Opiniao

Medo da China

Depois de Deng Xiao Ping ter aberto a economia chinesa às forças do mercado, na década de 80 do séc. XX, o crescimento económico chinês foi fulgurante, acima de 10% anuais. Era um crescimento impulsionado pelas exportações, baseadas em salários muito baixos. A expansão económica chinesa assustava o mundo e Portugal não era exceção, sobretudo no setor têxtil.

Agora, o medo da China não desapareceu – só que persiste pelas razões inversas do receio anterior. A China cresce hoje a menos de 7% ao ano e há quem preveja que esse rimo irá baixar mais. Assim, os países ditos emergentes, como o Brasil, sofrem a quebra da procura chinesa de petróleo e outras matérias-primas. E países desenvolvidos, como a Alemanha, exportam para a China menos bens de equipamento. Tendo a economia chinesa uma enorme dimensão, o crescimento económico mundial fica afetado pelo arrefecimento na China.

Mas não dramatizemos. Quando o Japão, há meio século, começou a bater americanos e europeus nos automóveis e na eletrónica, também houve pânico. Ora, desde a década de 90 do séc. XX a economia japonesa está estagnada, tendo já sofrido dois períodos de deflação...

Seria improvável que a China pudesse manter por muito mais tempo o seu crescimento económico acima de dois dígitos. O normal é abrandar, até porque está quase esgotado o maciço êxodo rural para zonas urbanas e industriais, que permitiu salários baixos e forte competitividade das exportações chinesas.

Mas há motivos para preocupação. O capitalismo de Estado chinês revela falhas sérias. Contrariando os desejos e as promessas dos líderes políticos chineses, o país não logrou, por enquanto pelo menos, a transição de uma economia baseada na exportação e em grandes investimentos do Estado para uma outra, assente no maior consumo das famílias e nos serviços. A recente desvalorização da moeda chinesa mostra que a competitividade das exportações chinesas não está a ser obtida pela modernização das empresas. E os dirigentes chineses têm manifestado incompetência e desorientação no seu excessivo intervencionismo, em particular no setor financeiro.

Têm subido em grau apreciável os salários na China, sem que o consumo das famílias acompanhe essa subida, não se sabe bem porquê. O país debate-se com uma bolha imobiliária e com excesso de investimentos sem rendibilidade, ambos os casos provocando um nível alarmante de dívida. O que, por sua vez, agrava os receios sobre a solvabilidade dos bancos. Mantêm-se artificialmente abertas numerosas empresas sem viabilidade económica. E há setores dominados por ineficientes empresas estatais, por exemplo nos seguros e nas telecomunicações.

Em boa parte, estes problemas derivam do tal capitalismo de Estado, que põe entraves ao salutar funcionamento do mercado e da concorrência. Por outro lado, a incapacidade do governo chinês para corrigir essas situações foi posta em evidência com as recentes crises nas bolsas de Shangai e Shenzhen.

Essas bolsas não são representativas da economia da China. Mas chamaram a atenção para a incompetência intervencionista das autoridades chinesas, que tomaram decisões contraproducentes e contraditórias. Daí que muito capital saia da China. E que o capitalismo de Estado chinês tenha perdido grande parte da sua credibilidade.