Cultura

Júlia. O desejo é um carrossel onde perdemos a pele

Deixemos o menina de vez. Está na hora de confrontar o clássico de Strindberg com o mundo a que estamos todos a descer, com Júlia e João, a sós, a partir de hoje no São Luiz


O sentido da atracção e a sexualidade, para Strindberg, traçam um paralelo com os gestos de um náufrago, o desespero de um corpo em queda, fazendo de tudo para se agarrar. Da solidão e do vazio nasce esta vertigem que tem, no seu verso, o desejo – impulso que se confunde com a própria sensação da mortalidade. Por isso a paixão nos faz reféns da duração de um delírio – as juras eternas trocadas entre amantes prestes a serem despedaçados.
Há uma marca muito particular de cinismo em “Menina Júlia”, peça em que o amor surge com uma expressão quase trocista no rosto. Nascida da conturbada relação de Strindberg com a sua mulher aristocrata, sendo que a certa altura o autor sueco vivia atormentado por dúvidas quanto à paternidade dos seus filhos. Dolorosamente marcado pela consciência de classe – a mãe fora uma empregada doméstica orgulhosa na sua dedicação –, esta peça foi seminal no trabalho que fez dele um precursor do modernismo no teatro, ao construir uma estrutura de tal modo engatilhada, que o drama assume relevo sem pedir licença às interpretações. Escrita no final do século XIX, contendo as lições do naturalismo e revelando um estranho fascínio pelo hipnotismo, a tensão dramática alimenta-se de aspectos que todos criticamos na sociedade mas contra os quais somos impotentes, quando não somos levados a compactuar com eles.

A propósito do filme “Miss Julie” (2014), realizado por Liv Ullman, o crítico Stephen Holden notou que a cuidadosa deliberação deste texto serve “uma espécie de teste de Rorschach”, em que a audiência tende a ver a realidade e os seus fantasmas capturados segundo a ordem e os elementos que sejam enfatizados a cada nova adaptação.
Aquela que estreia hoje no São Luiz, com encenação de Daniel Gorjão, é em si mesma um teste à feroz dinâmica desses elementos, à capacidade de alguma das suas partes deitar raízes e sugerir o que ficou nas sombras. Com o texto bastante retalhado, com deslocações, com a acção retirada do seu contexto original, empurrada para a contemporaneidade, é curioso notar como tantos ecos perpassam, fazendo, de certo modo, com que “Júlia” funcione simultaneamente como espectáculo autónomo e um comentário sobre a actualidade da peça original.

As marcas epocais foram suprimidas ou diluídas, e o ambiente de histeria já não depende de uma pressão exterior, da perturbação das convenções, mas antes de uma certa agonia existencial. Júlia ainda é a filha do conde e João (João Villas-Boas) o criado do pai, mas, se não cairá bem o andarem enrolados, e se convém acautelar o que os outros dizem, a mancha na reputação, o aqui desespero é o de um tempo em que os papéis sociais são já apenas uma macaqueação de antigos códigos que, se não caíram inteiramente em desuso, estão expostos na sua frivolidade. No original, Júlia experimentava as roupas de uma heroína trágica moderna. Com o pai ausente, um noivado recentemente rompido, numa instabilidade entre os caprichos de uma herdeira com tendência para fazer cenas, Júlia usa a sedução para testar os limites e pisar o vestido do decoro, mas, nas costas da sua leviandade, de toda a afectação, há algo de mais negro, traços que a balançavam entre o sadismo e a vertigem suicida.

Estes aspectos encontram o seu caminho de forma bastante subtil na interpretação de Teresa Tavares, que nos convence que está algures, nestas linhas, a indefinição contemporânea da mulher nas nossas sociedades. O perigo não está do lado de fora da casa, até porque ela e João estão no exterior, expostos. No original, a noite é de celebração, dentro e fora de casa os ânimos descontrolam-se, empurrados pelo álcool, a populaça rodeia a casa e ameaça investir, indignada com a imprudência da “menina” que ao envolver-se com o criado, põe em risco o futuro de ambos. Agora, os outros são apenas o mundo, esse pano de fundo, esse ruído do que se diz e fala, das más línguas, do que serve de tema às redes sociais. Está menos em causa a conformação aos papéis sociais, e mais a impossibilidade de encontrar saída, de o amor já não reservar uma fuga, o início de uma aventura.

