Sociedade

Barbearias. “Para se ser barbeiro tem de se ter amor à arte”

Para os especialistas, a barba é mais do que uma tendência. Quem dá vida às barbearias portuguesas, recusa-se a aceitar que a magia da profissão é fruto da moda. Segundo eles, a paixão pela arte da barba é quem dita as regras

Da barba rija ao bigode, da pera às moscas ou às suíças, no mundo do pelo facial há toda uma magia que nem é nova, nem há de acabar. Mesmo que tenha havido uma explosão de coragem em deixar crescer diferentes estilos de barba nos últimos cinco anos, a barba não é novidade, muito menos para o homem português. Se para alguns a ideia de uma navalha é assustadora, então há de ser doloroso imaginar que, como se julga, há cerca de 30 mil anos o ser humano terá descoberto que poderia raspar a barba do rosto através do uso de lascas de pedras afiadas. Hoje em dia tudo é mais fácil, ainda que a arte da barbearia não seja para qualquer um.

Há quem goste de invocar Darwin, que defendia que a barba era um forte indicador de maturidade sexual, outros lembram-se dos filósofos da Grécia antiga que, portadores de grandes barbas, inspiravam ar de intelectualidade. O certo é que muitos são os cuidados que uma barba bem cuidada exige, seja ela original de que cultura for, seja fator de elegância, estilo ou de vigor, quem trabalha com ela sabe bem o que a casa gasta e o i quis saber também.

“Isto não é moda: é Arte”

As ruas estão cheias de luz, tal como Lisboa se dá a conhecer aos que passeiam pela cidade. À janela da Barbearia Campos estão várias turistas a espreitar para dentro da que é uma das mais antigas casas de apreço à arte da barba em Portugal. “É comum as pessoas espreitarem”, diz um funcionário enquanto corta o cabelo a um cliente mais jovem que os restantes. E pelos vistos, mais para os lados do Teatro da Trindade, também. À porta da Barbearia Purista estão duas jovens e um rapaz curiosos com o que se passa lá dentro. Mas não é de estranhar, já que o espaço foge um bocado ao que se espera de uma barbearia. Unique, lisboeta e dono da barbearia, explica que a arte da barbearia tem muito que se lhe diga: “Aperfeiçoou-se a arte da barbearia, melhorou-se o que estava a falar, modernizou-se mas sempre a utilizar o saber antigo, ou seja, o conceito mudou, há personalização do espaço mas a técnica é a mesma, o que faz com que haja uma alteração óbvia no mercado”. Começou a barbear os amigos aos 15 anos mas profissionalizou-se na área apenas há 9 anos: “Existe um charme à volta desta profissão e não é só pela parte monetária ser apelativa.

Os putos antigamente queriam ser dj’s agora querem ser barbeiros”. Unique considera que não se trata de uma simples moda: “Isto não foi um hype, embora tenha parecido, o cuidado com a barba hoje em dia é levado a sério, se fosse um hype eu não estava agora a abrir mais barbearias”. Unique descreve a ida ao barbeiro como se de um ritual se tratasse. “É um tratamento, mas é uma experiência acima de tudo, toda gente gosta dos barbeiros, não conheço um homem que se sinta mal tratado por um barbeiro”, e nota que o mercado mudou porque a arte se modernizou. “Pegou-se no melhor do passado e da tradição e corrigiram as falhas que falhava porque não havia profissionalização, a mão de obra não evoluía e o mercado das barbearias estagnou”. Já os irmãos Oliveira quiseram mudar o estado em que as barbearias antigas se encontravam há seis anos. “Estavam degradadas, abandonadas e não havia nada deste movimento, havia apenas cabeleireiros, não se encontrava onde fazer uma barba bem feita à navalha, por exemplo, e nós quisemos pegar nisso”.

Abriram a primeira barbearia em Alfama, recuperando o espaço, viram aí uma forma de se sentirem realizados ao seguirem a sua paixão. O dono da barbearia em que puseram as mãos à obra, em Alfama, havia falecido e compraram-na ao filho ainda sem fazerem ideia da história que aquelas paredes guardavam: “A barbearia já existia em 1879, temos mesmo um jornal da ‘Voz do Operário’ dessa altura e ele já era distribuído nessa barbearia. Encontrei uma fotografia na Câmara Municipal de Lisboa já de alguns anos mais tarde e o chão até parece que era em terra, ou algo semelhante”.

Como não havia nada do género, o projeto foi um sucesso. Mas os irmãos Oliveira, donos de várias barbearias, são uma dupla especial. “Nós fomos os primeiros a fazer com que se revive-se o conceito de barbearia, ali está história, a nossa barbearia do Rossio já era barbearia em 1930, por exemplo, o chão é feito em calçada portuguesa, há história naquelas paredes e foi isso que quisemos preservar. Isso deu-nos muito sucesso, obviamente, mas hoje já há muita oferta”.

Ativistas pela causa de preservar estes espaços, tiveram de lutar para conseguir manter aberta a barbearia do Rossio: “Vão construir lá um hotel de luxo e aqueles estabelecimentos ali já fecharam todos, para mantermos o nosso foi preciso mexermo-nos muito, fomos à Assembleia Municipal por exemplo. Lisboa está a perder-se para o turismo, tem de haver um equilíbrio”.

Academia de Barbeiros

The Lisbon Method é o nome da academia de barbeiros que nasceu em dezembro na Rua de Campolide. Unique, criador da academia, conta que “cada vez tenho mais putos que querem ser barbeiros mas eu tenho mais alunos velhos do que mais novos, há realmente muita gente a querer aprender, porque um bom barbeiro tem trabalho em qualquer parte do mundo”. Em Portugal esta é a primeira academia especializada só de barbearia. A escola é creditada, o curso dura seis meses e custa 3.450 euros com estágio incluído.