Sociedade

‘Costumo transportar vinho, agora levo água'

Para prevenir a falta de água, 27 camiões-cisterna estão a transportar 3300 metros cúbicos de água por dia para Viseu. O SOL acompanhou uma dessas viagens, que só deverão terminar daqui a um mês.

É por uma estrada estreita que entramos em Bigorne, no concelho de Lamego, vindas da EN2, depois de sairmos da A24. À chegada, dois camiões-cisterna da empresa Paulo Duarte estão parados à beira da estrada. Estão ali para levar água a Viseu, cujas reservas estão perto de ser insuficientes para garantir o abastecimento de toda a população, devido à seca que se tem feito sentir. 

«A água que está a ser recolhida aqui vem da Barragem de Pretarouca», explica Nuno Borges, da Águas do Norte. A sua função é acompanhar as operações de abastecimento de água nos camiões e, apesar do frio e da chuva que insiste em cair, recebe-nos com um sorriso que nunca perde até ao fim do dia. Para o aquecer tem apenas uma pequena fogueira improvisada à beira da estrada.

Entre as oito e as 19 horas há um movimento quase constante de camiões que chegam e partem, algo atípico para esta pequena aldeia - à data dos censos de 2011, Bigorne somava 46 habitantes. É isso, pelo menos, que nos diz mais tarde uma funcionária do restaurante A Giesta, situado a poucos passos do local onde os camiões abastecem.

Enquanto um camião abastece, o(s) outro(s) aguarda(m) a sua vez. É através de um furo na terra que um tubo azul leva a água até um mecanismo com uma torneira, de onde sai uma mangueira vermelha, ligada à cisterna do camião. O enchimento demora cerca de 15 minutos.

A viagem da água

Miguel Monteiro é um dos motoristas incumbidos de fazer o transporte do recurso de que Viseu mais precisa neste momento. «Costumo transportar vinho daqui da região ou outros produtos alimentares. Em 11 anos,  é a primeira vez que  transporto água e é bom sinal se não o fizer novamente no futuro», diz, consciente da importância e da excecionalidade deste trabalho.

«Outros três colegas meus estão a fazer o percurso da Barragem do Vilar, perto de Moimenta da Beira, para  Mangualde. O resto da equipa, faz este percurso», conta.

Costuma fazer o percurso sempre sozinho, uma vez que «não é preciso mais ninguém»  - mas desta vez vai acompanhado e explica todo o processo ao longo da viagem.

Saímos de Bigorne pela EN2 e voltamos à A24 com destino a Viseu, um percurso que demora cerca de uma hora e que Miguel faz todos os dias, várias vezes por dia. Vai a Bigorne carregar a cisterna - previamente desinfetada por robôs próprios na filial em Lamego, segundo explica - e conduz até Viseu, ao Reservatório do Viso, onde a água é descarregada. Depois, volta a repetir a viagem.

«O normal é que cada motorista faça esta viagem três ou quatro vezes por dia», diz Miguel Monteiro. O relógio marca perto das quatro da tarde e esta é a terceira viagem que faz hoje. Reconhece que o caminho, com muitas árvores e verde a perder de vista, é bonito, mas torna-se rotineiro e às tantas já nem olha para a paisagem.

Está a trabalhar desde cedo. «Comecei às 7h30», diz. Questionado sobre a dureza do trabalho, responde apenas que «tem de ser, se há falta de água, a gente tem de repor».

Nesta cisterna - tal como nas restantes 26 cuja função nestes dias é o transporte de água  para Viseu - vão 25 mil litros, transportados a uma velocidade máxima de 90 km/h. É que, como Miguel Monteiro explica, os veículos pesados «têm um sistema de corte que, quando  se chega aos 90 km/h, não deixa acelerar mais». A água somada ao peso do camião perfaz 40 toneladas.

Aproxima-se o fim da viagem e viramos na terceira saída da A24, em direção a Viseu Norte, onde fica o Reservatório do Viso, destino da água carregada na cisterna. Vai integrar a rede de distribuição de água de Viseu, e o seu destino final são as torneiras dos munícipes. «É água potável», assegura Miguel Monteiro.

À chegada ao reservatório, há pouco movimento - apenas  cinco homens e dois camiões. «Há alturas em que chegam a estar aqui seis camiões para descarregar a água», acrescenta Miguel Monteiro.

