Politica

O que têm feito os candidatos depois das eleições

‘Tino’ regressa à rua, Marisa a Bruxelas e Nóvoa às aulas na Universidade de Lisboa. O futuro de Belém passará pela consultadoria.


Uma conversa de poucos minutos ao telefone com Vitorino Silva é o suficiente para perceber que o calceteiro de profissão ainda recolhe na rua os louros da sua campanha às presidenciais: não há quem não queira cumprimentá-lo. ‘Tino’ de Rans, como é conhecido, chegou ao fim da noite eleitoral com 152 mil votos. Faltou muito pouco para pisar o candidato apoiado pela poderosa máquina eleitoral  do PCP, Edgar Silva. «Ainda estou a acordar deste sonho. As pessoas dizem que eu ganhei. Mas eu só tive 3%», estranha.

‘Tino’, o candidato que emergiu do povo, como se rotulou durante a campanha, vai continuar por Penafiel a esculpir calçada portuguesa nas ruas do concelho: «A rua é o meu gabinete. Até na campanha foi assim».

O futuro é uma incógnita. Não sabe se vai concorrer de novo às presidenciais de 2021. Mas, até lá, espera  poder organizar uma visita de Marcelo a Rans. Até para ver se o Presidente da República eleito aceita o desafio que lhe lançou, no domingo, quando ligou para felicitar o professor pelo resultado. Entretanto, vai continuar a dar aulas aos aspirantes a calceteiros. E pode partilhar algumas dicas de como fazer uma campanha ‘eficaz’, mesmo sem recursos aos aspirantes a candidatos a qualquer coisa.

Edgar no parlamento da Madeira

Entre os candidatos mais votados, o futuro imediato não será muito diferente em matéria de ocupação profissional. Edgar Silva, o ex-padre que deixou o PCP à beira de um ataque de nervos, tamanha foi a derrota nas presidenciais, regressa ao Funchal. À sua espera tem a coordenação regional da CDU e o mandato de deputado na Assembleia Legislativa Regional que suspendeu para se lançar na corrida a Belém.

Marisa Matias também regressa a um parlamento, mas em Bruxelas. A eurodeputada do BE, eleita pela primeira vez em 2009 e reeleita em 2014, é conhecida nos corredores do Parlamento Europeu pela sua capacidade de trabalho: coordena a comissão de Assuntos Económicos e Monetários; é vice-presidente da comissão que analisa as questões de fraude e de evasão fiscal e preside ainda a delegação para as relações com os países do Maxereque. «Mais responsabilidade é impossível», admitiu, esta semana, em entrevista à RTP2.

A bloquista regressou à capital belga menos de 24 horas depois das eleições e partilhou uma foto no Facebook com as malas antes de rumar ao aeroporto de Lisboa. Na bagagem, Marisa levou mais uma vitória - depois de ter ajudado o BE a subir a votação nas legislativas de 4 de outubro. Foi a surpresa das eleições e já há quem fale no seu nome para a liderança do partido. Para já, só pensa em cumprir o mandato.

Quem também quer regressar com a maior normalidade à vida que tinha antes das presidenciais é António Sampaio da Nóvoa. O ex-reitor da Universidade de Lisboa pediu na quinta-feira a reintegração no Instituto da Educação da Universidade de Lisboa, após nove meses de licença sem vencimento para se dedicar à campanha. Até ser aceite o pedido, Nóvoa admite ao SOL que vai descansar «uns dias» e «dar uma volta pelo país para agradecer os apoios» que recebeu.

Nóvoa recebeu um milhão e 60 mil votos dos portugueses - longe de conseguir empurrar Marcelo para uma segunda volta. Ao assumir a derrota, no domingo, pediu aos apoiantes que continuem a participar em movimentos, grupos e partidos. Isto porque o projeto que liderou até às eleições terminou ali mesmo. Ou seja, não vai evoluir, pelo menos para já, para uma associação ou até mesmo para um partido político.

Belém: gestão ou consultoria e sem funções no partido

Maria de Belém, ex-presidente do PS, ainda não decidiu o que vai fazer, agora que nem mandato de deputada tem para cumprir na Assembleia da República.

Antes das legislativas, e naquele que foi entendido como um primeiro sinal de que se preparava para entrar na corrida à Presidência, pediu a Costa para não integrar as listas do PS em lugar elegível e o secretário-geral fez-lhe a vontade.

Segundo fontes próximas, a ex-ministra da Saúde pode desempenhar funções de gestão ou de consultoria, como fez em tempos na Espírito Santo Saúde, enquanto era deputada e presidente da comissão de Saúde em São Bento (e que tanta polémica deu na campanha).

‘Liga dos últimos’ também regressa à normalidade

Também Jorge Sequeira regressa à normalidade do seu dia-a-dia - do qual nunca saiu verdadeiramente. O orador motivacional, que se desdobra em conferências, palestras, seminários e congressos, nunca despiu o fato: aquilo que mais fez durante a campanha foi tentar motivar as tropas, mesmo que para qualquer coisa abstrata.

O resultado não foi o melhor: Sequeira somou apenas 0,3% dos votos. Mas isso não lhe tira a motivação para continuar a espalhar mensagens positivas nas televisões e jornais onde faz comentários; nas aulas que leciona em várias universidades e nas duas empresas que tem na área da formação profissional e que trabalham com gigantes empresariais, segundo diz na sua página na internet.

Ainda na ‘liga dos últimos’ contam-se outros três candidatos: Cândido Ferreira, o candidato que somou a pior votação (0,2% dos votos), médico especialista em hemodiálise, regressa à direção clínica de um grupo de clínicas de que foi proprietário em tempos e que vendeu a uma multinacional norte-americana.

Henrique Neto, empresário no setor dos moldes, que somou apenas 0,8% dos votos, promete continuar a sua intervenção cívica. Paulo Morais (2,2%) regressa à Universidade Portucalense, onde é professor de Estatística e Matemática, e à Associação Transparência e Integridade, da qual é vice-presidente.

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