Sociedade

O gueto que virou bairro da moda

O Largo do Intendente Pina Manique, ou simplesmente Intendente, como é conhecido, mudou radicalmente em poucos anos. Zona de tráfico e consumo de droga e de prostituição durante décadas, «extremamente marginalizada», como define João Meneses, que coordenou a equipa destacada pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) em 2010 para reabilitar a Mouraria, a praça transformou-se num lugar cosmopolita da capital. Na moda. Turístico.

Deixou de ser um gueto na zona nobre da cidade, ‘vedado’ a quem passava na Avenida Almirante Reis, um lugar perigoso onde ninguém entrava, e abriu-se ao exterior, atraindo visitantes com uma agenda cultural preenchida.

E o  que aconteceu à população mais marginal que o habitava e ao tráfico que ali se fazia diariamente? «Não desapareceram completamente», assume o responsável do Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção Prioritária (GABIP) da Mouraria, uma ‘unidade de missão’ criada pelo antigo presidente da CML, António Costa –  que em 2011, numa operação de charme se tornou no improvável inquilino da praça, mudando o seu gabinete para lá.

Para mudar o bairro, esta unidade de missão criou o projeto Reabilitar a Mouraria, orçado em 13, 5 milhões de euros, dos quais dois milhões  foram investidos na vertente social e humana, que terminou no ano passado.

Porém, a sua «semente», que envolveu várias instituições de solidariedade social, equipas técnicas especializadas, juntas de freguesia e polícia, «foi lançada», congratula-se João Meneses, visivelmente satisfeito com os resultados obtidos em tão curto espaço de tempo. Apesar disso, o trabalho do GABIP continua hoje a ser desenvolvido por equipas de rua, apoiadas pelas juntas de freguesia de Arroios e de Sta. Maria Maior, a que pertence uma das ruas adjacentes ao pequeno largo. Ao mesmo tempo, tem-se apostado na intervenção policial.

Além do patrulhamento diário,  «por elementos de patrulha e  elementos afetos ao modelo integrado de policiamento de proximidade», refere fonte oficial da PSP ao SOL, «existe policiamento em serviço remunerado, com indicações específicas para a zona, entre as 12h e as 4h da manhã, que abrange a Travessa do Benformoso e a rua Maria Andrade, compreendendo a rua do Benformoso, largo do Intendente, parte da rua Maria e travessa do Cidadão João Gonçalves».

Da vergonha ao orgulho

No largo do Intendente, numa manhã de segunda-feira, há movimento, turistas na esplanada do pequeno café de esquina O’ das Joanas, pessoas do bairro, idosos, imigrantes. Polícia. E prostitutas, que continuam à espera de clientes, na rua dos Anjos, emproando-se, sempre atentas a quem passa. Subindo pela travessa do Maldonado que desemboca no Lidl do Forno do Tijolo, na rua Maria, um idoso observa o alvoroço que se montou no passeio.

Dois polícias agarram um rapaz, que aparenta ter 20 e poucos anos, enquanto esperam reforços. Chega um carro da Polícia. Com a baguete recém-comprada no supermercado, o idoso sabe em primeira mão o que aconteceu. E descreve: «Foi apanhado a roubar sabonetes e desodorizantes no Lidl». Nada de surpreendente para quem vive na zona há 50 anos. O que mudou foi a presença mais constante da Polícia. Lá iremos.

Como a dona Alice, de 76 anos, que mora na Rua Maria, o idoso ainda esclarece que a zona está «mais segura».

A dona Alice, bem-disposta, à entrada do prédio onde vive, lembra os tempos, idos, em que «todos os dias via as mulheres que assaltavam os clientes em frente, ali no canto», conta, apontando para o outro lado da rua. «Também tínhamos aqui sempre gente a picar-se, aí deitados, mesmo à porta», desfia, lembrando que as suas vizinhas mandavam os toxicodependentes embora sair. «Eu nunca tive coragem, coitados».  Hoje, diz, alegre, a septuagenária, tudo mudou. Tem vizinhos «muito decentes» que ouvem música alto, mas não se importa. «Até adormeço a ouvir a música». E conclui: «Digo-lhe mesmo, eu tinha vergonha de dizer onde morava e evitava passar no largo, estava cheio de camionetas. Agora o Intendente está lindo, dá vontade de ir lá tomar o café».

Ruído a ‘altas horas’ continua

Mas nem tudo são rosas, dirá, na travessa do Forno aos Anjos, uma das muitas, e estreitas, que desembocam no largo, Renato Pimentel, de 58 anos. Deixou o bairro onde cresceu há 17.

Saiu para a periferia de Lisboa, como fizeram muitos dos antigos habitantes do Intendente, cuja valorização do património arquitetónico acarretou consigo uma subida vertiginosa do preço dos apartamentos. Atualmente, Renato trabalha como chefe de segurança na Central de Cervejas na Póvoa de Santo Adrião.

Mas volta com frequência à casa de infância. Nesta segunda-feira, veio, como todos os dias, trazer o almoço à mãe, de 89. «Antigamente, havia muito tráfico, não se podia sair à rua», recorda o antigo habitante do Intendente. Mas que ninguém se engane: «Há ainda por aqui muito jogo, de ossos, de dados, prostituição». A principal queixa de Renato refere-se, no entanto, ao ruído. «A altas horas o bar da esquina [na rua dos Anjos] põe música a tocar e é um inferno para a minha mãe, que passa a noite acordada», conta. «Os moradores fazem queixa, mas passado um dia, tudo continua».

À PSP, porém, têm chegado menos reclamações. «As que existem relacionam-se essencialmente com a presença de toxicodependentes e com a prática de alguma prostituição na área circundante ao largo», esclarece fonte oficial do organismo.

