Internacional

‘Viver na Venezuela é estar num filme de ficção científica’

Os serviços públicos fecham às quartas, quintas e sextas, todos os dias há pelo menos quatro horas sem energia, as prateleiras dos supermercados estão há muito vazias e depois das seis da tarde já são poucos os que têm coragem para sair à rua. Podíamos estar a falar de um cenário de filme perto do apocalíptico, mas são apenas factos de quem vive a Venezuela no dia a dia.

A crise no país não é recente, mas a aceleração na impressão de moeda e as dívidas contraídas pelo Governo para manter programas sociais e subsídios fizeram acelerar um processo para o qual ainda ninguém vislumbra um fim.

O SOL falou com três portugueses que vivem num país que viam até agora como «um sítio cheio de oportunidades», mas que agora está mais próximo de um «filme de ficção científica».

Hélder Fernandes

35 anos

Dono de uma cadeia de padarias

Num dia como qualquer outro de 2008, Hélder acordou cedo para abrir uma das padarias da cadeia gerida pela sua família. O que não fazia parte da rotina era ter à porta 12 homens armados que o mantiveram em cativeiro no mato por 26 dias. A libertação só aconteceu quando o seu pai reuniu o dinheiro suficiente para a troca. «Para quem ouve isto pode parecer estranho, mas aqui é o dia a dia», conta ao SOL: «Viver na Venezuela hoje em dia é como estar num filme de ficção científica».

Para garantir que nada falte em casa, rendeu-se ao mercado negro, nem que para isso tenha passado a pagar 1.500 bolívares (1,5 euros) por um quilo de arroz, quando o preço normal seria à volta dos 120 (10 cêntimos). «Recuso-me a ir para filas de oito horas para entrar num supermercado quase vazio», refere. E recorre a um exemplo prático para ajudar a que os cenários ganhem forma a quem ouve a história de um país cujo salário mínimo não chega aos 10 euros: para comprar leite em pó para o filho, tem de se fazer acompanhar pela certidão de nascimento da criança, a única forma de provar que é realmente o pai.

Dos relatos que ouve dos seus trabalhadores, sabe que há quem tenha passado das três refeições ao dia para apenas uma. «As pessoas estão a tentar vender tudo o que podem, é um desespero». Talvez por isso, no caminho entre o trabalho e a sua casa, passe por cada vez mais carros abandonados à beira de estrada: «Já nem dinheiro para gasolina há».

Manuel Sardinha

62 anos

Dono de uma loja de bebidas

O sotaque e a falha de memória para expressões portuguesas não enganam. Afinal, estamos a falar com alguém que saiu da Madeira há 35 anos para cruzar o Atlântico. A Venezuela era então «um paraíso, um país de oportunidades», recorda. Agora, não consegue pintar um quadro positivo quando vê que, a partir das seis da tarde, já não há gente na rua. «A minha vida é trabalho e casa», resume, até porque mesmo de táxi a viagem pode não ser segura. «Em todo o lado há o risco de assalto, sequestro ou morte», garante.

Por dia, há quatro horas sem energia impostas pelo governo. Durante esse período, que obedece a uma escala diária, só a loja que gere num centro comercial de 200 lojas se mantém aberta. Além disso, a insegurança já obrigou Manuel a encurtar o horário de modo a fechar às 18 horas, quando antigamente mantinha portas abertas até às 21 horas. «Faça as contas e veja como isto afeta o meu negócio», desafia.

Não é preciso sacar de calculadora para perceber que os cortes têm que ser feitos em todo o lado. Se à mesa ainda não faltou alimento graças ao que vai comprar no mercado negro, nem sempre consegue os medicamentos para a tensão, que devia tomar diariamente, o que já o levou a algumas crises nos últimos meses. Mas ir ao hospital nem chega a ser uma hipótese: «Ainda esta semana vi um programa na televisão em que mostrava imagens de casas de banho sem água, lixo nos corredores e ratos a passar nas salas de operações».

Luísa Marques

53 anos

Dona de uma padaria

Luísa já vive há tantos anos em Caracas que a mãe, em Portugal, já lhe chama a «filha venezuelana». Em 1984, quando decidiu trocar de país, aterrou numa «Venezuela maravilhosa», com educação gratuita, boas universidades, salas cheias de concertos e peças de teatro e centros comerciais como só agora existem em Portugal. «Nem percebia porque me diziam que ia viver para o terceiro mundo».

Com o passar dos anos, percebeu que as maravilhas com que se deparou na aterragem estavam escondidas atrás de um clima de insegurança que, hoje em dia, faz com que os seus passos diários se limitem ao percurso entre casa e trabalho. «Já roubaram as alianças ao meu marido, o telemóvel à minha filha e o meu genro já teve uma pistola apontada à cabeça», enumera, numa lista que termina na manhã da conversa ao telefone com o SOL: «O meu filho foi ontem trocar um pneu do carro e hoje quando foi à oficina pagar o serviço descobriu que o mecânico tinha sido assassinado durante a noite».

Sem coragem para começar de novo uma vida em Portugal, Luísa não tenciona abandonar Caracas, até porque, mal ou bem, mantém as portas abertas da padaria que serve de sustento à família. «Já tive que fechar uns dias porque não há farinha. Neste momento, tenho uma padaria sem pão para vender».