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José Mata: “De vez em quando preciso de me sentar e pensar no que ando aqui a fazer”

    

Cafés precisam-se. Lei circunstancial da vida quando se marcam entrevistas para as onze da manhã. Ainda que em um ou outro caso seja já o terceiro do dia – sim, que para chegar às onze a algum lado convém levantar mais cedo – é a necessidade que o dita, ou alguém, no seu perfeito juízo, aguenta quarenta minutos de conversa quando o cheiro a lençóis ainda não nos largou as narinas? Cafeína para que te quero. Pergunta retórica que dispensa interrogação, que requer uma atenção especial à porta do Teatro da Politécnica – onde aconteceu a conversa – não vá um bando de turistas decidir entrar sem pedir licença e invadir a casa de banho. No meio de tantos desvios de foco, o gravador a apontar para cima que as tecnologias bem gostam de pregar partidas. José Mata está pronto para essas. E para tantas outras, trocadilhos sempre insistentes que são culpa de um apelido de assassino, nomeações para prémios de Melhor Ator para a Sociedade Portuguesa de Autores – este está ganho – para os Prémio Sophia e para os Globos de Ouro. E aí alto, que a responsabilidade no cartório já é de “Amor Impossível”, filme de António-Pedro Vasconcelos onde contracenou com Vitória Guerra. Veio da televisão, que considera uma grande escola, onde surgiu em “Morangos com Açúcar” e onde passaria ainda por séries da RTP como “Maternidade” e “Depois do Adeus”. Em “Aqui Tão Longe”, outra produção RTP onde lida com a teia do terrorismo, é agora João Simões, namorado da protagonista que parte para o estrangeiro. A distância é coisa que importa, também aqui em “Jardim Zoológico de Vidro” – que fica no Teatro da Politécnica de 27 de abril a 4 de junho –, onde calha de ir parar a um jantar daqueles que sempre se tem uma vez na vida mas que, em podendo, era para não ter. Jim O’Connor é responsável pela distribuição num armazém de calçado e estuda publicidade em regime pós-laboral. Persegue o desejo de ser sem depender, ir porque ficar não resolve nada. Mas isso é Jim, a personagem. José quer o oposto. Ficar e bater o pé, ficar para tentar assegurar um lugar ao sol na interpretação nacional. Mesmo que para isso, por vezes, seja preciso usar chapéu. 

A sua personagem é o símbolo maior do american dream na peça. Parece-lhe que é o tipo de ideal que ainda faz sentido no mundo atual?

Acho que faz sempre, temos que manter os sonhos presentes na vida, agora acho que estamos mais cientes da realidade também por estarmos cada vez mais próximos de tudo, existe um acesso enorme à informação. Ou seja, diria que estamos um bocado mais com os pés assentes na terra, o que também não é necessariamente mau. Mas acho que faz sentido falar em dream, em american dream não sei.

Mas a prosperidade não lhe parece quase uma plataforma inexistente e inatingível?

Não sei, depende da forma de estar de cada um. Estamos em constante mudança e há pouco tempo passámos por uma mudança radical, se formos comparar o tempo em que o Tennessee Williams escreveu este texto e o tempo em que vivemos... é tudo diferente. Gosto de viver as coisas dia a dia e deixar-me surpreender com aquilo que me vai acontecendo. É claro que é sempre bom termos objetivos e sonhos para irmos batalhando, já passei por uma fase de deixar andar e às tantas percebes que não podes deixar andar mais e que tens sair de casa e perceber o que queres.

Ainda se vai a tempo de um portuguese dream?

Claro que sim. Cada vez mais devemos pensar maior, Portugal tem muitos talentos, em todas as áreas, e apesar de sermos pequenos temos provas dadas. Temos que perder o medo de sonhar.

O José acredita num futuro internacional?

Tive há relativamente pouco tempo no Subtitle Film Festival, na Irlanda, com a Patrícia Vasconcelos, e foi a primeira experiência que tive com o estrangeiro. Falei com diretores de casting, deu para perceber como funciona o mercado internacional e que não é um bicho de sete cabeças como muitas vezes pensamos.
São pessoas...

Não são bosses de último nível, é isso?

Exato, são seres humanos, não são bichos com capas. E são pessoas interessadas, que gostam de saber quem és, ainda que seja aquele realizador ou aquele ator que já fez aquele filme incrível. Até aí se sente alguma proximidade, o que é bom. As coisas têm que se ir construindo.

Veio daí alguma coisa mais concreta?