«Quando chegamos, o operador do reservatório diz-nos onde devemos parar». E assim é: Monteiro encosta o camião junto a um dos depósitos de água que compõem o reservatório para fazer a descarga. «A descarga demora entre 20 e 25 minutos», diz.

É Carlos, da Águas de Viseu, que completa a última fase do processo. Liga uma mangueira cinzenta à cisterna, que está ligada a um motor cuja função é puxar a água até ao depósito, uma estrutura em betão que deverá receber 2.150 metros cúbicos de água durante toda a operação.

Entretanto, quase 20 minutos depois, Miguel sobe a escada que o leva até ao cimo da cisterna  para confirmar se está vazia. «Está quase», diz a Carlos. Mais alguns minutos e está concluído o processo. E então voltamos para o camião com Miguel Monteiro para fazer o percurso contrário. 

Chegamos a Bigorne já de noite, pelas 18 horas. Lá, pronto para encher mais um camião, está Nuno Borges, que nos recebe com outro sorriso. E o ciclo repete-se.

Objetivo: garantir águanas torneiras

«Viseu e os seus 100 mil habitantes dependem em 80% da Barragem de Fagilde, Mangualde e Nelas dependem 100% e Penalva do Castelo depende em 10% desta barragem», nota ao SOL Almeida Henriques, o presidente da Câmara Municipal de Viseu.

Atualmente, a capacidade da barragem está reduzida a 15%, um valor histórico que ditou a necessidade de traçar um plano alternativo para garantir que não faltava água nesses quatro concelhos viseenses. Com uma capacidade total de 4 milhões de metros cúbicos, a barragem tem apenas 600 mil litros em depósito.

«Numa situação de consumo normal - neste momento estamos abaixo do consumo normal -, este grupo de concelhos consome 20 mil metros cúbicos por dia, o que significa que a água que resta na Barragem de Fagilde dá para 30 dias», explica Almeida Henriques. Para fazer frente à seca, estes municípios adotaram já há alguns meses medidas de contingência no consumo de água junto da população e, por isso, o consumo diário reduziu-se. «Estamos a consumir cerca de 16 mil metros cúbicos por dia», diz o presidente.

É certo que o país está a atravessar um período crítico de seca severa e extrema e que esse é o principal motivo para a capacidade atual da barragem, mas não é o único.

«Além da seca em si, este ano a Barragem de Fagilde foi bastante requisitada por causa dos incêndios. Foi a barragem onde recorreram os bombeiros para irem buscar água, designadamente para o apagamento dos incêndios com helicópteros», comenta o autarca. Isso, a par do calor que se fez sentir e que provocou uma evaporação da água acima do normal, resultou numa acentuada diminuição do caudal.

E a resposta encontrada para a seca foi, então, a compra de água a outros serviços. «A cidade de Viseu consome mais ou menos 12 mil metros cúbicos por dia, e com esta operação estamos a reduzir em um quarto as nossas necessidades em relação a Fagilde», continua o presidente. O objetivo? «Continuarmos a transferir para Nelas, Mangualde e Penalva do Castelo mais  ou menos o mesmo caudal que costumamos transferir».

Almeida Henriques garante que a despesa é assumida na totalidade pela Câmara Municipal de Viseu e que não resulta em aumentos nas contas dos munícipes no final do mês. «A Câmara de Viseu vai suportar esta despesa excecional - cerca de 15 mil euros diários - e vai continuar a aplicar a taxa que está contratada com os clientes». Para este efeito, o Governo abriu uma linha de subsídio de fundo perdido de 250 mil euros.

Apesar da chuva que tem caído nos últimos dias, Almeida Henriques acredita que a operação venha a ter a duração de um mês, pelo que prevê uma despesa total de meio milhão de euros. Tudo, para garantir que os munícipes continuam a ter água nas torneiras - ainda que com menos pressão, diminuída em 25% pela autarquia.

Para o autarca, esta situação era evitável. «Este problema podia não estar a acontecer. Sou há quatro anos presidente da câmara e quer com o Governo anterior, quer com este tenho vindo a solicitar autorização para colocar ensecadeiras permanentes - barreiras que permitem armazenar mais água no inverno - na barragem. Foi dito sempre que sim, mas a Agência Portuguesa do Ambiente depois nunca avançava com a obra».