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Quer experimentar um detox tecnológico?

Chegou a hora da derradeira mensagem: “Mãe, cheguei bem. Agora só volto a estar contactável daqui a dois dias”. Não, não vamos entrar num bunker, num retiro espiritual ou numa ilha em estado virgem, que se mantém assim exatamente por estar livre de uma civilização hi tech. Na verdade foram só três horas de carro, pouca autoestrada, placas a indicar “Pouca Farinha, “Maria Vinagre”, “Azia” e “Teimosas”. Se os nomes típicos de um Alentejo castiço servem de primeiro estímulo à distração, juntam-se ainda as setas a indicar Milfontes e a inevitável “Tasca do Celso”, uma Zambujeira que além de festival, tem um Traquitanas a oferecer búzios em travessas e, mesmo quase a chegar ao destino, o Pão do Rogil, uma espécie de Meca para quem é devoto do santo pão artesanal.


Resistimos heroicamente a tudo isto, até porque os olhos apenas tinham autorização para se desviar da estrada na hora de confirmar caminhos no mapa que ocupa o lugar de pendura e cujo tom amarelado nos fez duvidar se ainda será do tempo em que chegar ao Algarve era uma epopeia exclusiva de estradas nacionais. Mas vamos na fé de que traços marcados com a precisão da tinta são mais fiáveis que uma voz robótica e monocórdica que nos manda “sair na saída”. E nem mais: a seta da verdade manda-nos virar para o Vale da Telha e aí só mesmo perguntando a quem passa se chega ao mais recente alojamento local, até porque não é por fora que este espaço se distingue. Casa baixa, branca e azul, relva, piscina e portões abertos como quase todas as desta urbanização a oito quilómetros do centro de Aljezur. Talvez a grande placa azul que anuncia “Offline Portugal” ajude a dar a primeira dica do que se pode esperar da casa que é da Bárbara, da Rita e do Stan, mas que rapidamente pode passar a ser de todos aqueles que queiram fazer um detox.

Esqueça os sumos de espinafres, a dieta dos três dias de sopa ou o jejum que promete milagres para a saúde. Aqui a ideia é libertar o corpo de outro tipo de toxinas que não aquelas que nos chegam ao estômago.

Bárbara Miranda está à nossa espera na receção e, com a calma de quem está habituada a ver separações difíceis, explica: “Não é obrigatório, mas se quiserem nós guardamos todas as tecnologias num cacifo e só devolvemos no check out”. Como que num último adeus, pedimos apenas um segundo para fazer uma última atualização aos emails. “Estamos prontos”. Entregamos na mão das duas mentoras do projeto o telemóvel pessoal e o do trabalho, que ficam fechados num cacifo até ordem em contrário. Pela mente vão passando todos aqueles pensamentos de última hora - “Desliguei o ferro?”, Fechei o gás?”, “Terei deixado a chave na porta?” - de quem se mete no carro para uma semana de férias e que, quase sempre, obrigam a dar meia volta. Neste caso não foi preciso fazer marcha atrás, até porque houve tempo para toda uma preparação.

Preparar para desconectar

Os pacotes podem variar em número de dias e nas atividades que cada um considerar necessárias para desligar totalmente do stresse do dia-a-dia. Ioga, mindfulness e surf são algumas das propostas para passar o tempo que, em circunstâncias habituais, estariam ocupadas com o fazer check in no Facebook, as nova fotos do Instagram, as vinte notificações de Whastapp que o teu grupo de amigos fez ou a lista de spam que chega diariamente ao email do trabalho.

Naquilo que consideramos um meio termo, optamos por 48 horas de detox, sem surf nem mindfulness, mas com direito a ioga e tecnologias metidas num cacifo que mantivemos fechado até ao fim. Aliás, a vontade de desconectar era tanta que nos antecipamos ao check in e começamos dias antes a deixar pequenos avisos sobre uma total ausência de dois dias. “Mas vais estar mesmo sem telemóvel tanto tempo?” Sem telemóvel, sem tablet, computador ou qualquer outra tecnologia de ligação ao mundo. Os primeiros olhares incrédulos de quem estava perante um ato de loucura em potência, rapidamente se reviravam para cima, e quem se interessa por linguagem corporal saberá que isso é um dos indicadores de quem foi dito algo que levou a uma reflexão. “Na verdade, era mesmo disso que eu precisava”.

Foram desabafos como estes que levaram Bárbara e Rita a criar um conceito de férias diferente do habitual. “Queremos que as pessoas voltem a falar cara a cara. Parece algo tão simples, mas a verdade é que é cada vez mais raro”, explicam. Apesar de serem ambas de Lisboa, foi em Londres que se conheceram quando decidiram fazer uma pausa das viagens que as levaram a desistir da arquitetura e da psicologia que cada uma, respetivamente, tinha escolhido como formação.