Quanto ao tráfico de droga, garante um morador, também não desapareceu: «Há entregas diárias às sete horas da manhã e às sete da tarde, na rua Maria». Quanto aos consumidores, «alguns foram integrados», outros «estão nas franjas do bairro, mais escondidos». Um dos locais apontados situa-se nas traseiras da Igreja dos Anjos.

Júlio Cunha, octogenário que comanda a barbearia do largo do Intendente, aberta pelo pai há uma centena de anos desde os seus 18, confirma que «à noite ainda haverá focos de droga». «De resto, com os toxicodependentes, aconteceu o mesmo que no Casal Ventoso», acredita: «Dispersaram». 

Sublinha, porém, que a zona mudou muito «desde que veio o António Costa para cá». É um nostálgico do passado da praça, que conhece como a palma da mão: «Os que moravam cá, foram embora para fora de Lisboa. Antigamente, o comércio era porta sim, porta não». Isso perdeu-se quando o Intendente se tornou um centro de toxicodependência e prostituição. O barbeiro chegou mesmo a ter clientes que deixaram de frequentar o seu estabelecimento, à medida que o consumo e o tráfico de drogas se adensavam na zona.

Até à vinda do antigo autarca. «Apareceram coletividades, o que incrementou a vida no largo. As casas estavam muito degradadas e algumas foram reabilitadas, mas outras ainda precisam de reabilitação».

Pessoas a picarem-se na rua

Rosa Riveiro, galega de 50 anos que herdou a taberna (entretanto encerrada) aos pais é uma dessas habitantes mais antigas do bairro. E é uma testemunha ativa das mudanças vividas nos últimos anos.

Rosa mora na rua do Benformoso há «muitos anos» e sempre teve, por causa da taberna, onde lhe chegavam os «maltratados da noite, as prostitutas sem nada para comer», um contacto «muito próximo com a população local». É, por isso, natural que tenha ajudado na «transição do bairro».

«Sempre tivemos estabelecimentos comerciais, por isso já fazíamos ação social, a vários níveis. As pessoas sentavam-se, conversavam um bocadinho», lembra a comerciante, que após a morte do pai abriu uma lavandaria.

Começou a trabalhar com a associação das Irmãs Oblatas, que coordenam o Centro de acolhimentos e orientação da mulher, em projetos de apoio a toxicodependentes e trabalhadoras sexuais. Só este ano, a instituição já abordou 164 pessoas. Dez mulheres, por exemplo, estão a ser formadas em geriatria.

E Rosa esteve lá no início. «Dávamos preservativos, uma palavra amiga, ajudávamos quando estavam doentes ou quando precisavam, como as imigrantes com a papelada».

Assistiu a muitas mudanças no bairro mas, também ela, não tem dúvidas de que o «mediatismo trazido pela vinda do presidente da câmara, que chegou ao largo sem guarda-costas, trouxe a mais radical». O Intendente, recorda, sempre foi «um lugar boémio», onde acorriam os imigrantes. «Primeiro os galegos, nos anos 30 e 40; depois os angolanos, nos anos 70; depois os paquistaneses. Depois, empurrados por requalificações feitas noutros bairros, vieram os toxicodependentes. Via-se as pessoas a picarem-se na rua. Era só heroína, cocaína, dormiam em pé».

Isso deixou de acontecer. o largo, onde uma intervenção de arte de Joana Vasconcelos detém os olhares dos visitantes e convida ao segredo, tem a Casa Independente, a Vida Portuguesa, o Largo, de residências Artísticas, e muitos outros projetos.

Ao nível social, há, além da intervenção das duas juntas de freguesia, várias instituições com equipas no terreno continuamente a intervir para a inclusão. É o caso da obra religiosa das Irmãs Oblatas e da Crescer na Maior, instituição que começou a intervir na zona em 2003 junto da população toxicodependente, e que, em 2011, foi convidada pela equipa do GABIP para reuniões.

Uma casa primeiro

A questão, explica o responsável da Crescer na Maior, que se impunha era «o que poderia ser feito junto desta população, onde os casos de exclusão extrema eram mais prementes».

«Foi necessário um trabalho de confiança, de intervenção muito intenso. Passámos de ter equipas na rua durante uma hora a sete horas», explica.

Equipas estas que incluíam uma psiquiatra que prescrevia receitas na rua, por exemplo. Mas a grande diferença na intervenção no Intendente e nas ruas adjacentes passou por alterar completamente a forma de atuação. «Propus inverter o paradigma. Normalmente a casa é o último passo na integração de uma pessoa. Experimentámos fazer o contrário: primeiro dar uma casa, e depois tratar das questões de saúde, da documentação». Foram ajudadas desta forma 13 pessoas, durante o projeto do GABIT, apoiado por fundos europeus.

‘Mantorras’, um nigeriano que viveu na rua durante 20 anos, um caso de vulnerabilidade total associado a consumo de álcool, foi uma das pessoas que recebeu uma «casa primeiro». «Para se ter uma ideia, ele não sabia fazer as necessidades na casa de banho. Hoje, toma conta da própria casa, reduziu imenso os consumos de álcool, vai às compras», congratula-se Américo Nave. «Muitas vezes, pensa-se que estas pessoas não querem sair da rua. Penso que precisam de uma resposta social diferente, mais personalizada». Até ao momento o É Uma Casa entregou 15 habitações, sujeitas a regras como visitas diárias que podem chegar a seis por dia. A junta de freguesia de Santa Maria Maior, a Fundação PT e a CML são os grandes mecenas do projeto que teve resultados tão positivos que a CML pediu à associação que o alargue ao resto da cidade. Porque, por vezes, garante Américo Nave, uma casa é o «primeiro passo para estruturar um ser humano».

sonia.balasteiro@sol.pt