Cultura

Retornar a um passado recente

Fotografias, negativos e mobílias. São alguns dos objetos que pertencem à família de Manuel Santos Maia, um dos investigadores que contribuíram para a montagem da exposição Retonar- Traços de Memória, que está patente nas galerias da Avenida das Índias, até 29 de fevereiro. Entre o património familiar aqui exposto, que serviu também como material de estudo e investigação, estão também diversos desenhos de planificações de casas. Foram feitos pelo seu avô, o primeiro da família a ir para Maputo, em 1939, tornando-se um dos primeiros construtores de Moçambique. “Esta secção tem o título ‘Para Depósito’ porque inicialmente havia esta ideia de que todos estes objetos iam mesmo para depósito e eu tento rebater isso. Penso que temos de tornar presente, fazer emergir e confrontarmo-nos com as narrativas”, explica, referindo que se trata de uma história de migrações, algo que caracteriza o nosso país. “A presença africana é fortíssima e está inscrita culturalmente, não só na história dos retornados. Lembro-me que, para a maioria das pessoas, Zeca Afonso era música portuguesa, mas para mim era africana!”.

À Tabu admite que o objeto que guarda com mais carinho são os búzios, que encontramos cuidadosamente colocados dentro de uma pequena vitrina de vidro. “Falta um. Nós somos quatro, e cada filho tinha o seu”, explica ao retirar um da caixa como uma criança que abre um presente de Natal. “Passado uns dias de chegarmos a Portugal, vindos de Maputo, eu dizia à minha mãe que sentia saudades do mar e da Praia das Chocas e ela dizia-me para pegar nele porque assim conseguiria ouvir o mar. Passei muito tempo a ouvir o búzio”, conta a rir, explicando que veio para Portugal quando tinha seis anos.

Também Bruno Góis pertence a uma segunda geração de famílias que regressam a Portugal no fim do Império Português. O seu trisavô foi um dos mil madeirenses que partiram aquando da colonização no seu período oficial, entre 1885e 1892. O bisavô, Jaime de Freitas Munheiro já havia nascido na Chibia (vila de Huíla, Angola). “A minha relação com os temas coloniais é de muita proximidade, pois na minha biografia familiar tenho um lado paterno mais bem resolvido em termos identitários, que vem do Ribatejo. O meu lado materno é português, mas vem de Angola, uma vez que a minha avó e mãe já nasceram na Caála (Huambo, Angola)”, relata o investigador que ficou responsável pela análise dos jornais entre 1961 e 1979, abarcando as guerras de libertação africana, os processos de independência dos países africanos, até ao período da chegada dos retornados e da sua inserção na sociedade portuguesa.

“Apesar de todas as transformações políticas a acontecer em Portugal ninguém pensava que teria que sair daqueles territórios”, aspeto que mais o intrigou. O porquê é fácil de entender: “O Governo português comunicava que nada de mal iria acontecer àquelas populações e que nunca iriam ter de sair. Havia mesmo um grande incentivo a que não viessem para Portugal. Portanto, quando tudo aconteceu, foi um choque para elas”.

Álbuns pessoais coletivos

Além de investigador foi também objeto de estudo. A sua família foi apenas uma das muitas que cedeu as suas fotografias e retratos pessoais que se encontram pendurados nas paredes da galeria, sem qualquer legenda, data, nome ou qualquer organização aparente. O propósito é mesmo assinalar o retorno das ex-colónias portuguesas em África e os 40 anos da ponte aérea de 1975 com estes testemunhos pessoais. “Pretende-se recriar o álbum pessoal. As fotografias não estão organizadas, tal como os nossos álbuns lá de casa. Quero destacar todas as frases e todas as pessoas: as que aqui estão e as que aqui não estão”, diz Elsa Peralta, comissária da exposição que entrevistou “centenas” de pessoas no decorrer da sua investigação. Alguns desses rostos foram fotografados por Bruno Simões Castanheira e compõem um outro compartimento intimista, onde se ouvem as suas vozes que contam o que foi retornar. “Quero mostrar que há gente de carne e osso, com a sua história, com a sua face que viveu tudo uisto e que por isso não faz parte de uma só categoria nem de uma estatística”.

Memórias dolorosas

 “Na minha família fala-se muito pouco sobre isto porque é um acontecimento traumático”, admite Bruno. A primeira memória dolorosa é da sua mãe, que se lembra de se despedir da sua irmã mais velha sem saber se a iria voltar a ver na sua vida. E na verdade, só se reencontraram 20 anos depois, já que o seu destino não foi Portugal, mas sim a Califórnia. “Outros foram também para o Brasil. Iam para onde conseguissem encontrar o seu modo de vida”, diz, explicando que nem sequer concorda com a expressão ‘retornados’.

“A minha mãe e avó consideram que não retornaram, porque não conheciam esta terra. Têm até uma relação de distanciamento em relação a Portugal continental e à ilha da Madeira”. Muitos dos seus familiares nem sabiam que tinha sido esse o local de nascimento das antigas gerações, pelo que essa memória se desvaneceu. “Como a minha avó diz, esta é a terra dos netos dela. Ela reconhece que foi bem acolhida e está grata por isso, mas continua a dizer que ela é de Caála, para onde não quer voltar se não imaginariamente”, conta referindo-se à sua frase que faz parte da coletânea das que estão expostas nos contentores ao lado do Padrão dos Descobrimentos (ver imagem acima). Por ser um local simbólico da construção da memória imperial portuguesa, é aí que a exposição começa.

‘Não há debate nenhum’

A investigação começou há dois anos e meio, mas Elsa Peralta assegura que ainda há muito material para estudar. “Pelo menos para quatro anos”, diz a investigadora, que se tem focado no estudo de como a sociedade portuguesa contemporânea se relaciona com a memória histórica do antigo Império Português.

Os objetos de estudo têm sido sobretudo as centenas de entrevistas que fez aos retornados, sendo que conseguiu muitas das fotografias expostas pelos contactos que fez com retornados através do Facebook.

A principal conclusão que tira é que “nós temos uma relação muito celebratória e orgulhosa”. “Todos os países têm os seus mitos e a minha ideia não é destrui-los. É, sim, complexificá-los e problematizá-los”, admitindo que houve cuidados na seleção de testemunhos e informação a expor: “Não quisemos retirar nada à discussão mas quisemos fazer isto de forma a não ofender as pessoas, porque elas podem ter uma posição que nós podemos criticar eventualmente, mas elas viveram na pele estes acontecimentos”.

Manuel partilha a mesma opinião. Na altura em que começou a pensar os parâmetros da sua mostra lembra-se de olhar para o seu sobrinho e de refletir onde estaria esta memória num futuro próximo. “A distância a que nos encontramos agora deste acontecimento histórico permite-nos ver mais e melhor, de frente, esse passado”, que acredita que não deve ser ocultado e silenciado. “É uma história complexa e simplificá-la é uma injustiça. Aqui abordo o quanto de alguma forma sou moçambicano, sendo também português”.

simoneta.vicente@sol.pt