Sociedade

Jardim Gonçalves: Um homem em trânsito

A casa de Jardim Gonçalves não é a casa de Jorge. Porque apesar de um ser o outro, a casa de Jorge é a da sua infância, um lugar que funcionava também como escola primária, um dos primeiros colégios privados da Madeira, fundado pela mãe Bernardete. Essa é a casa, o espaço de infância em que mais sonhos foram sonhados, em que viu partir o irmão Agostinho para o seminário e o pai chorar pela única vez, em que chorou sozinho a morte de Luísa, a avó paterna. O lugar onde convalesceu de uma doença que lhe mudou a vida, aos 17 anos. A casa em que ouviu o seu pai tocar violoncelo, em que comia lanches com os amigos enquanto estudava. Essa foi a casa de Jorge, o sítio em que tudo existiu antes de existir, mesmo Assunção a mulher da sua vida, ele explica-me (explica-nos) porquê. 

Augusto Brázio
Augusto Brázio
Augusto Brázio
Augusto Brázio

A casa onde mora há 25 anos, esta que hoje nos revela, é mais importante do que alguma vez foi, mas nunca será a do Funchal. É o sítio para onde a família se mudou nos tempos de ouro do BCP, um lugar de representação, capaz de oferecer a Jardim Gonçalves espaços de intimidade e família, mas também de ser um símbolo de poder. A casa de Sintra foi na maior parte do seu tempo de existência um híbrido, um dois em um; por um lado a casa de Jardim Gonçalves (o banqueiro), por outro a casa de Jorge (o homem por detrás do banqueiro).

Acabado de completar 80 anos tem a tendência para se sentar na sala e olhar para fora, o jardim está sempre à distância de um olhar, quando o vê não é aquele jardim que vê, mas o verde das Babosas ou da Senhora do Monte onde, nos arredores do Funchal, passava as férias grandes. Quando caminha para a biblioteca e se senta num maple colado a um outro, o de Assunção, passa por um caminho que fez por parecer o que o levava à casa da avó Luísa.  

A casa de Jorge Jardim Gonçalves já não é a mesma. Nela habitam tanto os vivos como os mortos, explica-me que é um tema que não lhe faz sentido, em si os mortos estão tão vivos como os vivos. Disse-mo na sala, perto do quadro que Manuel Amado lhe ofereceu nos tempos da guerra colonial. Uma enorme sala que tem dentro de si uma divisão de estar, é lá que vê televisão antes de subir para o quarto. Tem também, na outra extremidade, uma mesa onde dá os jantares para amigos ou convidados.

Está um piano a meio, houve um tempo em que Rodrigo, o mais novo dos seus filhos, deliciava a família com rascunhos de Bach ou Chopin - agora o piano é o poiso para as fotografias dos seus e dos de Assunção. Há também flores pela casa, impecáveis, alegres, vivas. Há nossas senhoras espalhadas, quadros que lhe recordam mensagens essenciais.

Um dia perguntei-lhe como se via quando se via: era o Jorge ou o Engenheiro Jardim Gonçalves? Não hesitou um segundo que fosse, Jorge se via. É assim que o vejo também, apesar de um ser o outro. Voltou a aproximar-se do Jorge da casa de infância. Acontece-nos a todos, não é? Talvez um pouco mais distante do mítico homem a quem todos tratavam por senhor engenheiro, o mais poderoso banqueiro português, mas mais próximo de si. 

luis.osorio@sol.pt