Cultura

Neta de Picasso volta a lucrar com herança de avô ‘maldito’

Visage (Face), um pequeno bronze de 1933-1934, foi a estrela principal do leilão ‘Picasso in Private: Works from the Collection of Marina Picasso’, que decorreu ontem em Londres. Com uma estimativa que rondava os 150-250 mil euros, acabou por superar o meio milhão. No total, a sessão rendeu mais de 15 milhões à neta do criador espanhol. Já em Junho do ano passado a descendente do maior artista do século XX havia vendido mais de uma centena de peças de cerâmica da autoria do seu avô.

Marina Picasso vê os rendimentos assim obtidos como uma justa recompensa pela forma como o seu avô semeou a infelicidade junto da família. No livro Grand-père, publicado em França em 2001, denunciava a forma ditatorial como o gigante das artes tratava os seus, fazendo-os esperar à porta da sua fazenda em Cannes porque estava a trabalhar ou a receber amigos, tratando-os com desprezo, tornando-os dependentes das suas pequenas benesses. Numa entrevista, Marina enunciou as vítimas: "O meu irmão, Pablito, suicidou-se. O nosso pai seguiu-se-lhe dois anos mais tarde, depois Marie-Thérèse Walter, a musa inconsolável, foi encontrada enforcada; Jacqueline, a companheira dos últimos dias, acabou com uma bala na cabeça, Dora Maar morreu na miséria rodeada de telas que se recusou vender".

É por essas e por outras que Marina Picasso não tem quaisquer complexos em lucrar com aquilo que herdou do avô. Mãe de cinco filhos e presidente de uma fundação que acolhe refugiados vietnamitas, no ano passado colocou à venda a célebre Villa La Californie, em Cannes, por mais de uma centena de milhões de euros. A antiga casa de Picasso, onde nasceram tantas das suas criações, ainda não encontrou no entanto comprador.