Sociedade

Leal da Costa: ‘Era importante que o próximo ministro da saúde fosse eu’

Estava no seu gabinete, quando na segunda-feira, dia 26 outubro, recebeu uma chamada de Pedro Passos Coelho. O objetivo era convidá-lo para ser o novo ministro da Saúde. “Disse-lhe logo: ‘Com certeza senhor primeiro-ministro: seja por 24 horas seja por quatro anos’”. Fernando Leal da Costa recordou o momento, quase no fim de uma conversa com o SOL, no terraço do Bairro Alto Hotel, em Lisboa. Não chovia, mas notava-se uma brisa de frio. “Se quiserem uma manta digam”, tinha avisado uma das funcionárias do hotel boutique. “Seria ridículo”, disse, descontraído, o ministro. Enquanto as pessoas à volta tentavam disfarçadamente confirmar se aquele era o membro do Governo, Leal da Costa ia conversando sem problema: “Há muito boa gente que pensa que fui escolhido para 15 dias mas, perdoem-me a arrogância, o senhor primeiro-ministro por ventura reconhecerá a minha competência”. Nota-se que gosta de falar de política e sabe a mensagem que quer passar: a de que o PS ainda tem “alternativa de procurar um governo estável” com “os aliados naturais” em vez de unir-se a uma “esquerda radical”. Sem hesitar, continuou: “É uma perversidade da lógica partidária e será sempre um governo de usurpação nacional”, pois, apesar de “ter legitimidade jurídica, não é natural uma coligação do PS com partidos de ideologia totalitária”.


E seguiu direto para o PCP. “É um partido com coerência ideológica e também para eles é contranatura esta aliança com o PS”. Leal da Costa deu um golo no cappuccino, que entretanto chegou à mesa, e prosseguiu o raciocínio. “Temos de respeitar o PCP, nomeadamente na área autárquica, mas também vai sair prejudicado”. E do BE o que pensa? “Esse é uma amálgama de ideias mal definidas e um conjunto de comunistas frustrados com trotskistas e com maoistas sem lugar. Eles próprios não sabem o que são. Uma coisa que tem cinco chefes...”. Enquanto agarrou num dos pequenos bolos de manteiga que estão num prato em cima da mesa – é guloso, admite, apesar de nunca colocar açúcar nos quatro cafés diários que bebe – retomou as críticas ao Bloco. “A doutora Catarina Martins fala como se fosse já a primeira-ministra” e o mais preocupante, avisou, é que apenas se ouve falar “de aumento da despesa e diminuição de receita”. Este é, vai dizendo Leal da Costa, o seu maior receio quanto ao possível governo de esquerda. “E se a despesa aumentar em tudo não vai sobrar dinheiro para a Saúde”. Além disso, preocupa-o o facto de a esquerda “só falar, em revogar coisas que foram feitas”, como a taxa moderadora do aborto, que “são 7,5 euros” e “só afeta uma percentagem muito pequenina de portugueses”. “É atirar areia para os olhos das pessoas, pois isso não é reforma nenhuma”.

Trocas de lugar com Macedo no carro do motorista

Faz questão de lembrar que, apesar de algumas medidas terem ficado por implementar na legislatura anterior – como a conclusão da reforma hospitalar, especialmente a integração entre os hospitais e centros de saúde – o Governo assegurou a sustentabilidade do sistema de saúde. E guarda como duas “importantes vitórias” do último Executivo – onde foi secretário de Estado Adjunto – as lei do tabaco e do álcool. Em relação à primeira gostava que tivesse entrado mais cedo em vigor;e no que respeita à segunda diz que falta avançar com legislação sobre publicidade em espaços juvenis. Garante que tem uma agenda para o seu mandato e que considera importante “remunerar melhor as pessoas, concluir a reforma hospitalar e assumir compromissos com os parceiros sociais”.

Suceder a Paulo Macedo não o assusta. “Para o melhor e para o pior estarei sempre associado ao que foi feito pelo doutor Paulo Macedo” – de quem, sublinha, ficou grande amigo, Aliás, foram juntos para a tomada de posse do novo Governo, no passado dia 30. Para o Palácio de Belém foi de boleia com o ainda ministro. “No regresso fui eu que lhe dei boleia”, conta, divertido, explicando que tiveram de trocar de lugar. Na ida, por ser ainda tutelar da pasta, Paulo Macedo foi sentado no banco de trás à direita, como manda o protocolo. No regresso esse lugar foi ocupado por si.

Quando chegou ao Ministério da Saúde, na Avenida João Crisóstomo, mudou do anterior gabinete no 5.º andar para outro no 6 º piso, onde estiveram os seu antecessores. E nas primeiras horas ainda estranhou quando o tratavam por senhor ministro. “Olhava para o lado a ver que ministro estava ali”. Rapidamente se habituou à ideia e agora até acha que está no lugar certo. “Chegou a hora de voltarmos a ter um ministro médico”.

Todos os dias, garante, tem saudades de exercer. Esteve indeciso entre tirar Medicina ou Direito, mas acabou por seguir o caminho do pai que era médico e professor de Saúde Pública. “Na medicina há uma relação emotiva e mais gratificante do que na politica”, nota, comparando as duas atividades. “Mas em ambas se trabalha para as pessoas”. Quando se fala em casos de doentes que não esquece, recorre a uma frase de Lobo Antunes para lembrar que “cada médico transporta consigo o seu cemitério”.

Quando não está a trabalhar gosta de ouvir música. “Ouço bandas estranhas”. A favorita é o grupo inglês Van der Graaf. “Cheguei a ir a uma festa do PS no Terreiro do Paço para ouvir o Peter Hammill, o líder histórico do grupo”.

Caso o Governo venha a cair nos próximos dias pode regressar ao Instituto Português de Oncologia, onde era diretor de serviço de Hematologia, quando em 2011 foi escolhido para integrar o Executivo. Quanto ao seu sucessor, deixa uma sugestão: “Acho que era importante que o próximo ministro da Saúde fosse eu”.

catarina.guerreiro@sol.pt