“Londres é uma cidade gigante e eu, para conhecer pessoas, usava imensas aplicações de encontros entre pessoas com interesses comuns”, refere Bárbara. Em conversas que foram tendo ao longo dos anos, havia sempre um tema comum: o de tornar estes encontros possíveis sem o recurso a tecnologias. Não que estejamos perante duas pessoas fora do mundo real: as duas têm iphone, Facebook, Instagram e, inevitavelmente, recorrem à internet para gerir aquilo que começou por uma ideia e acabou por se tornar um negócio. No ano passado, Rita desafiou Bárbara a voltar a Portugal para abrirem o Offline Portugal e há duas semanas que aquilo que não passava de um projeto de quem se cansou de ver as pessoas coladas a um ecrã, virou negócio. “Na verdade, para mim, desde que dê para pagar as contas já é bom”, confessa Bárbara.

Se a ideia inicial passava por montar arraias emLisboa, rapidamente perceberam que Aljezur oferecia o ambiente que procuravam.

“Temos a praia a vinte minutos a pé, floresta para caminhar, boa comida, pessoas simpáticas”, começa a enumerar Rita, numa lista ainda longe de ter um fim. Bárbara está encarregue das aulas de ioga e Stan, o namorado que trouxe de Inglaterra, é o mestre do surf. Pelo meio, há sessões de música, até porque todos tocam vários instrumentos, uma televisão que só é ligada para passar documentários sobre surf, jogos de mesa e uma lareira à frente da qual se reúne toda a conversa.

Um telemóvel à MacGyver

Na hora de fazer a mala para dois dias em Aljezur, a primeira coisa que entra é o biquíni, mesmo que a meteorologia previsse dias nublados. Juntamos roupa, escova de dentes, toalha e estamos prontos. Na bolsa de fora ficam sempre os gadgets e os respetivos carregadores e é na hora de organizar esse departamento que caímos na realidade. “’Pera lá, mas eu não vou precisar disto”. Os minutos seguintes são de um tal esforço mental que nos obriga a pegar em papel e caneta para organizar ideias.

Fugindo ao óbvio do que seriam dois dias sem telefonemas, sms e redes sociais, começa a juntar-se tudo aquilo para o qual o telemóvel se tornou uma ferramenta. Qual canivete do MacGuiver, a verdade é que este pequeno retângulo preto serve de telefone, mas também de despertador, relógio, máquina fotográfica, GPS, bloco de notas e conta quilómetros. A pequena mochila para dois dias rapidamente passa a uma mala de rodinhas, com todos os extra que chegam de última hora: um mapa de estradas, o despertador do ToyStory que há anos que serve quase só de decoração na mesinha de cabeceira, o pedómetro que vai ajudar a medir distâncias nas corridas matinais, a máquina fotográfica digital e a polaroid para matar o bichinho de ter as fotos publicadas online. Para ocupar o tempo - e a mente, principalmente -, vai um livro, a pilha de revistas que esperavam por um momento “sem nada para fazer” para serem lidas, o mp3 ainda com músicas de um VH1 de há dez anos e um bloco de notas onde apontamos tudo aquilo que podemos vir a precisar na impossibilidade de uma ida rápida à net: morada do hostel, telemóveis do chefe, do namorado e da mãe e vá, já que é para entrar no espírito, apontar endereços para encher os correios de postais.

Dois dias por mês. Pode ser?

Já de regresso a Lisboa, já sentada na secretária a escrever, já com um tom moreno que causou a inveja aos colegas de secção e que levanta dúvidas sobre as previsões dos nossos meteorologistas, a ideia de voltar a um detox tecnológico parece tão tentadora quanto recomendável. É certo que a costa vicentina dá uma grande ajuda. Afinal quem é que se lembra de telemóvel com as aulas de ioga da Bárbara, as praias de Monte Clérigo e Arrifana ali à mão, uma série de caminhos para desbravar à beira-mar, ou quando se tem à frente uma mesa de lingueirão e pão alentejano.

Calma, não vim de lá com o vírus das comunidades hippies. Foram dezenas as vezes que me saía um “que horas são?” - até voltar a descobrir que uma máquina fotográfica digital tem relógio - e houve duas ou três vezes em que, sem pensar, fui à mala para tirar o iphone, como aquele gesto quase inevitável de tocar no interruptor mesmo sabendo que falhou a luz. Mesmo assim, nem na hora de fazer check out a adrenalina subiu por saber estava a segundos de voltar a ter o mundo nas mãos.

Dois dias, 152 emails, duas chamadas não atendidas, 16 notificações de Whatsapp, 13 no Facebook, três no Instagram e quatro sms. Posso pôr em modo voo só mais cinco minutos? J