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Um alívio nada confortável

Conhecidos os resultados das eleições legislativas nos Países Baixos, e afastada uma vitória eleitoral da extrema-direita de Geert Wilders, muitos europeus respiram de alívio. No entanto, é difícil acompanhar o desfecho com muito entusiasmo, ficando um sentimento similar ao que sobrou do (bem mais dramático) resultado austríaco nas últimas eleições presidenciais. 


Por muito que se saúde com satisfação a vitória de um candidato pró-europeu e sem máculas de extrema-direita, o confronto com os 46% do candidato Norbert Hofer na Áustria, as sucessivas sondagens que colocam Le Pen a liderar na primeira volta das presidenciais francesas, o peso da Aurora Dourada na Grécia, o crescimento da Alternativa pela Alemanha em sucessivas eleições estaduais e a manutenção do PVV de Wilders como segundo partido holandês, são factos mais do que suficientes para não baixar as guardas perante o populismo de extrema-direita xenófoba, em disseminação pela Europa.

É verdade que, procurando olhar com otimismo para o resultado, são vários os fatores objetivamente positivos nos Países Baixos: a maior participação eleitoral em 30 anos, na casa dos 80%; um resultado de Wilders que, apesar de superior a 2012, se cifra abaixo do seu máximo histórico de 2010; e uma baixíssima presença de votos na extrema-direita entre os jovens até 24 anos, onde não chegou aos 3%, e que confluíram intensamente para a Esquerda Verde (24%) e para os sociais-liberais do D66 (23%), partidos pró-europeus e abertos ao exterior. 

Evitou-se o pior. É, no entanto – e até uma análise mais fina dos resultados e das motivações dos eleitores – cedo para tomar os dados como necessariamente positivos. Terá pesado mais o efeito mobilizador do eleitorado moderado provocado por reação aos choques causados pelo Brexit e pela vitória de Trump – ou terá sido mais decisivo o impacto do diferendo diplomático de última hora com a Turquia, numa escalada perigosa e alimentadora de muitos dos receios que a extrema-direita tenta cavalgar e a que o primeiro-ministro Rutte não fugiu?

Neste contexto, especial atenção deve merecer também a implosão da social-democracia tradicional, representada pelo partido trabalhista (PvDA), e que evidenciou uma erosão eleitoral só comparável ao que aconteceu ao PASOK nos últimos anos, sem que o contexto económico e social se aproxime do quadro dramático que se viveu na Grécia. 

A adesão praticamente integral à agenda do seu parceiro de coligação liberal-conservador, estranha aos seus programas e contrária aos direitos e interesses dos eleitores que se propunha representar, provocou o inevitável desaire eleitoral. A título de exemplo, no círculo eleitoral de Amesterdão, onde os trabalhistas venceram as últimas eleições folgadamente, com cerca de 36% dos votos (mais de 15% de vantagem sobre os liberais-conservadores), a implosão é flagrante, passando ao quarto lugar, com cerca de 8%, perdendo em grande escala para os Verdes e liberais-sociais do D66. 

Estes resultados realçam, também, que muita da incapacidade em lidar com os novos desafios que o cerco extremista coloca ao projeto europeu resulta, precisamente, da descaracterização programática e ideológica dos partidos fundadores do modelo social europeu e da desatenção aos efeitos devastadores e deslegitimadores da confiança dos cidadãos nas instituições que as opções políticas assentes na austeridade e desestruturação dos serviços públicos essenciais acarretam. 

* Vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS