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Fernanda Liz. ‘Tem de se procurar uma forma saudável e segura para se estar nesta profissão’

Tem 27 anos, mede 1,81 e pesa 60 kg. Desde os oito que «deixa a mãe louca» para fazer trabalhos relacionados com moda. Já desfilou para marcas dos mais referenciados criadores de moda do mundo, como a “Givenchy”, e foi escolhida para ser a protagonista da coleção de lingerie, “My Intimate Cantê”, lançada na quarta-feira. O b,i. foi conhecer a modelo brasileira que, a par de Isabeli Fontana e Lais Ribeiro, é considerada a mulher mais bonita do Brasil. Desde ter sido descoberta num centro comercial à mudança de país, Liz fala ainda do lado negro da moda, das dietas que desistiu de fazer e da atual situação política no país onde cresceu. 

Como começou o seu percurso? Sei que com oito anos gravou o seu primeiro anúncio... Como é que uma menina entra no mundo da moda?

Pois é, não sei se se lembra da época das Chiquititas, aquelas meninas que viviam num orfanato? Eu era apaixonada, queria ser uma delas. Sou capricórnio de signo, sou super teimosa, tudo o que eu queria eu ia sempre atrás, o que deixava a minha mãe louca. Queria ser uma Chiquitita [risos]! Então a minha mãe começou a procurar alguém e encontrou uma senhora em São Paulo que trabalhava numa agência de modelos para crianças. Ela disse: «olha eu não conheço nada das Chiquititas, mas vai haver um concurso para crianças e se a Fernanda quiser pode ir». E eu fui. Nesse concurso, fiquei em primeiro lugar e ganhei books de agências de crianças.

Com oito anos...

Sim, tinha oito anos. Fui logo convidada a fazer anúncios da Barbie, do Buzz Lightyear, do filme “Vida de Inseto”...

A partir daí apercebeu-se que era mesmo isso de que gostava?

Sim, era aquilo. Tanto que eu depois esqueci as Chiquititas e continuei [risos]. Com 13 anos, estava no centro comercial com a minha mãe e apareceu o Gustavo [Vicenzotto], dono da Mega Model Agency [conhecida por ser a melhor e mais conceituada agência de modelos do Brasil]. Viu-me e chamou-me para ir à agência. Com 15 anos já estava a morar em Nova Iorque. 

Sozinha?

Inicialmente fui com a minha mãe, que sempre foi muito preocupada e muito presente na minha vida. A moda é uma profissão muito dura e solitária, a minha mãe foi mesmo muito importante em todo o processo.

Como é que uma adolescente encara uma mudança dessas?

Para mim foi mais fácil por ser de São Paulo. Normalmente as meninas são do sul e do interior, aí a mudança é mais complicada. Tanto que há muitas meninas que se perdem porque passamos a ter muitas oportunidades, mas muitas delas más. A minha mãe sempre me alertou muito e isso foi precioso para eu saber que tinha de ter muito cuidado. É por isso que eu digo que no meu caso foi mais fácil. São Paulo é uma cidade muito grande assim como Nova Iorque, mas não deixa de ser uma grande mudança. As pessoas acham que é uma profissão fácil, que é só posar para as fotografias e já está, acabou. Não é assim.

É fácil ceder às tentações mais imediatas?

Exatamente. Há muitas raparigas que se perdem e é por isso que eu gosto sempre de contar um pouco da minha história para alertar. Têm de procurar uma forma saudável e segura para estar nesta profissão, porque muitas não têm o apoio da família, nem uma estrutura psicológica e acabam por se perder.

Até agora, qual considera ser o seu ponto alto da carreira?

Para mim foi, sem dúvida, quando fiz o desfile para a “Givenchy”, em 2015. Sempre tive o sonho de fazer a Fashion Week e com os padrões da moda em que as meninas são todas muito magrinhas eu acabava por ser diferente, tive de me adaptar, o que demorou um pouco. Nos sítios onde sempre trabalhei não importava se eu estava um pouco maior, eram clientes mais para anúncios. Mas o meu grande sonho era ser modelo internacional e que o meu trabalho fosse reconhecido. Para conquistar o mercado internacional eu sabia que tinha de estar no padrão de beleza exigido.

O facto de estar fora desse padrão fez com que fosse rejeitada em algum trabalho?

No, início sim. É muito difícil e competitivo, se não estás dentro do padrão há mil raparigas que estão.

Fez algum tipo de sacrifício para chegar ao dito ‘padrão desejado’?

Sempre procurei ser o mais saudável possível, e foi assim que me consegui adaptar melhor. Eu cheguei a tentar fazer a dieta do abacaxi, da sopa, da proteína e nada resultou porque aguentava uma semana, mas depois estava a comer que nem uma louca [risos]. Aprendi a alimentar-me porque às vezes a pressão da moda é muito difícil. Vai haver sempre clientes que reclamam da pele, do nariz, do dente que é torto, ou porque o quadril [anca] está grande. Temos de aprender a lidar com o não, é o mais importante.

