Politica

Será a política compatível com um reality show?

A Juventude Social Democrata tem estado envolvida em várias polémicas de cariz pouco político. Líderes falam em escolhas pessoais e falta de conhecimento da realidade local. Mas há quem realce o “estigma” em relação às juventudes partidárias 

Paulo tem 28 anos e vem de Marco de Canaveses. É licenciado em Filosofia, já escreveu um livro de poesia e trabalha como gestor de marca no ramo automóvel. Decidiu participar na “Casa dos Segredos” para acabar com o estereótipo associado aos participantes no reality show. Até aqui, nada de extraordinário, até se falar no segredo que esconde dos restantes concorrentes e está a dar que falar um pouco por todo o país: “Ocupo um cargo político.”

A situação não é inédita. Recorde-se que o ex-presidente da Câmara de Marco de Canaveses, Avelino Sousa Torres, foi concorrente da “Quinta das Celebridades” em 2004. No ano seguinte, o ex--autarca e candidato presidencial Vitorino Silva, conhecido por Tino de Rans, participou no mesmo programa, tendo ainda sido concorrente do “Big Brother VIP” em 2013.

Mas não deixa de causar espanto. Que o digam os membros da estrutura da Juventude Social Democrata (JSD), que foram totalmente apanhados de surpresa: é que Paulo Ricardo Teixeira é o atual líder da JSD de Marco de Canaveses.
“Eu não sabia, a estrutura muito menos. Soubemos tal como o cidadão comum”, explica ao i o presidente da JSD, Cristóvão Simão Ribeiro. Tal como aconteceu com o líder da JSD distrital do Porto, à qual pertence a concelhia de Marco de Canaveses. “Tomei conhecimento no domingo [dia 11] à noite porque me ligaram a dizer que ele estava no programa”, diz Pedro Santana Cepeda.

Decisão pessoal Ambos consideram, porém, que se tratou de uma decisão pessoal e que não tem a ver com a Juventude Social Democrata. “Não há matéria política a comentar. A JSD tem jovens na sua estrutura que são um reflexo da sociedade portuguesa. De vários quadrantes, de vários posicionamentos sociais, de várias formas de estar e de ser e, portanto, aquilo que o Paulo faz enquanto concorrente de um reality show, ao Paulo fica restrito”, considera Simão Ribeiro. “Ele nunca fez nenhuma referência política desde que está lá, portanto, para já, não temos nada a comentar. Será naturalmente responsável por aquilo que fizer e disser enquanto estiver no programa”, acrescenta Santana Cepeda.

Os dois líderes conhecem pessoalmente o presidente da JSD de Marco de Canaveses e descrevem-no como um “bom líder da concelhia”, “bastante ativo” e “empenhado”. Ainda assim, enquanto o líder da JSD não parece preocupado com a situação, realçando que “as pessoas devem separar a vida pessoal da atividade da estrutura”, o responsável pela distrital do Porto não afasta a possibilidade de esta participação passar uma imagem negativa dos jotas. “A JSD tem feito um trabalho de uma forma muito séria, em especial a distrital do Porto. Ficaria muito triste se alguma coisa pudesse prejudicar esse trabalho, mas estou confiante de que isso não acontecerá.”

“O Paulo tem mandato e foi eleito pelos militantes de Marco de Canaveses, no exercício da atividade da JSD na concelhia de Marco de Canaveses. Caberá aos militantes de Marco de Canaveses fazer esse julgamento, não a mim”, afirma Simão Ribeiro, explicando ainda que a sua ausência por tempo indeterminado em nada influencia o seu mandato. “Já houve ocasiões em que outras pessoas estiveram ausentes do país, em trabalho, e não foi por isso que deixaram de exercer as suas atividades quando voltaram.”

Conhecer a realidade local Esta não é, contudo, a única atividade fora-da-caixa associada à JSD. A eleição da miss e do mister JSD Santana, na Madeira, e o workshop de maquilhagem promovido pela JSD-Madeira têm dado que falar, em particular nas redes sociais.