Concreta não, claro que se podem abrir uma ou duas portas, mas nada a sério ainda. Mas os mercados neste momento estão muito próximos, se quiseres fazer um casting para uma produção inglesa mandas uma self tape e eles avaliam-te. Hoje em dia, com as tecnologias, fazes um casting do teu quarto. Agora, não deixas de ter que abrir essas portas, de teres que te mostrar e, como é óbvio, não ponho isso de parte. Nesta fase da minha vida estou mais preocupado em segurar aqui o meu cantinho em Portugal.

Que tem crescido a bom crescer ultimamente.

Sim, nos últimos três anos, sobretudo.

Como é que se lida com essa montanha?

De forma natural. O primeiro trabalho que fiz foi há doze anos, entretanto já tive emprego, fiz o Conservatório, já tive muito trabalho, menos trabalho. Tive a sorte de trabalhar com muitas pessoas que me levaram a concretizar uma afirmação nos últimos anos. Só quero é trabalhar cada vez mais, não apenas chegar aqui ou ali,
quero saber que vou fazer disto a minha profissão. Ou seja, assegurar isso.

O Jim, a sua personagem nesta peça, é um jovem sonhador que, entre outras coisas, está a estudar publicidade. É das pessoas que acha que a publicidade é uma forma de salvar o mundo?

Acho que sim, não diria tanto a publicidade mas antes as marcas. São as marcas que decidem o que acontece, são as marcas que te dizem se podes ou não fazer um espetáculo ou um filme. A publicidade tem um papel fundamental na cultura, acho que faz sentido falar-se dessa relevância.

Curiosamente foi o meio em que começou, embora não enquanto publicitário...

[risos] Exato, fiz um casting que nem era para fazer, fui acompanhar uma amiga e o diretor de casting acabou por me pedir para fazer também, coisa que nem queria mas como ele insistiu... Acabei por fazer o anúncio e daí entrei na L’Agence onde já estou há 15 anos. Depois fiz outro anúncio e lá surgiu o casting para os “Morangos com Açúcar”. A partir daí foi sempre a andar.

Considera-se criativo, daqueles que se levantam a meio da noite para anotar uma ideia no caderno?

Sou dos que me levanto a meio da noite mas não é para escrever nada no caderno [risos]. Tenho o sono leve, acabo por me levantar para ir beber água e afins. Enquanto criativo... depende, se tiveres com muitas coisas na cabeça é bom para a criatividade mas também te deixa mais alerta, mais ansioso. É bom teres muito a acontecer, e até ficas mais predisposto para essa criatividade, mas também andas mais agitado.

A agitação nem sempre é a melhor amiga, certo?

Sim, e isso está relacionado com o facto de teres que te impor um tempo para parares. Arranjar as técnicas para, de vez em quando, me sentar e pensar onde estou, quem sou, no que ando aqui a fazer.

Nesta lógica de publicidade, se tivesse que fazer um slogan para este “Jardim Zoológico de Vidro” qual seria?

Ui, isso é forte. Acho que seria qualquer coisa como...”Continuar a correr nesta estrada porque a vida não pára” [risos].

José Mata, o nosso grande criativo.

Ganham bem eles...

O Jim é sujeito a um jantar algo caricato. Tem muitas mães a quererem casá-lo com as filhas?

[risos] Nada disso, nunca me aconteceu.

Repare que, nem que seja uma vez na vida, todos já tivemos jantares desconfortáveis.

Sim, concordo, mas nunca me aconteceu algo como ao Jim, acho que se percebem essas coisas antes do dito jantar, algo que não acontece na peça. Nunca senti uma mãe de uma amiga ou amigo a fazer força para que eu ficasse com ela ou tentasse combinar mais qualquer coisa. Quando conheço as mães as raparigas já são minhas namoradas, e eu é que tenho que ir jantar com as mães delas [risos].

O crescente mediatismo mudou a sua vida na rua, é mais abordado?

Nem por isso. Quer dizer há aquelas coisas normais de estares no ar com alguma novela ou série, as pessoas vêm e gostam de ir falar contigo. O que é engraçado é que, ao longo dos tempos, as pessoas vão-te reconhecendo de trabalho para trabalho, ou seja, já não és só aquela personagem, já começas a ser o José Mata que fez aquilo e aquilo.

Podemos então dizer que não tem nenhuma stalker oficial.

Espero bem que não, comigo está tudo tranquilo, já soube de umas histórias com outros atores um bocado assustadoras.

Ganhou agora o prémio de melhor ator da SPA e acaba de ser nomeado para os Globos de Ouro com “Amor Impossível”, de António-Pedro Vasconcelos. Presumo que tenha sido um projeto que tenha gostado.

