Economia

Paulo Núncio, o estóico fiscalista

Quando estava no governo, não atendia o telefone a assuntos fora das Finanças. Não queria descer o IVA, contra Portas e Pires de Lima. Quem é Paulo Núncio? Esta pergunta terá assolado o espírito até dos mais desatentos nas últimas semanas.

O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais assumiu a «responsabilidade política» de não publicar as estatísticas referentes às transferências de capital de Portugal para paraísos fiscais. Demitiu-se também dos órgãos nacionais do seu partido, o CDS-PP, apesar de Assunção Cristas, a líder centrista, ter afirmado que o país «lhe deve muito».

Núncio serviu o ministério das Finanças durante todo o executivo de Pedro Passos Coelho, durante os consulados de Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque. Integrou o grupo do CDS que negociou o memorando de entendimento português com a troika.

A carreira política, após a investigação do caso das offshores, parece suspender a sua vida política. Mas novamente: quem é Paulo Núncio?

«É conservador» e «muito católico» são as duas descrições mais proferidas pelos antigos colegas e conhecidos. «Reservado» e «focadíssimo» encerram o pódio dos adjetivos escutados pelo SOL.

Não há ninguém com más recordações de Paulo Núncio. Os elogios, todavia, são constatados mais em tom factual do que com um sorriso do outro lado do telefone.

Nasceu em Lisboa, em 1968, mas a família é de Alcácer do Sal. As raízes são, portanto, alentejanas e com ligações à tauromaquia. Enquanto jovem, jogou râguebi.

Formou-se em Direito na Universidade Católica Portuguesa e, ao que o SOL apurou, esteve e está ligado aos setores mais conservadores da Igreja, tendo também excelentes relações com aquele que é o presidente do CDS mais conotado com o conservadorismo; Manuel Monteiro. Núncio é casado e pai de família.

A carreira na advocacia é feita com especialização no Direito fiscal, desde 1994. Ganha destaque na MLGTS (Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados) e em 2007 vai para a Garrigues – outro escritório de advogados – para ser sócio e abrir o departamento fiscal da empresa.

No CDS, foi membro da JC (hoje Juventude Popular) e porta-voz pertencente à direção – igualmente conservadora – de José Ribeiro e Castro, que intercalou as lideranças de Paulo Portas ao leme dos democratas-cristãos.

Com o fim do governo de Passos Coelho, Núncio regressa ao mundo da advocacia e à Morais Leitão, que já conhecia bem, como consultor da equipa de direito – naturalmente, o fiscal.

António Lobo Xavier, senador dos partido centrista, coordenada a MLGTS no escritório da firma no Porto.

Enquanto governante, não atendia telefonemas sobre assuntos que não estivessem diretamente relacionados com o fisco.

«É de uma concentração espartana», revela um antigo colaborador, que se reservou ao anonimato. «Mentalizou-se que só o aperfeiçoamento da máquina fiscal poderia evitar mais aumentos de impostos e dedicou-se totalmente a consegui-lo», adianta ainda a mesma fonte.

Todavia, o SOL sabe que o na altura secretário de Estado dos Assuntos Fiscais era assumidamente contra a redução do IVA da restauração, mesmo contra a preferência de António Pires de Lima (à data ministro da Economia) ou de Paulo Portas (à data vice-primeiro-ministro e líder de partido). «A máquina fiscal era o castelo dele. Geria-o com uma resistência e um pragmatismo notáveis», conclui o referido colaborador.

Das hostes centristas a impressão é semelhante. «É um tipo sério, só fala quando tem que falar», descreve um companheiro da ‘jota’. «Nunca vi o Paulo com um copo a mais», continua.

Do CDS-PP de hoje a caracterização de seriedade é continuada: «Não gosta de ações de campanha. Sorri pouco», diz uma dirigente nacional. «É distante da estrutura apesar de ser militante desde os tempos da Juventude Centrista».

«Teve um destino ingrato», aponta um membro seu contemporâneo do governo Passos/Portas. «O tipo que mais fez para combater a evasão fiscal será lembrado como a cara de notícias sobre dinheiro para offshores que passou ao lado».

Será?