Nesta adaptação, os actores servem-se do facto de “Menina Júlia” ser hoje um clássico de algum modo inescapável. Vestem os ecos das personagens já representadas antes até à exaustão, e fazem ressoar dolorosamente aqueles versos entre dois amantes plenamente conscientes de que o que sentem um pelo outro, o que os empurra e abisma, os eleva a temperaturas capazes de fundir dois corpos num, e os esfria ao ponto de se odiarem, não tem nada de novo. O criado que passa por um mero oportunista, que deseja pisar o que sempre olhou de baixo, a “menina” que perde toda a distinção e afinal dá-se menos ao respeito que as de condição inferior. Uma “puta”,  como ele às tantas lhe chama, alguém capaz de ir de um imenso desejo a nada. Ela sente a vontade de descer, chegar ao chão, mas ao tocá-lo, o que quer “mesmo é ficar debaixo do chão”. Há nela a tentação do declínio, e o seu desespero não é apenas a agitação de uma cortina sacudida pelo vento por uma janela ter ficado aberta durante uma tempestade, mas é o pano em que se projecta o conflito entre os seus pais. 

Antes de morrer, a mãe, que não era bem-nascida como o pai, depois de ter crescido “no meio daquelas ideias novas de igualdade, dos direitos das mulheres e de tudo o mais”, tendo jurado que nunca casaria, aceitou o pedido de casamento do seu pai, e vingou-se depois. No original, há uma série de traições, o pai é um fraco, um homem que contempla o suicídio mas que, até nisso, é sobretudo uma figura hesitante. Agora, sobressai o ódio aos homens incutido a Júlia pela mãe. E o triunfo desta adaptação está na capacidade de Teresa Tavares não interpretar um diagnóstico claro, algum desequilíbrio identificável, mas navegar o espectro, dançando a sua própria indefinição. De algum modo, nos círculos que traça à volta de João e, ele dela, desenham o abismo próprio deste tempo, deixando claro que a crise desta época é, acima de tudo, a de um vazio feito de excessos. 

Sobre Júlia, Hamlet tinha a vantagem de ser assombrado pelo fantasma de um pai irado, exigindo-lhe vingança pelo hediondo crime que lhe tirara a coroa, a mulher e a vida. Julia não tem contra quem virar-se, não tem uma injustiça que lhe rasgue o espírito de tal modo que a faça perder a razão. E, no entanto, perde-a. Tem o desejo abraçado à mesma vertigem que faz dela um ser para a morte.

Por seu turno, João é interpretado como uma figura de um discernimento notável, quase cruel, passando até por um oportunista, alguém que ambiciona ascender socialmente. Mas também João Villas-Boas salva o criado de ser uma figura uni-dimensional. Há um ritmo psicológico nestas personagens, uma cadência no seu jogo de poder. Um pacto entre dois cúmplices que, um através do outro, se libertam da sua condição e a transcendem, apenas para enfrentar novos dilemas, já não como personagens, mas actores de um drama mais vasto do que antes. 
Passeando sobre as ruínas deste clássico, há matéria aqui para toda essa reflexão, mas a consciência de que hoje somos capazes não nos salva do desamparo de isso não nos servir de nada. Daniel Gorjão explicou ao i que tenta servir-se “dos textos clássicos para comunicar alguma coisa que para mim seja premente”. “O texto clássico, por ser uma matéria prima tão rica e consolidada, permite criar uma dramaturgia alicerçada nela, que parta dela para comunicar outros pontos de vista”, adianta.

O encenador frisa que fez este espectáculo para os actores, acedendo ao pedido de Teresa para fazer “Menina Júlia”, uma vez que isso vinha de encontro à lógica do trabalho que tem desenvolvido ao revisitar textos clássicos. “A minha tentativa neste espectáculo foi levá-los ao seu ponto máximo de exposição íntima. Os actores estarem expostos intimamente frente ao público. Tanto que não trabalhei o conceito de personagem, trabalhei o lado da exposição. É isso o que me interessa nos actores, e, particularmente, nesta peça. Saber como é que a Teresa e o João lidam com estas palavras e com esta situação. Eles próprios. Daí esta grande exposição ao darem-se às palavras do Strindberg e mostrarem-se ao público.”