Foi maravilhoso. Foi um processo longo, foram sete castings com a Patrícia Vasconcelos que tiveram
o final mais feliz de sempre: ter participado neste filme. Apaixonei-me pelo guião assim que o li, já conhecia a história porque já tinha tido um briefing sobre a mesma. E quando soube que ia ser com
a Vitória [Guerra] fiquei ainda mais entusiasmado, é uma atriz incrível, uma pessoa maravilhosa e minha amiga. Trabalhar com o António-Pedro foi incrível, ele dá imensa liberdade aos atores, fomos um mês e tal para Viseu filmar. Foi uma mistura de uma série de coisas muito positivas.

Como é que se lida depois com este tipo de nomeações e prémios que, diga-se o que se disser, confere orgulho.

Claro, é sempre bom ver que, depois de te matares a trabalhar, esse esforço é reconhecido.

O que é que dirá, se ganhar o Globo?

Não sei, quando foi o SPA não estava à espera de ganhar e isto é mesmo sincero, não estava, embora saiba que quando estás nomeado há sempre uma hipótese de ganhares. Tinha uma coisinha pensada mas quando chegas lá acima nunca dizes metade do que tinha pensado dizer. Acho que é importante partilhar o prémio, como sempre se faz nessas ocasiões, deve ser por aí.

Tem feito tudo: teatro, cinema, televisão. Para que lado a sua balança pende mais?

Não sei, comecei pela televisão, fiz o percurso ao contrário, depois diz muito teatro, entrei no Conservatório, entretanto tive a oportunidade de fazer cinema, muitas curtas-metragens, duas longas... Não tenho uma preferência, mesmo. São técnicas e ritmos distintos, são cores diferentes.

Não me convence, há sempre um filho preferido, ou um maior à vontade com a câmara ou com uma audiência à frente.

Houve uma fase em que andava a fazer mais televisão e entretanto surgiu o filme, portanto, voltar agora ao teatro, que não faço desde outubro... estou inseguro. Confesso, estou cheio de medo da estreia, mas até me parece importante encarar e superar esses medos. Talvez possa dizer que estou um bocadinho mais à vontade com a câmara mas acho que isso está relacionado com a fase da tua vida, ultimamente é o que tenho feito mais. Quando estás todos os dias em frente a três câmaras e gravas vinte cenas por dia ganhas uma ginástica fundamental, algo muito importante para o cinema. A televisão é uma grande escola.

O teatro, por sua vez, não é novidade no seu percurso. Veio aqui parar a convite do Jorge Silva Melo?

Sim, o Jorge tinha ido ver o tal espetáculo que fiz em outubro, no Maria Matos, “Uma Mulher Sem Importância”, do Oscar Wilde, com encenação do Joaquim Horta. Fiquei muito contente e disse logo que sim, nem hesitei. É um privilégio estar aqui nos Artistas Unidos, a trabalhar com o Jorge Silva Melo.

Ao ver o seu currículo percebi também que já trabalhou com Bernard Sobel, esse monstro do teatro.

Ele foi convidado para fazer o nosso ateliê de final de curso no Conservatório. Fizemos o espetáculo e entretanto foi inserido no Festival de Almada. Foi maravilhoso, ele é incrível, foi uma espécie de mestre para mim.

O que guarda desse ensinamento?

São coisas que te ficam e nem consegues muito bem explicar. Processos interiores, de cabeça e de corpo, coisas como ele dizer como olhar para um texto, às vezes coisas simples de como te viras em palco, como contracenas. Ele trazia um tradutor, muitas vezes não percebia o que nós dizíamos mas isso não interessava porque sentia as coisas. Se formos ver uma peça a Moscovo não percebemos nada do que eles dizem mas muita coisa vai passar, porque estamos a falar de sentimentos.

Não é só a língua.

Isso, fartei-me de aprender com ele. Às tantas perguntou-nos: “Porque é que nós fazemos teatro? Sabem?” Ficou tudo calado e ele: “Porque um dia vamos todos morrer”. E deu um exemplo de quando vamos ver uma peça e existe um telhado, o ator está a atravessar esse telhado, pé ante pé, quase a cair, e é o público, a audiência que está a dar aqueles passos, que está prestes a cair.

Também caiu na nova série da RTP, “Aqui Tão Longe”, produção que aborda a distância e o terrorismo. Como é interpretar algo dessa natureza?

É assustador, tentamos não pensar nisso enquanto atores, mas, de vez em quando, levamos uma chapada quando lemos uma ou outra notícia... Sobretudo a coisas que acontecem na Europa. Damos mais importância a essas porque nos são mais próximas mas há atentados todos os dias, no mundo inteiro. A questão é que não podemos viver escondidos nesse medo. A nível de interpretação tentei ter um olhar sobre isto e tentar fazer o melhor possível... É um tema muito delicado.