Para a vice-presidente da JSD-Madeira, é preciso contextualizar estas atividade antes de apontar o dedo. “As concelhias são núcleos de maior proximidade e isso faz com que tenham de fazer várias atividades para cativar os jovens, que podem ser tanto atividades de lazer como conferências. Entristece-nos que as pessoas, não conhecendo a realidade local das concelhias, tenham caído na tentação do escárnio e maldizer destas iniciativas, que servem para chamar mais jovens que, depois, acabam por ficar curiosos com outros temas”, afirma Vera Duarte ao i, lamentando que estas ações tenham tido mais visibilidade do que, por exemplo, a carta enviada pela JSD- -Madeira ao secretário de Estado da Economia sobre o subsídio de mobilidade para os estudantes, a propósito das novas tarifas da TAP.

O secretário-geral da Juventude Socialista (JS) acha este tipo de iniciativas mais preocupantes do que a participação de um jovem da JSD na “Casa dos Segredos”. João Torres considera a participação num reality show uma decisão pessoal e que seria “muito injusto” que a imagem da juventude partidária saísse prejudicada, mas olha para os concursos e para os workshops como “uma decisão deliberada”. “Não são iniciativas que dignifiquem a atividade política. Tenho esperança que as estruturas que desenvolveram essas iniciativas promovam boas atividades políticas nos restantes dias do ano. Se assim for, não me parece tão grave.”

O líder da Juventude Popular também não se revê neste tipo de iniciativas. “Eu não vejo a JP a tomar a dianteira na promoção de eventos deste cariz, mas não critico quem o faça. Cabe a cada instituição definir as suas prioridades e, se a JSD considera que são temas relevantes a abordar, estão na sua esfera de liberdade para levar a cabo estas iniciativas”, diz Francisco Rodrigues dos Santos, que não quis comentar o caso do jovem na “Casa dos Segredos” por se tratar de um assunto do “foro interno” da estrutura e da esfera pessoal de cada um.

Estigma com juventudes “Acredito que as imagens que vão sendo passadas, como está a acontecer com este rapaz que entrou na ‘Casa dos Segredos’, podem não ser as melhores. Mas acho que o erro é generalizar, isto é, com um ou outro exemplo, acharem que nós estamos sempre a fazer atividades ligadas ao ócio e ao lazer, e não a tomar decisões de caráter executivo e muito mais necessárias para a nossa juventude”, explica a vice--presidente da JSD-Madeira, que fala ainda de um “estigma” que existe relativamente às juventudes partidárias.

Um dos membros da comissão política da JSD de Marco de Canaveses também realça o “preconceito” em torno da JSD em particular. “Costumamos dizer que, se alguém que tivesse ganho um prémio de empreendedorismo e se a notícia fosse ‘presidente da JSD ganha prémio’, era uma coisa criticada”, exemplifica.

A concelhia está agora nas mãos do vice-presidente e amigo pessoal de Paulo Ricardo, Américo Moreira. “Foi uma decisão tomada em conjunto com outras pessoas da estrutura”, diz o vice-presidente ao i.

Ainda assim, o membro da comissão política refere que tem recebido várias mensagens de apoio vindas tanto de dentro como de fora do partido – “já me chegou aos ouvidos que o PSD não olha para isto com maus olhos” – e que aqueles que criticam têm como objetivo tornar o presidente da JSD de Marco de Canaveses no “bode expiatório de toda a crítica que é feita à Juventude Social Democrata e ao partido”.

O jovem reconhece ao i o risco associado à ida do seu presidente para um reality show, mas explica que a JSD de Marco é conhecida por “querer quebrar paradigmas” e valoriza este tipo de iniciativas, tal como o workshop e os concursos vindos da Madeira. “O Paulo, quando voltar, vai ter o lugar dele à espera e vamos continuar a trabalhar como sempre temos feito. Se for com resultados negativos, temos tempo de os recuperar; se forem positivos, vamos potenciá-los.”

Políticos e Casa dos Segredos Teresa Guilherme considera que o facto de exercer um cargo político pouco pesou na seleção do jovem de Marco de Canaveses. “Tinha um segredo giro, mas não foi isso que o fez entrar. Provavelmente entraria com outro segredo qualquer porque ele é bom concorrente.”

A apresentadora do programa realça ainda que Paulo Ricardo não é, no entanto, a primeira pessoa com background político a candidatar-se à “Casa dos Segredos”. Teresa Guilherme confessa ao i que já receberam várias candidaturas de pessoas – principalmente de homens – ligados não só a juventudes partidárias como aos próprios partidos, mas que acabaram por não ser selecionadas porque não tinham o perfil indicado para o programa.