde foi campeão pela primeira vez, o ‘relâmpago’ revalidou o domínio nas provas de velocidade. Para trás ficou Gatlin, o principal rival e líder da armada americana que ameaçava a hegemonia do jamaicano. Um prenúncio para o Rio?

hugo.alegre@sol.pt