Como é que se ficciona isso?

O nosso papel é fazê-lo da forma mais credível, também me parece importante que não existam tabus, que se fale sobre isso sem rodeios, hoje em dia basta ligar o computador para percebermos o que se passa à nossa volta portanto não tem que haver problemas em falar de terrorismo.

A série fala também de distância. É algo que procura manter nas suas relações ou por oposição é alguém que dá tudo?

Sou mais do tipo que dá tudo. Ainda assim tenho sempre amigos que me dizem que não digo nada, que fico 15 dias sem telefonar. Acontece quase sempre quando me envolvo mais no trabalho. Mas mesmo com amigos que só vejo de ano a ano, quando estou com eles é que como se nos tivéssemos visto todos os dias. Portanto distância nesse sentido não, porque mesmo não estando presente fisicamente sinto-me sempre próximo.

“Depois do Adeus” foi outra das séries onde participou.

Comecei por fazer novelas e a certa altura fiz a “Maternidade” e a “Depois do Adeus” para a RTP, foi quando conheci o Sérgio Graciano com quem entretanto também já fiz uma longa-metragem. É um privilégio podermos fazer séries em Portugal, não há muitas e quando temos oportunidade de trabalhar outra linguagem é importante agarrá-la.

A série chama-se “Aqui Tão Longe”. O que é que não pode ter longe de si?

A minha família, os meus amigos, a minha namorada, o meu cão, por aí.

E a profissão, podes ter?

A profissão... Lembro-me de falar com amigos, sobretudo atores, porque pronto, nós depois rodeamo-nos todos...

Os jornalistas têm essa mania também...

[risos] Sim, podem existir uns paralelismos, de facto. Acho que um ator está constantemente em laboratório, quando vamos para um palco ou quando temos uma câmara a filmar, estamos a jogar, por isso se diz to play ou o jouer, e transportamos muitas coisas do nosso quotidiano. Quanto mais atentos estivermos, quanto mais experiências vivermos, melhor vamos compreender como vamos fazer quando não for a sério.

Sei que perdeu o seu pai cedo. Em que medida é que isso influenciou o seu crescimento?

Marcou-me bastante. Aos 12 anos não percebes bem o que te aconteceu, é diferente de perderes um pai aos vinte, em que tens outra perceção das coisas e encaixas e resolves dentro de ti de uma forma ou de outra. No meu caso foi algo que não resolvi, foi algo que fui resolvendo. Claro que isso me influenciou, é o meu percurso, mudou muita coisa, agora não te consigo dizer se seria melhor ou pior pessoa, se teria feito escolhas diferentes se o meu pai fosse vivo. Isso não entra na equação. Tive a sorte de ter uma mãe e um padrinho muito presentes que, de certa forma, compensaram essa ausência.

Que mecanismos é que se encontram para “resolver”, como agora dizia?

Não se encontram. Cada um lida à sua maneira, passei por uma fase em que não queria sequer pensar nisso, depois chegas a uma altura em que percebes que tens que entender como é que isso te mudou, a partir dos 25 anos, talvez, passas por uma catarse que te enquadra os sentimentos. Falo disto com muita naturalidade, é assim que tem que ser.

E ser pai, está programado?

Claro, quero muito ser pai, mas agora não.

Porquê?

Não, tenho outras prioridades. Quero atingir uma espécie de pseudo-estabilidade, porque nesta profissão andamos sempre de um lado para o outro e não sabemos bem onde vamos estar amanhã, mas quero focar as minhas atenções todas no trabalho.

Sabe que depois, aos quarenta, pode já não conseguir jogar à bola com o rapaz, ou correr atrás da miúda...

Consigo, claro que consigo, isto até aos 70 há muito tempo para fazer filhos, para as mulheres é que é pior [risos].

Quantos trocadilhos fazem com o seu nome?

Tantos... É engraçado, muitas pessoas chamam-me José da Mata, devem-me confundir com a Vanessa da Mata ou achar que sou primo dela. Depois também brincam com uma coisa de seguros que há ali ao pé das Amoreiras.

Realmente ao googlá-lo para preparar a entrevista fui dar ao site da José Mata Seguros.

Não é meu, infelizmente. Para o Google estou sempre a matar alguém, o que não é verdade, como sabemos. Mas sim, brincam muito, e a maior parte dos meus amigos trata-me pelo apelido. E depois há aquela coisa: “Se a Lia Gama o Jorge Palma e o José Mata, o que é que a Rosa Lobato Faria?” [risos]. Ou ainda: “Filomena Cautela que o José Mata”. Estão-me sempre a dizer essas coisas.

Lida bem com isso?

Claro, quando é para rir estou lá...