Economia

Tomás Correia, o banqueiro improvável

Se alguém desprevenido passar este fim de semana perto da Comporta e entrar num pequeno restaurante com uma pessoa a cantar um fado vadio para um grupo de amigos, é possível que esteja perante António Tomás Correia, o presidente do Montepio Geral - Associação Mutualista. Depois das mais atribuladas eleições de que há memória na instituição, o gestor foi ontem reeleito para um novo mandato. E se decidir relaxar dos meses de polémica, fá-lo-á na aldeia alentejana a cantar para os amigos, como é costume.


Depois de uma contagem de votos que durou quase um dia, os 58 mil associados que participaram na votação deram mais um mandato ao gestor, que está na presidência desde 2008. Pelo caminho ficaram quatro adversários que concorriam aos órgãos sociais da associação mutualista.

O final do mandato anterior não escapou a uma tempestade de casos. Foi acusado pela oposição de erros na gestão, de créditos duvidosos, de operações megalómanas. Uma auditoria do Banco de Portugal trouxe preocupações para as primeiras páginas dos jornais. Afastou-se da caixa económica - que ficou entregue a José Félix Morgado - mas fez questão de recandidatar-se à associação mutualista. Defendeu-se das acusações com a proximidade das eleições, com uma “campanha contra o Montepio para que uns quantos associados começassem a alavancar candidaturas”. Admite que por vezes se sentiu “injustiçado”.


Origens humildes

Prestes a completar 71 anos, António Tomás Correia cresceu em Moscavide, nos arredores de Lisboa, quando o país lidava com situações sociais graves. Naqueles anos 50, o que são hoje os Olivais ou a Portela eram zonas de barracas. Oriundo de uma família humilde, que vivia da agricultura de subsistência, Tomás Correia era o que se chamava de ‘ratinho’ na lezíria - o nome dado aos trabalhadores rurais migrantes. Chegou a trabalhar como bate-chapas, até que terminou os estudos de Direito e começou a dar nas vistas na Caixa Geral de Depósitos, onde teve uma carreira de três décadas que começou pela base.

“A minha família era muito pobre, mas eu tinha uma certeza: a minha vida iria ser melhor do que a dos meus pais. Hoje não tenho a certeza de que a vida dos meus filhos vai ser melhor do que a minha. Isto é matar a esperança”, diz ao SOL.

Na juventude dedicou-se a trabalho social com os mais pobres. Contactou com pessoas mais à esquerda, com socialistas e comunistas, com movimentos da igreja.

Ainda se aproximou do PS, mas não foi relação duradoura. Não como a que tem com a música - ainda teve aulas de canto clássico, mas a profissão falou mais alto. Ao longo da vida, foi presidente dos bancos Luso-Espanhol, Simeon, da Extremadura e Bandeirantes e administrador dos bancos Itaú, Franco-Portugaise, BNU, CGD e Montepio.

Apesar da subida a pulso, o início do caminho marcou a sua formação. Mantém um discurso pouco comum em alguém que trabalhou sobretudo em bancos. “O poder político está demasiado vergado aos interesses económicos. O que se passa hoje é um ataque inaceitável ao mundo do trabalho. As conquistas que se conseguiram estão colocadas em causa. A juventude não tem emprego e vida própria. Não podemos ter a juventude desencantada”, diz.

Ainda hoje rejeita a ideia de ser um banqueiro. “Estou aqui por acidente. Ao longo de toda a minha vida não almocei mais do que cinco vezes a sós com presidentes de outros bancos”.

Prefere o convívio com os amigos de longa data e caminhadas. Alimenta há muito um sonho que está agora mais distante: fazer uma volta ao mundo num barco à vela. Com a vitória no Montepio, fica adiado pelo menos por mais três anos.

joao.madeira@sol.pt