O mundo das dietas é algo que vos assombra o pensamento constantemente?

Para mim é um grande sacrifício. Amo comer e tive de fazer essas dietas loucas. Mas hoje em dia, como de tudo [risos]. Há dias em que me apetece pizza e batatas fritas, então escolho um dia da semana e como. Não dá para contrariar a vontade, comigo não funciona! Há outras modelos que conseguem ficar sem comer, mas no meu caso se o fizer fico com vontade de comer o dobro [risos].

Começou como modelo fotográfico e só mais tarde é que deu o salto para a passerelle. Como se dá essa transição?

Lembro-me muito bem. Foi na altura em que emagreci 7kg. Estava a ir para o Carnaval no Brasil e ligaram-me a dizer para ir fazer umas polaroids [fotos] porque havia uma oportunidade em Paris. Sempre foi o meu sonho, só que era uma realidade muito distante para mim porque tinha de ter metade do peso com que estava. 

Perdeu os 7 kg por opção ou porque lhe foi exigido?

Na altura fiquei muito mal com a morte do meu pai, vítima de cancro, e deixei-me levar pela a tristeza. Comecei a comer muito pouco e a ir ao ginásio e acabei por emagrecer muito. Aí o Riccardo Tisci escolheu-me para ser exclusiva no desfile da “Givenchy” em Paris. Foi maravilhoso e para a minha carreira foi um boom.

Ouve-se cada vez mais que a moda está a começar a aceitar as mulheres com um ‘padrão normal’, ou seja, sem as magrezas excessivas. Concorda?

Parece que sim. Eu ainda vejo muitas modelos anoréticas e é triste.

É recorrente ver colegas suas anoréticas?

Há muitas meninas muito magras e nunca sabemos se são de facto anoréticas, porque há casos em que podem comer de tudo, e eu tenho muita raiva delas [risos].

Tenho lido que é muito comparada à Gisele Bündchen... 

É maravilhoso. Sinto muito orgulho de mim mesma [risos]. Ouvi isso do Paulo Borges [criador do Fashion Week do Brasil] e foi muito bom. É ótimo ser comparada com a Gisele, mas acho que ela é incomparável. Quem me dera chegar pelo menos um bocadinho perto dela, mas fico muito feliz que digam isso. Lutei muito para chegar onde cheguei. Há meninas que têm sorte e outras que têm de acreditar. A minha carreira está a subir aos bocadinhos, mas estou a chegar lá porque eu sempre acreditei no meu sonho. Quando és dedicada e vais à luta, não importa quanto tempo pode demorar, mas as coisas acontecem. A Gisele chegou, chegando... Ela rebolava na passerelle e tem uma outra mais valia, a de saber comunicar com as pessoas. Lindas todas são, umas mais do que outras e muitas vezes nem as que são mais bonitas têm tanto sucesso, é preciso ter mais alguma coisa e a Gisele tem isso. 

O que é que é preciso além dessa primeira impressão ‘da cara bonita’?

Atitude, saber posicionar-se, ser educada. Por exemplo, a Gisele é um monstro de moda, mas ela é atenciosa com a empregada tal como o é com um fotógrafo ou com um estilista e é essa simplicidade que faz a diferença. Este mundo é muito difícil. Identifico-me muito com ela, principalmente quando diz que a partir do momento em que aceita um trabalho não reclama, dá o seu melhor. Eu também sou assim.

Há cerca de um ano tentaram implementar uma lei, em Londres, de proibir cartazes de modelos em biquíni [caso da Adriana Lima numa campanha de publicidade] porque acharam que não seria correto que as adolescentes pensassem que aqueles corpos seriam os ‘normais’. Acha que isso pode mesmo acontecer?

Acho que não. Nem sabia que isso tinha acontecido. Há espaço para toda a gente, agora até são feitas campanhas com modelos plus size! É como em tudo na vida.

As modelos plus size vieram preencher uma lacuna na moda?

Com certeza. É importante. Há pessoas que não entendem, dizem que as modelos são todas demasiado magras, até a mim, que sou uma modelo com curvas dizem que eu tenho um aspeto de doente. Assim, pelo menos, para as pessoas com essa opinião, já existe outro padrão, que mostra como modelos plus size também são bonitas.

Tem uma lista das campanhas que gostaria de fazer enquanto modelo?

Tenho sim, tenho metas.

Entre campanhas publicitárias e passerelle, qual prefere?

Gosto muito de foto! A passerelle é muito rápido, é uma fantasia. Quando fazes um desfile ficas lá cinco horas sem fazer nada, nem há comida [risos]. Sim porque ali ninguém come [risos], eles querem-nos a todas magras. Tudo isso para assim que começa o desfile teres um minuto na passerelle e acabou, já está.

E esse minuto não compensa?

É assim, a adrenalina na passerelle é incrível, mas eu consigo mostrar muito mais quem sou a ser fotografada. 

Como vives em Nova Iorque provavelmente conhece a Sara Sampaio... Qual é sua opinião?

