Opiniao

Precisamos de imigrantes

O envelhecimento e a diminuição da população poderão tirar vinte pontos percentuais ao PIB per capita dos portugueses até 2050. O alerta é do Banco de Portugal, que nota serem as alterações demográficas «fenómenos capazes de produzir alterações profundas nas estruturas sociais, económicas e políticas». Nomeadamente nas finanças públicas, por causa das pensões e também das despesas de saúde. O Eurostat calcula que em 2060 Portugal terá pouco mais de oito milhões de habitantes, menos 20% do que a população atual.

Uma menor população reduz o crescimento económico. Na Austrália, por exemplo, a quebra na entrada de imigrantes já está a prejudicar o crescimento da economia do país. Neste quadro, a imigração poderá dar uma ajuda, sem evidentemente resolver o problema demográfico, que é complexo e tem múltiplas frentes.

A dramática crise dos migrantes que tentam, e muitos conseguem, entrar na Europa comunitária relançou o debate sobre a imigração. Sabe-se como têm crescido as forças políticas racistas e xenófobas, não apenas em países do centro e leste da Europa, mas também em França, no Reino Unido, na Holanda e nos países nórdicos.

Em parte, esse surto anti-imigrante tem a ver com o receio face ao Islão. Os atentados de islâmicos radicais e os horrores do ‘Estado Islâmico’ levam muita gente a ter medo dos muçulmanos, ainda que a grande maioria deles seja constituída por pessoas pacíficas, como felizmente vemos em Portugal. Mas atenção: o medo do Islão radical não explica tudo. Também assistimos, na Europa, a um regresso do anti-semitismo e não apenas instigado por muçulmanos residentes em solo europeu (veja-se a Polónia, por exemplo).

Também há atitudes negativas face à imigração quando esta leva, ou ameaça levar, certas localidades a mudarem de cultura e de hábitos. Se algumas aldeias e vilas portuguesas passassem a ter maiorias muçulmanas (como acontece em França) naturalmente que haveria problemas.

A resistência à imigração não é, aliás, um problema especificamente europeu. Nos Estados Unidos – um país de imigrantes!... – há hostilidade à legalização dos imigrantes ilegais que lá vivem (cerca de 12 milhões), bem como à entrada de novos imigrantes. Donald Trump, candidato a candidato pelo Partido Republicano às eleições presidenciais de Novembro de 2016, defende a imediata expulsão dos ilegais, incluindo dos filhos nascidos em território norte-americano e a construção, paga pelos mexicanos, de um muro ao longo da fronteira com o México para impedir a entrada nos EUA. Pois com propostas destas Trump vai à frente dos pré-candidatos republicanos nas sondagens.

Nos anos 90 do séc. XX tivemos em Portugal um afluxo de imigrantes da Europa de Leste, nomeadamente ucranianos, cuja contribuição para a nossa economia foi largamente positiva. Por isso importa combater algumas falácias que por vezes se ouvem. Como dizer que os imigrantes vêm tirar trabalho a portugueses, quando eles vêm fazer aquilo que os portugueses já não fazem (como acontece noutros países). Ou afirmar que os imigrantes trazem a criminalidade com eles, quando os números desmentem tal ideia.

A Europa e sobretudo Portugal precisam de mais imigrantes. De resto, há muito que eles são indispensáveis por cá em setores como a agricultura, o turismo e a construção e obras públicas.