Politica

Parlamento a ferro e fogo: descrispação não chegou à assembleia

Há cada vez mais tensão entre a direita e a esquerda. Ferro Rodrigues foi apanhado na guerra. Marcelo quis pôr água na fervura, mas o clima ainda não acalmou. CDS e PSD esperam para ver.

Se pelas ruas Marcelo espalha descrispação, nos corredores do Parlamento vivem-se dias tensos. Nas bancadas do plenário há gritos, bate-se com os pés e as mãos, os discursos inflamam-se e nas comissões já não é estranho ver o presidente a ameaçar interromper os trabalhos enquanto os deputados não se acalmarem. O país político é um planeta muito mais crispado do que aquele onde vivem os portugueses. E a luta entre a a direita e Eduardo Ferro Rodrigues é só mais um exemplo disso.

Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente que quer «cicatrizar feridas», tentou esta semana pôr água na fervura da luta partidária que pela primeira vez arrastou para a disputa um cargo que costuma estar acima desses atritos, o de presidente da Assembleia da República.

O gesto simbólico do PR

No gabinete de Ferro valorizou-se o gesto simbólico do Presidente da República que foi ontem à sala das Bicas, na entrada do Palácio de Belém, despedir-se do presidente da Assembleia, depois de o ter ido buscar ao carro à chegada para o almoço que acabou minutos antes de Assunção Cristas chegar para denunciar os «bloqueios» ao funcionamento do Parlamento. 

O sinal foi lido como sendo de apoio e cá fora, aos jornalistas, Ferro Rodrigues dava nota de um «almoço entre duas pessoas que se respeitam, entre duas pessoas que se estimam».

Agora, no gabinete de Ferro Rodrigues desvaloriza-se a tensão gerada com PSD e CDS e espera-se por um regresso à normalidade. «Há uma comissão de inquérito que está a funcionar, outra que vai começar a funcionar. A luta política é o que é», comenta uma fonte próxima de Ferro.

A ideia de Marcelo terá sido, aliás, a de dar um tom de normalidade ao que parecia esta semana ser uma escalada sem fim à vista. Depois do almoço entre Ferro e Marcelo e da audiência de Cristas com o Presidente, o espírito agora é de «esperar para ver». Não há anúncio de tréguas, mas acalmaram as declarações de guerra.

A luta política dentro do Parlamento está demasiado acesa para que PSD e CDS possam já enterrar o machado de guerra. A direita espera para ver como corre a nova comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos.

Almoço para amenizar

O Expresso noticiou na quarta-feira que tinha partido de Rebelo de Sousa o convite a Ferro Rodrigues, depois de saber da troca de galhardetes que gerou o anúncio feito por Assunção Cristas em pleno debate quinzenal de que iria ser recebida na sexta-feira pelo Presidente para «denunciar o que se anda a passar no Parlamento».

Ferro não gostou de uma atitude que considerou poder pôr em causa o princípio da separação de poderes entre Assembleia e Presidência e acusou o toque. «Não sei que denúncias vai fazer ao senhor Presidente da República, mas sabe que a porta do meu gabinete está sempre aberta para todos os deputados», disse Ferro, gerando uma reação indignada do líder parlamentar centrista, Nuno Magalhães, que pediu a palavra para o acusar de «fechar a porta na cara» a PSD e CDS com a forma como se tem comportado no caso da comissão de inquérito à CGD.

Depois disso, o tom foi sempre a subir. Luís Marques Guedes fez esta quinta-feira no plenário um discurso particularmente inflamado contra Ferro Rodrigues, que nesse momento se encontrava no Porto. O deputado do PSD disse que há «conivência ativa do presidente da Assembleia da República» com os «episódios de baixa política, tiques de autoritarismo e totalitarismo» que a maioria de esquerda protagonizou na comissão de inquérito à CGD.

Luís Montenegro pôs mesmo em causa a «imparcialidade» do presidente da Assembleia da República, que acusou de não ser ser «capaz de despir a camisola do PS». «A única camisola que não dispo é a da Constituição da República», reagiu Ferro Rodrigues, num bate-boca nada usual entre um líder de uma bancada parlamentar e o presidente da Assembleia.

A relação que nasceu torta

Mas a relação das bancadas da direita com Ferro Rodrigues começou torta à partida. PSD e CDS não gostaram de ver a esquerda quebrar a tradição que a presidência do Parlamento fosse ocupada por um elemento da bancada do partido mais votado. 

O discurso de tomada de posse não ajudou. «Assim como não há deputados de primeira e de segunda, também não há grupos parlamentares de primeira e de segunda, ou coligações aceitáveis e outras banidas», avisou Ferro Rodrigues, num tom que deixou a direita desconfortável e gerou um clima que nunca mais foi ultrapassado.

Enquanto pelo país as conversas de café em torno da ‘geringonça’ se iam tornando mais pacíficas, no Parlamento o chumbo da TSU com o PSD a aliar-se à esquerda para travar uma medida do Governo fez extremar ainda mais as posições. 

PS, BE, PCP e PEV preocuparam-se em mostrar-se ainda mais unidos e nas bancadas da direita as expressões de desagrado traduzidas em apartes e pateadas têm tornado cada vez mais recorrentes as admoestações de quem está a presidir aos trabalhos.

‘Não partam a mobília’

«Não partam a mobília», tem pedido várias vezes Ferro Rodrigues quando à direita os ânimos se exaltam e os deputados usam mesas e cadeiras para fazer barulho e expressar indignação.

Por muito que Marcelo se esforce para que as relações entre as instituições não saiam beliscadas, PSD e CDS vão andar particularmente atentos à atuação de Ferro. E não passará em branco qualquer cobertura à tentativa de travar diligências à nova comissão de inquérito.

Do lado de Ferro, acredita-se que isso não acontecerá. Os requerimentos para pedir audições ou documentos são competências da própria comissão e Ferro já deixou claro que é «prestar um mau serviço à democracia» tentar tratá-los na conferência de líderes ou na presidência da Assembleia como queriam PSD e CDS com a anterior comissão de inquérito.

Mas sociais-democratas e centristas não veem as coisas da mesma maneira. Para Assunção Cristas, está em causa «o funcionamento do Parlamento, pelas restrições inadmissíveis dos direitos da oposição e pela opressão da maioria das esquerdas unidas». Foi isso que foi ontem foi dizer a Marcelo durante uma audição que durou cerca de uma hora.

Fonte do CDS disse ao SOL que «o Presidente tomou boa nota do que ouviu e reagirá como entender». Mas os centristas não baixarão a vigilância. «O futuro dirá que consequências haverá desta audiência», limita-se a comentar a mesma fonte.