Politica

A queda de Guterres para evitar o «pântano»

Faz quinze anos que o ex-líder socialista deixou a política nacional. A história de uma demissão que colou Guterres ao «pântano político».


Por estranho que pareça, o homem que hoje une todo país e estás prestes a chegar ao topo da ONU é o mesmo que há 15 anos abandonou sem glória a política nacional. «Com inteira lucidez devo reconhecer que se nada fizesse (...) o país cairia inevitavelmente num pântano político».

A frase ficou colada a António Guterres e é a melhor imagem do fim do guterrismo. Na noite de 16 de dezembro de 2001, após um resultado catastrófico nas eleições autárquicas, o então primeiro-ministro ignorou todos os apelos dos socialistas para não se demitir e bateu com a porta. «Nessa noite ele foi inflexível», conta um socialista.

A decisão já estava tomada. Quando entrou na sede nacional do PS, às 18 horas, Guterres já tinha planeado apresentar a demissão se perdesse as autárquicas. O resultado foi pior do que todas as previsões. O PS perdeu as câmaras de Lisboa e do Porto, mas também autarquias com peso como Sintra, Setúbal, Coimbra ou Faro.

À medida que se foi conhecendo a dimensão da desgraça, Guterres foi chamando ao seu gabinete, uma a uma, as principais figuras do PS. Com outros fala pelo telefone. Jorge Coelho terá sido dos primeiros a ouvir da boca do líder do PS que não dava para continuar. «Ficaríamos demasiado fragilizados para implementar o nosso programa». Almeida Santos, Pina Moura, António Vitorino ou António Costa ouviram os mesmos argumentos.

Guterres estava cansado das intrigas no governo e no PS, da falta de condições para governar e tinha consciência que era impraticável enfrentar a crise económica sem maioria absoluta. José Junqueiro, que pertencia à Comissão Permanente do PS e era Secretário de Estado da Administração Marítima e Portuária, garante que ficou «surpreendido» com a decisão de Guterres, mas percebeu «mais à frente que o que ele fez foi de uma enorme inteligência política porque o país teve a clarificação de que precisava e o PS voltou ao poder três anos depois com maioria absoluta». A maioria absoluta que faltou a Guterres quando se candidatou a um segundo mandato, em 1999. Vítor Ramalho, que integrava o governo, admite que o «ânimo» dos socialistas foi afetado. «Foi uma situação que não era esperada». A vitória teve um sabor a derrota, apesar de os socialistas terem conseguido eleger 115 deputados. Um empate técnico que deixava o PS dependente da oposição e que abriu a porta a outra originalidade: os orçamentos limiano.

O queijo que ‘caiu do céu’ e causou mal-estar no governo

António Guterres aprovou o primeiro orçamento com apoio do CDS em troca do aumento das pensões rurais, mas no seguinte não havia nenhum partido disposto a dar a mão ao governo. A solução «caiu do céu» – expressão utilizada por António Guterres – quando Daniel Campelo, presidente da câmara de Ponte de Lima e deputado do CDS, abriu a porta a viabilizar o orçamento em troca de um conjunto de benefícios para a região como a construção e recuperação de estradas. O negócio fez-se, mas «foi um erro grave» e «a partir daí passou a existir algum mal-estar no governo», conta o socialista Vítor Ramalho, ex-secretário de Estado Adjunto do ministro da Economia. «Era um acordo um pouco espúrio, para não dizer completamente espúrio. Por mais voltas que se deem isto é um enquistamento aos princípios que devem salvaguardar as relações do Estado e do Governo», acrescenta. Mas no Governo também não faltava quem apoiasse a forma pouco ortodoxa de aprovar orçamentos. «Eu achei bem. Não havia alternativa e ele fez todos os possíveis...», diz José Junqueiro. O Governo dividia-se com alguns ministros a defenderem a apresentação de uma moção de confiança, mas Guterres nunca foi por aí.

O debate do orçamento acabou por ser dominado pelo «queijo limiano». Pires de Lima, deputado do CDS, chamou-lhe «uma fraude política» e garantia que Guterres seria «lembrado, por muitos e bons anos, pelo péssimo serviço que prestou à democracia portuguesa». À esquerda, Luís Fazenda não era brando na crítica «a um certo e obscuro queijo. O que pode a discussão da fiscalidade ou da justiça social contra um queijo?».

O próprio António Guterres assumiu, uns anos depois, numa entrevista para o livro Os Segredos do Poder do jornalista Adelino Cunha, que cometeu «um erro político ao permitir a aprovação dos orçamentos limianos». «Deveria ter dito que um chumbo levaria à minha demissão. Se isso acontecesse candidatava-me novamente a primeiro-ministro».

«O país começou a cansar-se de si»

O segundo Governo de Guterres foi alvo de três moções de censura. O CDS foi o primeiro partido a censurar António Guterres. Paulo Portas decretou, menos de um ano depois de o PS quase conquistar a maioria absoluta, que «o país perdeu a confiança» no Governo. «Não sei se o senhor se cansou do país, mas vejo é que o país se começou a cansar de si». Três meses depois foi a vez de Durão Barroso anunciar, num comício na Nazaré, a apresentação de uma moção de censura, porque «o Governo não tem condições para continuar».

A esquerda também caiu em cima do governo socialista. O Bloco, uns meses antes de Guterres bater com a porta, censurou-o por causa de «uma política económica imprevidente, errada, sem orientação e que conduz à crise». Luís Fazenda citou, no debate parlamentar, as palavras de Vasco Vieira de Almeida. «Tenho a certeza de que se não agirmos neste momento ficaremos como aquele Presidente do Brasil que um disse: quando tomei posse o país estava à beira do abismo, seis anos depois deu um grande passo em frente». Seis anos depois de chegar ao poder, Guterres demitiu-se para evitar um «pântano de natureza política».