Opiniao

Sensações e não irritações

Aprendi desde a infância que «no mesmo berço se nasce e se morre». Como aprendi que, nestes dias, vivemos a grande caminhada que nos leva da Cruz à Ressurreição.

E aprendi sabendo que nasci há sessenta e um anos precisamente no Domingo de Páscoa. E sabendo que nunca mais o dia do meu aniversário calhou nesta singular festa e data católica. 

Cresci na casa onde dizem que nasceu o Rei D. Duarte, o ‘Eloquente’. Que escreveu livros que, mesmo irritando alguns comentadores contemporâneos, merecem ser conhecidos e lidos, como o Leal Conselheiro e o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela. 

Cresci, amado e mimado, a contemplar as torres da Sé Catedral de Viseu e a ter orgulho em que a saudosa Senhora Minha Mãe integrasse a Liga dos Amigos do Museu Grão Vasco, que acolhe quadros fantásticos de Vasco Fernandes, um conhecido vulto na pintura quinhentista portuguesa e europeia. Cresci a percorrer a Catedral e a olhar, com orgulho e fé, para o políptico do altar-mor da nossa Sé. Cresci ainda a percorrer e a visitar, tantas e tantas vezes, a Feira Franca de São Mateus e a sentir que, ano após ano, estavam (e ainda estão) ali as raízes da minha Beira Alta natal. 

Tenho orgulho em ser de Viseu. Muito orgulho. Cada vez que me aproximo de lá é uma sensação de regresso à infância e à lareira. Como tenho orgulho em que, por vezes, o meu neto do meio se exprima à ‘Biseu’… sem viver em Viseu! 
Neste nosso caótico mundo em que muito se uniformiza – mesmo em comentários que, por vezes, irritam! –, é saudável que se mantenham memórias e tradições, expressões e sotaques, sentimentos de pertença e afetos profundos. 

Mas também sei que onde há irritações há sensações. Como a boa sensação que resulta da leitura, que vivamente aconselho, da Chronica d’ El-Rei D. Duarte, de Ruy de Pina, numa edição da Biblioteca Lusitana de 1914! Em Viseu há livros que se guardam e se herdam! 

Sei que vivemos um tempo em que ‘dizer mal’ dá prazer. A alguns. A mim – e em relação à minha cidade natal – provoca alguma dor. Sempre com a plena consciência de que Viseu continuará a ser o meu porto de abrigo. Uma das minhas âncoras existenciais. A cidade onde cresci e brinquei. A cidade e o distrito que representei e que se expressa com um sotaque que nos identifica. Com gosto por ser singular. 

E àqueles que, mesmo numa análise radical, a tentam desprezar, deixo a sugestão de se deliciarem com um Dão. Que néctar! E não se vão perder, decerto, em nenhuma rotunda de Viseu! Vão encontrar uma cidade que se honra do seu passado e olha o presente, mesmo com um marketing sugestivo, por agressivo, como uma ponte para o futuro. 

Mas uma cidade que terá sempre homens e mulheres que a defenderão de ataques e esquecimentos, quaisquer que eles sejam. Perante a crítica, legítima, a defesa, sempre necessária. Perante o ataque, possível, o contra ataque, evidente. Perante o uso da palavra, que se entende, o reconhecimento do sotaque, que se enaltece. Perante o desconhecimento difuso, que se tolera, o conhecimento real, que se testemunha. Sabendo com Jonathan Swift que «nada é constante neste mundo a não ser a inconstância»! 

Mas o que fica de tudo, de tudo mesmo, não são as irritações. São, sim, as boas sensações de pertença e de orgulho! E aqui ficam também votos de uma Santa Páscoa!