Ela é linda, super talentosa e tem crescido cada vez mais. Eu sou mais bonita do que ela [risos]. Pelo amor de Deus, estou só brincando. Ela é linda e está conquistando cada vez mais o mercado. Não a conheço bem ao ponto de lhe falar e tal, mas acho que ela é maravilhosa!

Ser modelo da “Victoria’s Secret” é um sonho?

Quando comecei era muito um sonho. Hoje em dia, continua a ser, mas depois de entrar no mercado a gente vê que não é tão importante. Claro que as meninas que fazem VS [Victoria’s Secret] acabam por ficar muito conhecidas porque o marketing é muito pesado, mas ainda assim, vejo algumas que fazem um desfile e acaba por não acontecer nada com elas. Eles mudaram muito o padrão de beleza da Victoria’s Secret, antes eram mulheres como a Naomi Campbell, Gisele Bündchen, Adriana Lima, Alessandra Ambrósio, todas maravilhosas. Hoje as meninas da VS são muito magras e muito novas. Bom, também é a estratégia de marketing deles.

Acha que as redes sociais, onde as pessoas se autopromovem, vieram aumentar a competitividade no mundo da moda?

Nem me fale. É uma loucura! Hoje em dia conta tudo, de quem são filhas, de quem são amigas e eu fico um pouco chateada. Um pouco não, muito chateada [risos], porque acho que não é justo. Muitas vezes até são lindas, mas eu por exemplo que ralo há tantos anos para conseguir o meu lugar no mercado e aí chega uma menina que é filha de não sei quem ou que a mãe é não sei o quê, que chega e começa a fazer tudo? É muito triste. Realmente a competição com as redes aumenta muito e ainda tem aquele negócio das blogueiras... Hoje em dia tudo é media social e acabam tirando o nosso papel, entendeu? Hoje em dia as marcas pegam e pagam a uma blogueira para colocar posts sendo que poderiam estar a fazer campanha e não estão fazendo mais porque o retorno talvez seja muito maior com essas meninas.

Como é que é lida com a nudez? Já fez algumas produções mais ousadas...

Já posei nua sim. Para a Lui Magazine [uma das revistas mais conhecidas de Paris]. A Gisele Bundchen já fez e a Kate Moss também. Óbvio que não é das coisas onde me sinto mais confortável, mas eu saí na capa. Aliás, eram três capas - eu, a Isabeli Fontana e a Lais Ribeiro - as três mulheres mais lindas do Brasil. Foi incrível para mim. A moda tem muito este negócio artístico que muita gente às vezes não entende mas que é importante. Claro que depende com quem é que se vai trabalhar se for uma coisa que me vai fazer subir de nível na minha profissão então eu vou fazer. Mas lógico que não é das coisas mais confortáveis...

Quais são as tuas metas a curto prazo?

Quero ser capa da “Vogue” nas várias edições pelo mundo inteiro. Já fui várias vezes capa da “Vogue Brasil”, estou cá para fazer a campanha da “My Intimate”e vou fazer também “Vogue Portugal”, mas o meu grande sonho é fazer a “Vogue” francesa. Vai ser difícil, mas vou chegar lá! Tenho de acreditar! A nível pessoal, é o meu noivo [Fernando Sarahyba] vir morar para Nova Iorque. Acabei de ficar noiva no ano novo! 

Já há data?

Pois, o problema é... Como é que vamos ficar juntos? Namoramos há quase seis anos, mas ele mora no Brasil e eu em Nova Iorque. Ele sempre me apoiou e sempre soube do meu sonho, nesse aspeto ele é muito bom. Ele entende realmente o meu trabalho o que é super importante senão não teria dado certo até hoje.

Parece-me que está fora de questão ir para o Brasil, portanto o seu noivo terá de ir para Nova Iorque... 

Pois é, e eu não quero voltar para o Brasil porque a situação lá está crítica. Graças a Deus vou muitas vezes trabalhar lá, mas para casar a gente tem de achar um jeito de ficar junto.

Como é que olha para a atual situação política no Brasil?

É muito triste, até porque é um país tão lindo e que todo o mundo ama e admira, é mesmo muito triste. Fico feliz porque não estou a viver lá..

E sobre o Temer?

O Temer tem de ser preso, e nem quero ver quem será o novo presidente. Mas fico feliz porque pelo que tenho visto o Brasil logo vai dar um ‘up’, pelo menos está tirando essa roubalheira toda e tem tudo para dar um ‘up’. Espero que o próximo presidente seja uma pessoa que mude a economia e segurança do Brasil. Tenho esperança de que vai dar tudo certo.

É primeira vez que cá está? O que está a achar de Portugal?

Eu vim duas vezes a Portugal em trabalho, mas foi chegar, trabalhar e ir embora. Desta vez, ainda fui jantar ao Duplex, no Chiado, vi um bocadinho da cidade e o que vi adorei! Lindo, lindo, lindo! Espero que da próxima vez que venha a Portugal consiga conhecer ainda melhor.