Sociedade

“Não há nenhum hospital em Portugal sem problemas nos equipamentos”

Ordem dos Médicos promete apresentar levantamento sobre necessidades do SNS no início de 2018

“Grande parte dos equipamentos hospitalares estão fora do prazo ou a precisar de fazer manutenção obrigatória, o que em muitos casos não tem sido fácil.” O alerta foi feito ontem pelo bastonário dos médicos num encontro com a imprensa. Esta é uma das matérias que preocupa a ordem que, em vésperas de aprovação do Orçamento do Estado, considera insuficiente o Estado alocar 5,2% do PIB à saúde quando a média na OCDE é de 6,5%.

Miguel Guimarães considerou também “pouco” os 160 milhões de euros destinados pelo Ministério da Saúde a investimentos no SNS – ainda assim, mais 50 milhões do que no Orçamento deste ano.

O bastonário lembrou que o ministro da Saúde chegou a estimar serem necessários 800 milhões de euros para a substituição ou aquisição de novos equipamentos para o SNS. “Mesmo que desses 160 milhões apenas 100 milhões se destinem a equipamentos, seriam necessários oito anos para fazer essa substituição”, disse Miguel Guimarães, que alertou para que o problema é transversal a todo o SNS. “Não há nenhum hospital em Portugal que não tenha problemas com equipamentos. Às vezes são os hospitais mais insuspeitos, os maiores, que têm dificuldades”, acrescentou o médico, lembrando que o Hospital de São João, durante anos classificado como o melhor do país, só recentemente teve uma TAC de última geração.

Contra os levantamentos da tutela Na discussão do Orçamento no ano passado, o governo anunciou um plano de reequipamento tecnológico para o horizonte 2017/2019, com calendário e verbas definidas.

Nos últimos meses, o i procurou obter um ponto de situação sobre esse plano, que nunca foi apresentado publicamente pela tutela. Em setembro foi finalmente esclarecido que o plano estava em curso, tendo o governo mais de 700 intervenções planeadas e que podem ser consultadas no portal do SNS, numa página com o título “Planos de investimentos de 2017-2019” onde está disponível o resultado do levantamento feito pela tutela ao longo dos últimos meses, bem como a calendarização das intervenções. Tal como acontecia em setembro, o espaço para informação adicional em cada projeto permanece “em atualização”.

Guimarães defende que não deve ser o ministério a fazer os seus levantamentos, mas sim entidades externas. Sobre esta matéria, a ordem promete apresentar uma lista das necessidades nos hospitais no primeiro trimestre de 2018. O tema também foi suscitado no debate do Orçamento na especialidade pelo CDS, que pediu mais transparência no OE/2018. “Não discrimina investimentos nem os prioriza, o que aumenta o risco de incumprimento de promessas”, disse a deputada Isabel Galriça Neto.

Fuga de médicos No primeiro encontro com os jornalistas desde a tomada de posse, em fevereiro, Guimarães reiterou outra preocupação da ordem: o facto de ainda não ter aberto o concurso para o recrutamento dos especialistas hospitalares que terminaram a formação em abril. O bastonário diz faltarem 4 mil a 5 mil médicos no SNS, considerando “incompreensível” que os concursos demorem tanto tempo a abrir numa altura em que a procura do privado tem estado a aumentar. E deu o exemplo dos 32 anestesiologistas que concluíram formação, questionando quantos continuarão disponíveis para trabalhar no SNS. Guimarães revelou também que já houve pedidos destes jovens médicos para emigrarem. No parlamento, o ministro garantiu que o concurso abrirá “dentro de dias”.

Mesmo havendo margem para mais contratações no SNS, Miguel Guimarães repescou a ideia defendida nos últimos anos por médicos, estudantes e reitores de que é necessário reduzir o numerus clausus nas faculdades de Medicina, que se tem mantido nas 1500 vagas, uma vez que atualmente está a ser posta em causa a qualidade da formação. A mesma ideia tem um grupo de estudantes de Medicina que esta quinta-feira entrega uma petição no parlamento com mais de 5 mil assinaturas, a pedir um debate sobre a qualidade da formação médica no país e a criação de uma comissão de avaliação externa para esta matéria.