Cultura

O amor na voz de Aldina

Quando gravou o primeiro disco, em 2004, Aldina Duarte chamou-o Apenas o Amor. Onze anos e três álbuns depois – Crua (2006), Mulheres ao Espelho (2008) e Contos de Fados (2011) –, presenteou-nos, em Abril, com Romance(s), o seu trabalho mais aplaudido em termos de crítica. Por isso, em vez de fazer só um concerto de apresentação do mais recente disco, Aldina viu aqui uma oportunidade para reforçar ao vivo um tema tão recorrente na sua obra, preparando um espetáculo especial para o concerto de hoje, no grande auditório do Centro Cultural de Belém.

Mas em vez de encher a maior sala fechada que já a recebeu só com fados sobre o amor, Aldina vai partilhar o palco com alguns dos ‘amantes’ que a acompanham há mais tempo – Camané, Carlos do Carmo e Maria da Fé. “Essa será a primeira parte do romance”, conta, revelando que a segunda será dedicada ao disco deste ano, onde se alternarão os fados tradicionais com as ‘versões pop’ dos mesmos, espelhando dessa forma a natureza dupla de Romance(s) – algo inédito, já que no futuro o ‘lado B’ do disco só será tocado ao vivo em concerto próprio, sem fados. “Temos algumas propostas para festivais”, revela.

Quando gravou Romance(s), Aldina foi apanhada de surpresa por Pedro Gonçalves (dos Dead Combo), que produziu o trabalho, sobre a concretização de um registo duplo. Aliás, alguns tempos antes de entrar para estúdio, a fadista tinha mesmo decidido não gravar mais nenhum disco. “Pergunto-me sempre ‘o que quero contar?’. Depois de Contos de Fados não encontrava nenhuma motivação para fazer outro álbum”.

Uma grande ideia

Foi Maria do Rosário Pedreira quem lhe deu o estímulo. O trunfo da escritora foi ter uma “grande ideia”: contar, do princípio ao fim, a história de um triângulo amoroso em 12 fados tradicionais. Algo que nunca tinha sido feito no fado e que obrigaria a fadista, mais uma vez, a arriscar, verbo com o qual Aldina se dá tão bem.

Pensado inicialmente só para ser apresentado ao vivo, o argumento para se gravarem os temas chegou com o convite de Paula Homem, da Sony, com quem Aldina já tinha trabalhado. Foi a editora que sugeriu Pedro Gonçalves para a produção e as afinidades artísticas entre o músico e a fadista abençoaram a parceria. De tal modo que quando o repto para se fazerem versões dos temas surgiu, Aldina consentiu na hora. “Sou muito resistente até tomar uma decisão. Depois deposito confiança incondicional”, comenta.

Ouvi-la noutro registo suscitou, porém, dúvidas ao seu “público absolutamente fiel”. Habituada a receber cartas de fãs, que a enaltecem como sendo ‘a fadista que continua a persistir no tradicional’, Aldina estranhou a inquietação das mensagens. Não respondeu a nenhuma das missivas – porque é “muito reservada para” se “dar dessa forma” –, mas garante que tranquiliza cada um dos seus interlocutores com o trabalho que faz. É no que escolhe para cantar que mostra a sua individualidade dentro do fado e, sobretudo, na forma como o faz. “Desafia-me muito mais cantar aquilo que há de comum entre o que canto e quem ouve. Não gosto propriamente de me cantar a mim, mas sim cantar com o que sou para cantar quem me ouve”.

alexandra.ho@sol.pt