Sociedade

Grupo Impresa volta às mãos da família

A saída de Pedro Norton da liderança do grupo Impresa surgiu sem aviso. 

Balsemão garante que a transição para as mãos do filho, Francisco Pedro, foi acertada há meses com o ainda CEO e que o processo decorrerá até março, «sem pressas nem precipitações». Mas os comunicados do chairman da empresa e de Pedro Norton - enviados em conjunto na segunda-feira - são omissos sobre o verdadeiro motivo do corte abrupto: a divergência frontal entre o fundador do grupo de comunicação social e o atual homem forte da Impresa quanto ao rumo a seguir.

Escolha de Norton não caiu bem junto de círculo íntimo

Há três anos, Balsemão passou o testemunho a Norton sem reservas, cedendo-lhe o cargo de CEO do grupo - era Norton quem passava a segurar o leme. A sucessão, numa lógica de visão a longo-prazo, fazia-se fora do círculo familiar.

Mas a decisão teve implicações. Por um lado, Pedro Norton recebeu essa responsabilidade numa altura particularmente sensível em 2012, com a troika em Portugal.

O divórcio entre Norton e a Impresa acaba por concretizar-se no final de uma etapa dura do mandato do CEO: as negociações do contrato de publicidade com a Altice (fechado há poucas semanas com perdas de receitas de largos milhões de euros) e do contrato com a Vodafone para a ‘renda’ a pagar pela transmissão dos vários canais da SIC no cabo. Um processo feito a dois (Balsemão interveio para ganhar peso negocial), condição última do chairman antes de nova alteração de rostos na cúpula da Impresa.

Durante os últimos três anos houve uma espécie de ferida nunca sarada, resultado direto das mudanças no conselho de administração, quando o grupo ficou nas mãos de um outsider (mesmo que o chairman considerasse Norton um dos seus). Essa decisão nunca terá caído bem junto de elementos próximos do Balsemão, apesar de o valor de Norton ser reconhecido pelos filhos deste com assento no conselho de administração - Mónica, Joana, Francisco Maria (saiu no ano passado) e o próprio Francisco Pedro.

Enquanto Norton renegociava contratos de publicidade, Francisco Pedro, com o pelouro de Recursos Humanos, ficou encarregue de renegociar contratos com as grandes figuras da empresa (sobretudo da SIC). Agora, Francisco Pedro prepara-se para, aos 35 anos, assumir a liderança, por proposta do pai. Há quem interprete este passo como um regresso do fundador aos comandos da empresa, agora que está liberto de compromissos no estrangeiro.

Surpresa esperada

Um percurso ascendente de mais de 23 anos na Impresa - e que culminou com a nomeação para CEO - levou a que se consolidasse a ideia de que Norton seria o homem do leme por muitos anos. A sua saída representa um corte numa prática de décadas no grupo, a de uma liderança perene.

Mas até que ponto foi uma surpresa dentro do conselho de administração? Segundo testemunhos recolhidos pelo SOL, a subida de Francisco Pedro era vista como quase inevitável. Numa primeira fase, teria sido o próprio a pedir tempo para amadurecer antes de assumir o papel principal. Aos mais próximos, Pedro Norton teria também desabafado que faria mais sentido a sucessão numa lógica familiar.