Politica

Esquerda portuguesa defende Lula da Silva

Lula da Silva sempre foi visto como uma espécie de herói da esquerda: vindo do mundo dos trabalhadores chegou ao poder com a promessa de ajudar os mais desfavorecidos. Em Portugal, como no Brasil, a entrada de Lula da Silva em cena divide a esquerda e a direita.

“Os ídolos do socialismo moderno têm pés de barro, não praticam o que tanto apregoam e desiludem os que neles acreditaram. Depois de Sócrates e Chávez agora temos Lula”, escreveu, esta semana, nas redes sociais, o deputado social-democrata Duarte Marques. O ataque ao outro campo ideológico foi feito depois de Dilma ter nomeado Lula da Silva como chefe da Casa Civil.

“Ao aceitar esconder-se por detrás da imunidade, a sua responsabilidade está explícita. É uma vergonha, é sobretudo uma vergonha de alguém que fez carreira, e bem, a defender os mais pobres. Agora traiu-os e traiu-nos a todos”, acrescenta, em declarações ao SOL, o ex-líder da JSD.

A esquerda discorda da nomeação de Lula, que envolve a forte suspeita de que foi para o governo para escapar à justiça, mas não deixa de condenar a atuação do poder judicial.

Uma ‘intensa operação de cariz golpista’

Na TVI 24, o bloquista Fernando Rosas defendeu que “o que se está a passar no Brasil é um golpe de Estado promovido ilegalmente por uma parte do poder judicial mais envolvido politicamente e que tem objetivos políticos muito claros: prender e anular o ex-presidente Lula como candidato presidencial”.

No mesmo debate na TVI24, o eurodeputado socialista Pedro Silva Pereira corroborou: “O dilema que Lula enfrentou é complexo. Com certeza que esta decisão afeta o seu património político. Agora, a alternativa que ele tinha pela frente, da forma como ele encara a situação, é ser vítima do poder judicial”.

Já o PCP acusa os setores mais “retrógrados e antidemocráticos” da sociedade brasileira de promoverem uma “intensa operação de desestabilização e de cariz golpista procurando alcançar o que não conseguiram nas últimas eleições presidenciais - a ação montada contra Lula da Silva insere-se neste processo mais geral de desestabilização”.

‘Corrupção na esquerda é mais grave’, diz Ana Gomes

A direita não demorou a reagir a estas posições. Carlos Abreu Amorim, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, acusou o BE de “ter deixado de ter problemas com o facto de políticos suspeitos de corrupção serem nomeados para os cargos mais elevados de um país apenas como estratagema para fugir à Justiça”.

Outro vice-presidente deste grupo parlamentar, Hugo Soares, também escreveu nas redes sociais que “é bom que o país saiba o que o BE e o PCP pensam. O sectarismo tolda-os”.

Os socialistas têm sido mais cautelosos. Ao SOL, Ana Gomes, eurodeputada eleita pelo PS, não iliba ninguém: “O Brasil está numa situação horrível, complicadíssima, com o país dividido a meio e com atitudes indignas de parte a parte. Quer os juízes que divulgam as escutas quer o poder que mete o Lula num cargo para se furtar à Justiça”.

A socialista considera mesmo que a esquerda tem de ser mais exigente com a corrupção do que a direita: “Na direita pode haver muita corrupção, a ideologia favorece-o. Já não é o caso da esquerda, por isso para mim é muito mais grave. Infelizmente, o sistema brasileiro está assente na corrupção, que é generalizada - veja-se os exemplos do Congresso”.

Paulo Pisco, coordenador do PS na Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, é mais contido e afirma apenas ter “muita pena que o Brasil esteja a passar por este momento de instabilidade”. O socialista diz que seria desejável que o Brasil “pudesse vir a ser um país com estabilidade política e pudesse ser um país de desenvolvimento e de progresso e um exemplo para toda a América Latina”.