Sociedade

Sociedade. Acontecimento do ano: mortes nos Comandos

Foi uma das notícias que marcou o ano: dois jovens instruendos do curso de Comandos morreram durante um treino, em setembro. O caso está a ser investigado pelo Ministério Público, que já constitui nove arguidos.  


O curso 127 dos Comandos começou oficialmente a um sábado (3 de setembro) com 67 militares a sujeitarem-se ao treino mais intenso - física e psicologicamente - das Forças Armadas Portuguesas. No dia seguinte, o furriel Hugo Abreu, um dos instruendos, morreu após horas de treino no campo de tiro de Alcochete. Nesse dia, vários militares do mesmo curso foram internados.

 Entre eles estava o soldado Dylan Araújo da Silva, também de 20 anos, que após uma semana internado nos cuidados intensivos do Hospital Curry Cabral, acabou por morrer.

O resultado da autópsia aos dois aspirantes a Comandos, conhecido no final de outubro, confirmou que a morte de ambos se deveu a um golpe de calor. Na imprensa surgiram várias versões sobre o sucedido: umas informações davam conta de que teria sido negada água aos alunos, outras referiam que mesmo após vários militares terem desfalecido foram obrigados a continuar o treino, e ainda existiram relatos de que houve espancamentos e até que os instruendos mortos foram obrigados a comer terra e a rastejar até à ambulância.

Apesar da polémica, o curso 127 prosseguiu a formação, que terminou a 25 de novembro: dos 67 instruendos iniciais, apenas 23 completaram o curso.

Militares constituídos arguidos 

O caso está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa que, dada a matéria em questão, é coadjuvado pela Polícia Judiciária Militar. Até à data, foram constituídos nove arguidos. 

Os primeiros arguidos do caso foram dois enfermeiros militares, ouvidos pelo juiz de instrução ainda em outubro. Estão indiciados pelo crime de omissão de auxílio. Já em novembro, o diretor da prova, o médico e cinco instrutores foram detidos. 

Relativamente a estes últimos, a procurada do DIAP de Lisboa que conduziu a investigação, Cândida Vilar, usou palavras duras considerando que «agiram movidos por ódio patológico, irracional contra os instruendos, que consideram inferiores por ainda não fazerem parte do Grupo de Comandos». Para o MP, estes militares trataram «os instruendos como pessoas descartáveis».  

Teoria com a qual a juíza de instrução criminal (JIC) Cláudia Pina, que ouviu os detidos no primeiro interrogatório, não concordou. «Os crimes foram praticados, na perspetiva do MP, por raiva e ódio irracional: motivações que são claramente subjetivas e não resultam da prova produzida até à data no inquérito». Cláudia Pina considerou ainda que os argumentos usados pelo MP eram «rebuscados», embora tenha tecido duras críticas ao médico de serviço, que, nas palavras da juíza, «não prestou atenção ao agravamento» do estado de saúde de Hugo Abreu e Dylan Araújo da Silva e «desinteressou-se» pelo destino dos dois instruendos. 

O médico está indiciado por dois crimes de homicídio por negligência. Os restantes vão responder pelo crime de ofensa à integridade física grave por negligência e aguardam julgamento em liberdade, já que foi lhes aplicada a medida de coação de termo de identidade e residência.

Na semana passada, foram conhecidos os primeiros resultados da inspeção técnica extraordinária ao curso de Comandos pedida pelo ministro da Defesa, Azeredo Lopes, e pelo chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte. Segundo o relatório, é necessário rever e adaptar o curso, desde a forma como é dirigido pelos formadores até aos próprios programas. Só em janeiro será determinado se o curso de Comandos continuará a existir.

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