Sociedade

Livro de Valter Hugo Mãe deixa de ser para alunos do 3.º ciclo devido a conteúdo sexual

Peritos da comissão que seleciona os livros do Plano Nacional de Leitura reúnem-se hoje para discutir o que fazer com “O Nosso Reino”, obra com passagens sexualmente explícitas que não agradaram aos pais

O livro “O Nosso Reino”, de Valter Hugo Mãe, vai ser retirado da lista de leituras recomendadas a alunos do 3.º ciclo pelo Plano Nacional de Leitura. Segundo o i apurou junto de fonte do programa do Ministério da Educação, o protesto dos pais por causa de passagens com conteúdo sexual e violento gerou incómodo entre o painel de onze especialistas que anualmente propõem as obras.

Agora que todos conhecem os excertos em causa, que tinham sido avaliados apenas por um dos membros, a equipa reúne-se hoje. Fonte interna revelou ao i que está decidido que o livro sairá das recomendações aos alunos do 7.º, 8.º e 9.º. Vai manter-se no Plano Nacional de Leitura, por ser considerada uma obra de qualidade, mas o painel decidirá se é adequado para ser lido por alunos do secundário ou se deve passar a constar apenas das sugestões de leitura para a formação de adultos, outra das vertentes do programa.

O “Expresso” avançou que pais de alunos do 8.º do liceu Pedro Nunes protestaram junto da escola depois de os professores terem indicado a leitura da obra de Valter Hugo Mãe nas férias do primeiro período. Em causa estavam passagens como “e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu” ou “fazem amor pelo cu porque não têm racha, enfiam coisas no cu percebes... maricas é meter coisas no cu... nem querem saber de terem uma pila.”

De acordo com a sinopse do livro, “O Nosso Reino” retrata a “delicadíssima história de uma criança em torno da ansiedade por uma resposta de Deus”, sendo um “retrato de um Portugal recôndito ao tempo da Revolução dos Cravos que nos conta como em lugares pequenos as ideias maiores são relativamente intemporais e o que acontece ignora largamente o tempo exato do mundo.”

Foi o primeiro romance publicado por Valter Hugo Mãe em 2004. Numa reação ao “Expresso”, o autor disse não se recordar de o conteúdo ser “assim tão escabroso e tão explícito”, remetendo para os professores e pais o papel de decidirem o que é ou não adequado aos adolescentes. “Não sei se a leitura deste livro lhes revela um novo mundo. Não me ocorre ter usado uma perversão tão grande que represente a morte do Pai Natal”.

Não é adequado

Questionado pelo i, o Ministério da Educação não se pronunciou até ao fecho desta edição. Já fonte do Plano Nacional de Leitura admite que os especialistas, confrontados com a denúncia pública, entenderam que a leitura não é de facto adequada. “O Nosso Reino” estava inscrito nas listas de obras para “leitura autónoma” para alunos no 3º ciclo, pelo que poderia até ser dado pelos professores a estudantes do 7º ano (13 anos). As listas de livros do PNL dividem-se entre títulos para leitura orientada na aula e outros que os alunos podem ler sem acompanhamento, o que era o caso deste.

Em 2016, o governo determinou a extensão do Plano Nacional de Leitura, criado em 2016, por mais dez anos. O programa entrará agora numa fase de reconfiguração, em que esta polémica poderá pesar na definição de novos critérios, ainda que fonte interna admita que a seleção de livros tem sempre um caráter “subjetivo”. Nas listas em vigor, há outros livros com teor erótico, ainda que não sexualmente explícito ou violento. É o caso de “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, recomendado igualmente para leitura autónoma no 3.º ciclo. Ou “Gabriela Cravo e Canela”, também de Jorge Amado, “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert ou ainda “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena, todos sugestões de leitura para o ensino secundário. A lista de livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura para jovens e adultos tem 846 páginas, um sem fim de títulos que a comissão tenciona também alterar. Ao longo de dez anos, foram sendo introduzidas novas obras, mas nunca houve a rotina de eliminar títulos.