Cultura

O amor é um supermercado

“Refrigerantes e Canções de Amor”, realizado por Luís Galvão Teles, chega hoje às salas

O amor é um supermercado

Fazer um filme também pode ser fazer reposição de stock num supermercado. Exercício que pode soar tão estranho como uma história de amor entre um rapaz e um dinossauro cor-de-rosa que vende refrigerantes (os refrigerantes) ou teorias com nomes como “carrinhologia” – que cremos ser uma tradução de Nuno Markl, que ainda nos há de explicar o que é, do americanês ‘trolleyology’. Como num daqueles filmes que começam com várias histórias aparentemente desconectadas que, à medida que o final se aproxima, vamos percebendo estarem interligadas, em “Refrigerantes e Canções de Amor” também tudo há de fazer sentido. O caminho é que pode não ser fácil, afinal estamos perante aquilo que Ivo Canelas, protagonista deste filme que Luís Galvão Teles estreia hoje e que é a primeira longa metragem escrita por Nuno Markl, definiu em conversa com o i como uma “comédia romântica musicalo-psicadélica”.

Vamos então começar pelo princípio.“É tudo muito bizarro, mas eu quero assegurar às pessoas que não tomei qualquer tipo de estupefacientes para escrever esta história”, jura Markl em início de conversa que nos leva até 2007, ao supermercado mais impessoal que poderíamos imaginar: o Continente do Colombo. “É possível fazer psicanálise com base neste argumento. Por muito bizarra que possa parecer esta história, a sua essência foi tão simples como a minha primeira ida ao supermercado sozinho no fim do meu primeiro casamento, quando achava que estava tudo resolvido. Era uma rotina que fazia sempre a dois e foi aí, com rolos de papel higiénico, produtos de limpeza e bolachas maria, que eu me apercebi do peso da solidão.”

E como é tantas vezes a tristeza combustível para a escrita e para fazer comédia, o resultado disto foi chegar a casa e começar a escrever a partir da experiência deprimente que tinha tido. Não sabia se um sketch, se uma sitcom passada num supermercado cheio de solitários que tentam engatar-se a comparar carrinhos de compras. Pois, foi por esta altura que Markl leu, entre tudo aquilo que precisa de ler alguém que alimenta “O Homem que Mordeu o Cão”, um artigo sobre uma tentativa de ciência que traduziu para “carrinhologia”, “uma teoria segundo a qual pessoas solitárias em busca de amor deviam ir para supermercados tentar ver se o conteúdo do carrinho delas era de alguma forma compatível com o conteúdo do carrinho de outras pessoas”.

O dinossauro Foi juntar uma coisa e outra, a mágoa da solidão do supermercado e isso da “carrinhologia”, para começar a escrever uma série centrada em pessoas solitárias obcecadas com os carrinhos das outras num supermercado, que depois começou a achar “demasiado cínica e negra”. Ainda bem que foi por essa altura que voltou a apaixonar-se, porque foi aí que criou a personagem interpretada por Victoria Guerra, por quem Lucas (Ivo Canelas), um músico deprimido resignado à composição de jingles para marcas de produtos de supermercado, se apaixona: a tal da Dinossaura Cor-de-Rosa. “Adoro estas mascotes e as pessoas que têm esta profissão, que têm de passar horas dentro disto e que se calhar por dentro estão tristíssimas e deprimidas mas por fora têm estes sorrisos gigantes. Achei que era giro como metáfora, agradou-me muito a ideia de ter um protagonista que se apaixona por uma pessoa sem fazer a mínima ideia de como ela é”, explica. “A partir de uma certa altura tu percebes que ele já se está nas tintas para isso, tudo isto é uma história de amor atípica, portanto não sei muito bem o que é que as pessoas vão achar.”

O que será estar dentro de um fato de dinossauro conseguimos mais ou menos imaginar. Ser a pessoa que vai comer hambúrgueres e dançar com um para depois fazer uma declaração de amor é que não, o que justifica a pergunta a Ivo Canelas e a resposta bem à altura de um título como “Refrigerantes e Canções de Amor – Prepare o Seu Coração”: “Normal, mais um dia no [festival] Boom. No Boom é sempre assim.” Agora a sério: “Há uma metáfora que é simples mas que acho bonita que é a metáfora das máscaras. O dinossauro é uma máscara, como todos temos as nossas. Posso estar a olhar para ti mas não sei quem és, temos que ver para além da pele e acho interessante esse lado profundo numa comédia levezinha.” Porque Lucas, que era músico e tinha um duo com Pedro – Pedro e Lucas, como o duo brasileiro de sertanejo mas ao contrário – é abandonado por Pedro e depois por Carla (Lúcia Moniz)que o troca por Pedro.

Clichés que servem bem a depressão profunda em que mergulha Lucas, que encontramos no sofá a lamber telemóveis mergulhados em manteiga de amendoim (?) e a quem começa a aparecer um Jorge Palma imaginário, homenagem de Markl a John Malkovich. “O guião interessou-me a partir do momento em que apareceu a figura da Dinossaura, que dá [ao filme] um lado um bocado psicadélico mas que é muito simples: podias fazer esta história sem máscara, podias fazer isto em drama. Acho muito giro quando um guião pode atravessar géneros.”

Sobre o guião, que chegou às mãos de Galvão Teles logo em 2008 através de uma amiga em comum, Cláudia Semedo, que Nuno Markl diz ser o “big bang” disto tudo – foram precisos oito anos para conseguir financiamento para este filme rodado em seis semanas e que estreia no mesmo ano que “Gelo”, último filme do realizador que completa agora cinquenta anos de carreira, com oito longas metragens. “O Markl é um humorista de uma riqueza extraordinária e de uma longevidade extraordinária porque se renova e vai sempre encontrando caminhos novos, mas eu não sabia que o Markl tinha efetivamente um talento também e quando me falaram que existia um argumento escrito por ele, disse que gostaria muito de ler, mas sem saber o que iria encontrar: se uma coisa mais na linha de sketches, de humor puro e duro”, recorda Galvão Teles. “A minha grande surpresa foi encontrar um argumento de cinema. Um filme.” Em que, faltou dizer, Sérgio Godinho é um assassino contratado, Ruy de Carvalho dono de um supermercado com  DJ e Gregório Duvivier... “tem uma camisa aos quadradinhos”.

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