Cultura

Wolverine como nós

Logan, de James Mangold, é o derradeiro filme sobre a personagem da Marvel. Com Hugh Jackman, numa história de sacríficio e redenção 

Para o último Wolverine teria que ser assim. Disse o próprio Hugh Jackman que, por 17 anos, interpretou a personagem de X-Men que nunca poderia ter sido assim se não soubesse que era o último. E foi pelo mesmo James Mangold que ainda há quatro anos nos dava Wolverine: Imortal que nos chegou este Logan sem X-Men à mistura. Logan em 2029 a perder poderes a tentar salvar um debilitado Professor X (Patrick Stewart) e uma nova geração de mutantes que aparece vinda de uma clínica do México.

É pois junto à fronteira com o México que vamos encontrá-los, fronteira em que vemos o muro de que se fala mas que já existe, neste filme de super-heróis só para adultos. A jornada de um Logan que já não é o do passado, Wolverine quase humano e com o corpo a falhar como falham os que não são super-heróis na tentativa de salvar um nonagenário Professor X, para aparecer Laura à cabeça de um novo grupo de crianças-mutantes. Futuro para este fim de um X-Men contado à parte, Logan é o título do filme com que James Mangold fechou a competição oficial da Berlinale num também fim de história para Wolverine. Filme definitivo sobre a personagem que Jackman tem dito que nunca poderá esquecer. «O que o define e que faz com que as pessoas gostem dele é na verdade a sua humanidade, mais do que as suas habilidades de super-herói».

Termina tudo em dor, perda e destruição

E é ver Hugh Jackman arrancar para sempre as garras dos últimos 17 anos numa despedida que dificilmente poderia ser melhor. Venha então a maravilhosa Dafne Keen que agora é Laura para o futuro destes novos mutantes, numa espécie de jornada familiar para a qual Logan parte desligado, sem querer partir. «Ele não quer ajudar, de todo», diz o ator que interpreta Wolverine neste capítulo final da história de uma das mais icónicas personagens criadas pela Marvel. «Não quer ter nada a ver com isso. Há muito que passou a fase da sua vida em que reagia aos pedidos de ajuda e gritos de socorro das pessoas. Basicamente, chegou à conclusão de que geralmente quando ajuda as coisas só pioram. Que as pessoas que ama acabam magoadas, que se se aproxima demasiado ou quanto mais se esforça, termina tudo em dor e em perda e em destruição».

Fechar de um ciclo

E sobram apenas Professor X e Caliban a este Logan desiludido e cínico que encontramos em 2029 a trabalhar como motorista e envelhecido junto à fronteira com o México. Era pós-mutantes que talvez não seja assim tanto afinal. Wolverine a tentar desaparecer para uma vida normal, mais humano do que nunca num filme que chega 17 anos e 10 filmes depois do primeiro em que Jackman lhe deu corpo para ser o derradeiro – com os rumores ainda por confirmar de que Mangold poderá estar a planear lançar uma outra versão deste capítulo final a preto-e-branco. História de sacrifício e redenção que assenta bem naquilo que o ator australiano queria que fosse esta sua última vez como Wolverine: inesquecível. «Queríamos algo que fosse mesmo diferente, que fosse fresco mas em última análise muito humano», explica. «Porque parece-me que a força do X-Men e do Wolverine reside mais na sua humanidade do que nos seus superpoderes. Ao explorar esta personagem pela última vez, queria chegar ao coração de que humano é este, mais do que àquilo de que as suas garras são capazes de fazer». Até porque já não são capazes de tudo. Ninguém é imortal, vem dizer-nos Mangold com este extraordinário Logan, o filme perfeito para o fechar de um ciclo.